Por Leandro Resende
A internacionalização do setor produtivo brasileiro, capitaneada pelo Centro-Oeste, ganhou uma nova e estratégica plataforma nesta semana com a abertura oficial da FICOMEX 2026, em Lisboa. Realizada pela primeira vez no exterior, a Feira Internacional de Comércio Exterior Brasil-Portugal projeta movimentar € 200 milhões (mais de R$ 1 bilhão) em negócios por meio de 200 rodadas comerciais que se estendem até a próxima segunda-feira (1º de junho).
No epicentro das discussões sobre o destravamento do acordo Mercosul-União Europeia, a Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (ACIEG), em parceria com a Faciest, surpreendeu o mercado ao lançar um ecossistema pioneiro de aplicações empresariais baseadas em blockchain voltado ao comércio global. “O movimento posiciona a entidade goiana como a primeira do País estruturada tecnologicamente para atender às novas e rigorosas exigências de compliance do bloco europeu”, destaca o presidente da Acieg e da Faciest, Rubens Fileti.
Outro anúncio importante nestes primeiros dias da FICOMEX, e que consolida o evento no calendário multilateral, foi o anúncio das duas próximas edições do evento: Goiânia, em 2027, e Beira (Portugal), em 2028.

Infraestrutura de confiança digital e a resposta ao EUDR
O anúncio do ecossistema de blockchain, detalhado pelo head de Inovação da ACIEG, Renan Santana, sinaliza uma guinada tecnológica para o empresariado do Brasil Central e do País. Desenvolvido no contexto da Rede Blockchain Brasil (RBB) – infraestrutura público-permissionada fundada pelo BNDES e pelo Tribunal de Contas da União (TCU) –, o projeto visa transformar Goiás em uma referência de confiança digital para o setor produtivo brasileiro.
Na prática, a tecnologia funcionará como um banco de dados digital compartilhado e imutável para mitigar riscos regulatórios. A plataforma abrange soluções estruturadas para: rastreabilidade de commodities; certificação digital verificável e validação documental; e comprovação de origem de produtos.
A iniciativa privada antecipa-se, assim, a barreiras não tarifárias iminentes, como o Regulamento Europeu Anti-Desmatamento (EUDR). “A transformação digital do comércio internacional passa pela confiança nas informações. A blockchain se consolida como uma infraestrutura estratégica para garantir transparência e segurança nas relações comerciais globais”, avalia Rubens Fileti. A entidade já iniciou os trâmites institucionais para aderir à RBB como participante associada.
O fator Mercosul-UE: Portugal como hub de valor agregado
Sob o tema “Do Brasil Central à Europa: Portugal como Plataforma de Internacionalização no contexto do Acordo Mercosul–União Europeia”, a solenidade de abertura no Auditório Municipal Ruy de Carvalho, em Oeiras, expôs o pragmatismo do setor produtivo frente aos mais de 25 anos de arrastadas negociações bilaterais. Mais de 250 autoridades, empresários e executivos dos dois países participaram da abertura do evento.
“A receptividade está sendo um dos pontos altos do evento. Temos muitas informações e estratégia a discutir durante o evento e o executivo europeu, de fato, está muito interessado em nos ouvir. A Acieg promove uma disrupção no que se refere a entidades brasileiras ao dar este grande passo. Este é o espírito de sempre da Ficomex: propor e executar as melhores práticas de comércio exterior”, aponta a presidente do Comex Acieg, Anna Bastos.
Com relação às resistências políticas de membros históricos da União Europeia, como França e Polônia, o ambiente de negócios em Lisboa demonstrou forte alinhamento com a agenda de integração. “Os empresários têm ouvido dos europeus que o Brasil é a bola da vez para aproveitar as oportunidades com esse acordo, não apenas para exportar a matéria-prima, mas também o produto final com valor agregado”, afirmou Fileti.
O debate técnico foi endossado por Paulo Cabral, deputado do Parlamento Europeu, e por Bruno Simões, primeiro-secretário da Embaixada do Brasil em Lisboa. Simões enfatizou: “Destacamos o pioneirismo da ACIEG ao trazer o debate diretamente ao continente europeu, assegurando a interlocução necessária para conferir segurança jurídica e previsibilidade tributária às companhias de médio e pequeno porte que buscam o mercado externo.”

Finanças, governança e fomento ao empreendedorismo feminino
Após a abertura oficial, a agenda estratégica deslocou-se para a sede da ApexBrasil, em Lisboa, convertendo-se em um ambiente de convergência para o ecossistema financeiro e corporativo. Ainda ontem, na parte da manhã, uma comitiva da Acieg realizou uma visita institucional ao Parlamento português (Assembleia da República), e, no fim da tarde, foi realizado um coquetel institucional na Embaixada do Brasil em Lisboa.
O sistema bancário europeu e as estratégias de captação de recursos no Velho Continente foram os temas centrais apresentados pelas private bankers Rita Jerónimo e Rita Moura, do banco espanhol ABANCA, que ratificaram Portugal como a principal porta de entrada ibérica para o capital brasileiro.
A agenda do primeiro dia também priorizou a governança de gênero e o fomento às redes de comércio internacionais. A ACIEG Mulher, representada por sua presidente, Tatiana Accioly, assinou um acordo de cooperação mútua com o Clube de Mulheres de Negócios em Língua Portuguesa, liderado por Rijarda Aristóteles. O tratado estabelece missões comerciais conjuntas e parcerias bilaterais focadas no protagonismo feminino em cargos de alta liderança global.
Paralelamente, painéis dedicados à tributação transfronteiriça Brasil-Portugal, conduzidos por especialistas do escritório Brasil Salomão, e sessões de cultura de tomada de decisão, promovidas pela Vistage Portugal, atraíram executivos de setores tradicionais, como a Associação Goiana de Supermercados (AGOS) e o Sindicato do Comércio Varejista no Estado de Goiás (Sindilojas).
Serão realizadas, na próxima segunda-feira, visitas técnicas dos setores de Alimentos e Bebidas e Inovação. As visitas serão à Sogenave, empresa com mais de 50 anos no setor, com oito plataforma logística de distribuição que cobre todo país, e ao Centro de Distribuição da Garcias, uma das principais empresas portuguesas focadas e especializadas na comercialização de vinhos e bebidas.
Com relação às visitas do setor de Inovação serão ao DNA Cascais, hub privado referência no país no fomento ao empreendedorismo, o comércio e a um ecossistema empresarial inovador e sustentável, e ao Taguspark, um complexo estruturado para transformação empresarial, que acolhe empresas, investidores, universidades e startups, em uma comunidade com mais de 19 000 pessoas.
Delegação de Empresas Brasileiras na Ficomex 2026
– Zetti Tech
– Água do Vale
– Cachaçaria Vale das Águas Quentes
– Bebidas Capueira
– GPX-7 Locação e Eventos
– Dtec Brasil
– Dtec Digital
– Alliance Odonto
– BNT Advogados
– Cállida Bebidas
– Destilaria Zanuto (Cachaça Zelluvi)
– Tropicana Agroindústria
– Alambique Caialua
– Limiro Hanum Advogados
– CNK Trade (CNPJá)
– Mapila Alimentos
– Aeroprest
– Cachaça Vale do Cedro
– Smarfter
– B21 Import & Export
– Ivana Menezes Concept
– Tatiana Accioly Advocacia
– CCO – Centro de Cirurgia Oral
– Lig Doctor
– Moinho de Pedras (Monatus)
Próximos passos: Economia verde e rodadas de negócios
O cronograma da FICOMEX 2026 avançou na sexta-feira (29) com foco direcionado à transição energética, mercado de crédito de carbono e inovação em ESG. “São agendas consideradas vitais para a sobrevivência das exportações de alimentos e bebidas na Europa”, destaca Rubens Fileti.
O fechamento da feira ocorrerá na segunda-feira, 1º de junho, com visitas técnicas operacionais e a conclusão das rodadas de negócios de prospecção multilateral. O evento conta com o patrocínio da Codego, da SIC Goiás e ABANCA, além do apoio institucional do Sebrae Goiás, da Prefeitura de Goiânia, da Câmara de Comércio da Região das Beiras e da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira.
Acieg entrega Comenda Erivan Bueno
Como ocorreu na edição anterior, durante a abertura da Feira, houve a entrega da Comenda FICOMEX Erivan Bueno, honraria em reconhecimento à trajetória e contribuições por relevantes serviços prestados ao comércio exterior e à internacionalização das empresas brasileiras.
O empresário Erivan Bueno foi presidente da Acieg, quando a entidade foi responsável por organizar missão internacional em conjunto com o Governo de Goiás, algo novo na época (há 32 anos) que o País tinha uma economia mais fechada ao comércio exterior. A missão organizada pela Acieg, mas que teve a frente o então governador Maguito Vilela, passou pela China e Japão, conquistando dois marcos históricos: Goiânia se tornou cidade-irmã de Hebei, província ao norte da China, que tem75 milhões de habitantes; e conseguiu, no Japão, negociar a instalação, em Goiás, da fábrica da Mitsubishi, algo inédito ter uma montadora no País fora do Eixo Rio-São Paulo.
“Cada presidente da Acieg deixou sua marca. Decidimos homenagear com o nome da comenda o saudoso Erivan, que com o também saudoso governador Maguito Vilela, foram visionários ao enxergar o comércio exterior como o motor da economia das próximas décadas. Junto a Erivan, homenageamos toda diretoria que o acompanhou em sua gestão”, destaca Rubens Fileti.
Nesta FICOMEX 2026, receberam a Comenda Erivan Bueno: Paulo Cabral, deputado do Parlamento Europeu; Ana Correia, presidente da Câmara de Comércio da Região das Beiras; Anna Bastos, presidente da Câmara de Comex da ACIEG; Ariel Viveiros, chefe de gabinete executivo da Administração de Goiânia; Joel Sant’Anna Filho, secretário da SIC Goiás; Luiz Antônio Rosa, presidente da Codego; Adonídio Neto, secretário da Sedicas Goiânia; Marco Samuel Baptista, empresário português; Otacílio Soares, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira; Paulo Matheus, gerente executivo do escritório da ApexBrasil em Lisboa; e Tarcísio de Abreu, secretário da SET Goiânia.

Ponte para negócios
A FICOMEX 2026 marca um novo momento para o comércio exterior brasileiro – e também para empresas que enxergam na Europa uma oportunidade estratégica de expansão. Entre os patrocinadores da primeira edição internacional da Feira está o ABANCA, instituição financeira que participa do evento com foco em internacionalização patrimonial, apoio corporativo e conexão entre investidores brasileiros e o mercado europeu.
Com atuação em 11 países da Europa e América, o banco tem presença de destaque na programação da Feira. Nesse contexto, a mesa-redonda “Portugal como porta de entrada para a Europa” foi realizada no dia 28 de maio, em Lisboa, com participação das Private Bankers do ABANCA, Rita Jerónimo e Rita Moura.
O debate integra a agenda da FICOMEX 2026, que reúne até 1º de junho autoridades, empresários e especialistas em torno do tema “Do Brasil Central à Europa: Portugal como Plataforma de Internacionalização no contexto do Acordo Mercosul–União Europeia”. A escolha de Lisboa como sede da primeira edição internacional da FICOMEX reforça exatamente o posicionamento estratégico defendido pelo ABANCA de integração.

Proximidade
Criado oficialmente em 2014, após um processo de consolidação de instituições financeiras ibéricas, o ABANCA consolidou-se como uma referência na Península Ibérica, especialmente nas áreas de Private Banking e atendimento corporativo. Atualmente, possui 930 pontos de venda no mundo, sendo 690 na Espanha e 229 em Portugal, além de escritórios de representação em São Paulo e Rio de Janeiro.
Segundo Rita Jerónimo, a instituição oferece um modelo de proximidade transfronteiriça que gera eficiência e alcance de resultados. “Nem sempre distante significa estar mais longe. O objetivo é tornar o processo de internacionalização mais seguro, ágil e estruturado”, explica.
Durante a FICOMEX 2026, o banco apresenta soluções e informações qualificadas de diversificação patrimonial, funcionamento do sistema bancário europeu, carteiras de investimento personalizadas, linhas de crédito premium, financiamento imobiliário e apoio à internacionalização empresarial.
Além da área de Private Banking, o ABANCA também possui forte atuação corporativa, oferecendo linhas de financiamento, crédito para comércio exterior, operações de confirming e soluções específicas para o agronegócio – setor que ocupa posição estratégica nas relações comerciais entre Brasil e Europa.
Sinergia na FICOMEX
A participação na FICOMEX representa ainda a estreia do banco no evento. Para Rita Jerónimo, o momento é de construção de relacionamentos e aproximação com empresários brasileiros interessados em ampliar fronteiras de negócios. “O interesse estratégico do ABANCA na FICOMEX 2026 reside na alta qualificação e sinergia do público presente, especialmente neste momento do Mercosul com a Europa”, destaca.
A atuação do banco surge como parte da infraestrutura necessária para transformar oportu-nidades em negócios concretos. “O potencial identificado pelo banco na FICOMEX está na oportunidade de demonstrar o seu modelo de atendimento único: a capacidade de oferecer uma estrutura de apoio dos dois lados do Atlântico, garantindo que o cliente internacionalize o seu património com a solidez de um banco líder na Península Ibérica”, conclui.













