Por Rafael Mesquita
Ela construiu uma identidade própria que vai muito além do sobrenome de peso e da herança do maior conglomerado de mídia do Centro-Oeste brasileiro, o Grupo Jaime Câmara, cujo o anúncio da venda do controle acionário à Rede Matogrossense de Comunicação (RMC), empresa do Grupo Zahran, foi feito na semana passada. Embora o controle passe para a companhia do estado vizinho, a holding da família Câmara permanecerá na estrutura societária do grupo com participação de 15% após a conclusão da operação.
Filha de Jaime Câmara Júnior, presidente do Grupo Jaime Câmara, Larissa escolheu trilhar um caminho de profunda investigação interna e sensibilidade humana. Atuando como psicóloga clínica, psicanalista lacaniana, com mais de 15 anos de estrada, e consultora, ela subverteu o roteiro tradicional esperado de uma herdeira corporativa para se tornar uma ponte viva entre o mundo dos negócios, as artes e as dores da mente humana.
Como em muitas trajetórias familiares marcadas por grandes legados, a jornada de Larissa Roriz Câmara Guimarães começou sob o peso do que se esperava dela. Influenciada pelas demandas e estruturas de sua família, ela iniciou sua formação acadêmica cursando Direito. O ambiente rígido e burocrático dos tribunais e escritórios logo revelou que aquela não era a sua verdadeira vocação. “Meu primeiro emprego foi em um estágio de um escritório de advocacia, mas percebi que não era a minha ‘vibe’”, conta.
Sua primeira grande escola de empreendedorismo frequentou quando tinha apenas 18 anos de idade. Na época, havia retornado há pouco de um intercâmbio em Paris. A Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado (ACIEG) iniciou um grupo de formação para jovens filhos de empresários goianos. Foi um ano proveitoso que ajudou Larissa a se interessar pelo mundo corporativo e a aprender bons ensinamentos que ela levou para a vida. “O Erivan Bueno (presidente da Acieg na época) dizia que só trabalhava com pessoas mais inteligentes que ele. Aquela frase me soou muito diferente. Então, percebi que se eu chegasse a um lugar em que começasse a ensinar e não mais a aprender, o meu ciclo naquela empresa havia chegado ao fim”, afirma.
A prática corporativa ocorreu em 1994, no ‘boom’ da internet. Jaime Câmara Júnior decidiu investir em um negócio ligado à comunicação. Começava ali, a provedora ZAZ. Tendo como sócios Júnior e os filhos (Larissa, Cristiano e Jaime Câmara Neto), a ideia era desenvolver um pequeno negócio em que o erro era aceitável. “Ocupei o cargo de diretora. Se fôssemos direto para o Grupo Jaime Câmara, a cobrança sobre nós seria muito maior”, acredita.
A provedora de Internet fornecia o serviço para cerca de 4 mil pessoas físicas e jurídicas. A experiência durou dois anos, quando a empresa foi vendida para a própria franqueadora, a Terra. “Minha expectativa era continuar trabalhando para eles, mas a Terra tinha um projeto de descentralização e foram para Porto Alegre”, destaca.
Logo depois, o pai lhe faz uma proposta: participar da empresa de telemarketing TMK, ligada ao Grupo Jaime Câmara. A experiência prometia algo intenso e desafiador. Ali, com apenas 24 anos de idade, Larissa deparou-se com problemas profundos de administração e com um sócio de temperamento complexo.
“Virei diretora geral, compramos a parte do sócio e fizemos uma mega revolução por lá. Em um ano organizamos a empresa”, conta. Muito do sucesso aconteceu com o apoio do consultor Nelson de Carvalho Filho que lhe ensinou desde o planejamento estratégico até a precificação de serviços. Entre os clientes, estavam: Saneago, O Popular e pequenas empresas.
Com a entrada das telefônicas no País, após a privatização do setor, os grandes call centers chegaram ao Brasil. “Ficamos pequenos para competir no mercado e os sócios decidiram reduzir as atividades da TMK”, recorda. Foi o momento em que Larissa colocou em prática o ensinamento de Erivan Bueno e deixou a empresa após seis anos.
Quando o Grupo Jaime Câmara passou por um intenso processo de profissionalização, Larissa manifestou o desejo de atuar diretamente na gestão. “Eu queria participar ativamente daquele momento do Grupo. Queria ser parte do centro de decisões, não de atividades secundárias”, explica. Uma reestruturação institucional interna, contudo, fechou as portas daquela vaga. O que parecia um revés corporativo foi, na verdade, o empurrão que ela precisava para encontrar sua verdadeira vocação fora da empresa familiar. Ela decidiu retomar o curso de Psicologia, que havia iniciado ainda nos tempos do Direito e trancado anos depois.



Psicologia e novas possibilidades
Em uma palestra de um empreendedor cearense, Roberto Matoso, Larissa reforçou o encanto pelo modelo de gestão empresarial voltado para as pessoas. “Já havia estudado a ideia de que o ser humano é que importa, não os processos e produtos. Aquele conceito mais uma vez me despertou”, explica.
Roberto a orientou a conhecer melhor a ideia através da consultoria mineira Lúmen. Quando retomou a Psicologia, Larissa atuou com a empresa e se surpreendeu com o novo mundo desvendado. “Eles tratavam a gestão cooperativa inserida na arte, na psicologia , na pintura. Entendi que era preciso esse conceito mais amplo para levar os negócios a frente”,
Larissa tentou trazer o conceito para empresas em Goiânia, mas não funcionou. “Na época, há mais de 15 anos, achava-se tudo isso muito abstrato. Queriam relatórios, metas. Nosso foco não era a metrificação do indivíduo”, avalia. A ideia era desenvolver o colaborador para que ele estivesse bem pessoalmente e profissionalmente. Mas o mercado local, na época, não entendia assim.
Após se formar e não conseguir emplacar o novo conceito em Goiânia, a psicóloga se desencantou pelo mundo empresarial. A única alternativa para não desistir desse universo seria se mudar para Belo Horizonte (sede da Lúmen), mas com o filho caçula recém-nascido não seria possível. Foi então que ela se apaixonou pela psicanálise, fez uma formação na área, e decidiu abrir uma clínica com foco no desenvolvimento de crianças e adolescentes. Problemas neurológicos, risco de autismo e transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) são algumas das questões trabalhadas por ela em consultório.
Em 2015, com o filho caçula um pouco mais velho, surge a convite da Lúmen a oportunidade de desenvolver um trabalho na Seguros Unimed, em São Paulo. A cada 15 dias, ela estaria na capital paulista. Mas ainda na fase inicial do projeto uma notícia inesperada: o início da pandemia de COVID-19. Era preciso se reinventar e mudar os hábitos de vida.

Pandemia, literatura e um novo universo
“Foi uma loucura”, assim Larissa define o período da pandemia. “Meu filho mais novo só tinha 9 anos e me perguntava o que era a morte”, recorda com tristeza. O primogênito com 15 anos, no ápice da adolescência, teve que voltar de um intercâmbio fora do País. Para piorar a situação, Larissa tinha medo de se tornar um vetor da doença para a família.
Isolada em casa com o marido, os filhos e os pais (que moram no mesmo condomínio), Larissa entrou em pânico ao ver no Jornal Anhanguera as notícias devastadoras sobre as mortes pela COVID. “Falei em um jantar com o meu pai: se nós, que temos acesso à informação, estamos perdidos, imagina a população em geral?”, recorda.
Foi então que surgiu a ideia de iniciar o projeto PsiQUÊ, em que especialistas tratavam do assunto. As reportagens sobre o tema eram exibidas na TV Anhanguera e publicadas no jornal O Popular. “Mostramos às pessoas que havia saída. Indicamos locais que oferecem atendimento em saúde mental. O medo, a ansiedade e a depressão tomavam conta daquele momento”, relata.
Outro desejo que se concretizou durante a pandemia foi o de ler livros da literatura clássica. Muito ligada às obras técnicas da profissão, Larissa sempre quis conhecer melhor os grandes autores mundiais. Começou por Crime e Castigo, de Dostoiévski, e percebeu que não havia compreendido o livro. “Procurei na internet se ainda havia uma alma neste mundo que também não entendeu a obra e achei um universo de pessoas”, conta.
Na Internet, um professor de história de São Paulo, Dante Gallian, a convidou para participar de um laboratório de leitura. “Cada um faz a sua leitura individual de um clássico da literatura e depois ocorre a discussão presencial ou online”, explica. Pouco depois, Larissa recebeu um convite para coordenar o laboratório e atualmente tem entre 40 e 50 alunos. “Muitas pessoas chegam com medo dos clássicos, mas a participação no grupo não exige conhecimento acadêmico. Falamos sobre nossos afetos, como a obra impactou, como foi a experiência de ler em grupo. A pessoa perde o preconceito”, relata.
Larissa ainda questiona que muitas pessoas costumam gostar de livros de autoajuda, mas não percebem que a bibliografia deles são os clássicos da literatura mundial. “Ali, encontra-se Sócrates, Platão, Aristóteles, Machado de Assis…”, avalia.
A lógica do laboratório de leitura é: ache a sua própria resposta. Trata-se da mesma ideia da psicanálise. “A gente precisa criar a nossa própria resposta, porque ela não existe. É só depois de fazer que vamos saber se vai ou não dar certo (conceito lacaniano, referência ao psicanalista francês Jacques Lacan)”, acredita.
A psicanalista afirma que a ideia se aplica no mundo corporativo. “Todo empreendedor tem pânico do erro. Mas a gente mostra o quanto o erro é importante e já salvou a humanidade, como é o caso da penicilina, primeiro antibiótico descoberto, que contribuiu para salvar vidas”, explica. Larissa afirma que aprender com o erro deveria ser tão fundamental no universo empresarial como é na ciência.
Em 2022, através de uma interlocução com o professor Jorge Forbes, do Instituto de Psicanálise Lacaniana (IPLA), instituição em que Larissa faz a sua formação em psicanálise, surgiu a ideia da criação do projeto IAí. Na abertura do ano letivo, o professor perguntou aos alunos se eles conheciam o ChatGPT. A psicóloga já sabia da existência, surpreendentemente, quem a apresentou pouco antes foi o pai. “Pensei: que loucura é essa?”, recorda.
Dessa inquietação, decide iniciar conversações com filósofos sobre as mudanças do século XX para o XXI. “O conhecimento que antes era o grande poder passa a ser unificado. Diminuiu-se a hierarquização, passamos a horizontalização, mas estamos perdidos, porque cada indivíduo ficou responsável por si mesmo”, analisa.
Reportagens sobre o tema foram veiculadas nos veículos do Grupo Jaime Câmara.





Orgulho da trajetória familiar
O barulho e o cheiro de impressora da gráfica do jornal O Popular trazem uma forte memória afetiva a Larissa. Ambiente mágico em que, de repente, um papel em branco começa a receber tintas e letras. “Quando chego lá e escuto o barulho, me dá até um quentinho no coração”, emociona-se. Tudo por causa do avô, criador do maior conglomerado de mídia do Centro-Oeste, Jaime Câmara, potiguar de nascimento, mas que ainda jovem veio tentar a sorte em Goiás. Faleceu em 1989.
Até os oito anos de idade, Larissa e a família moravam em Brasília. O seu pai, Jaime Câmara Júnior, ela define como uma pessoa que prefere estar longe dos holofotes. “Ele sempre foi muito discreto e nunca escondeu para os filhos que independente do Grupo gostaria que nos tornássemos profissionais liberais”. O desejo do pai deu certo. O mais velho, Cristiano Câmara, se formou em Engenharia (atua no mercado financeiro), Larissa é formada em Direito e Psicologia e Jaime Câmara Neto, graduado em Administração, já foi piloto de automobilismo e atualmente é piloto de helicóptero.
A mãe Maria Alice Roriz Câmara também é motivo de orgulho para Larissa. Ela e a avó Célia Câmara foram as idealizadoras do projeto da Fundação Jaime Câmara. Maria Alice ocupou a função de diretora geral, atuando por 25 anos na entidade. Posteriormente, Larissa foi conselheira e presidente do conselho da Fundação. A entidade, sem fins lucrativos, atua como braço social e cultural do Grupo, responsável por gerenciar e apoiar projetos de cidadania e preservação da memória histórica.
Larissa é casada há 24 anos com o empresário Juliano Rescalla Sabag Guimarães com quem tem dois filhos, Felipe, 21 anos, e Pedro, 16 anos. O mais velho faz faculdade em São Paulo voltada para o empreendedorismo. “O perfil dele é de ser curioso com o mundo”, destaca. O caçula está no ensino médio e também quer ir para São Paulo fazer faculdade e se preparar para atuar no mercado financeiro. “Um é o complemento do outro, quem sabe os dois trabalhem juntos no futuro?”, acredita.
A psicóloga avalia que todos os integrantes da família têm a sua particularidade, mas que de certa forma atravessam a história vitoriosa que os Câmara construíram. “Temos muito orgulho da trajetória do meu pai, do pioneirismo do meu avô. Da mulher a frente do seu tempo e mecenas da arte em Goiás que foi a minha avó. A história do Estado se funde com a nossa”, conclui.



















