Por Rafael Mesquita
A história de Celson Batista e Silva confunde-se com a própria identidade boêmia de Goiânia. À frente do Celsin & Cia, ou do Bar do Celsin (como é conhecido), ele transformou uma humilde portinha, aberta em 1991, em um dos melhores bares da cidade. Mais do que um empresário de sucesso, “Seu Celson” é a personificação do acolhimento que tornou o cruzamento das Ruas 15 e 22, no Setor Oeste, referência do happy hour goianiense e patrimônio afetivo da cidade.

A jornada de Celson começou sem grandes luxos, mas com uma determinação inabalável. Em 1991, o bar, que, hoje, recebe mais de mil pessoas por dia, era informalmente conhecido pelos clientes apenas como “Celson Bar”. Era uma única porta com quatro mesas na Rua 2, no Setor Oeste, bem próximo à escola infantil que pertence às cunhadas do empresário. Lá, o mineiro servia espetinhos e cerveja estupidamente gelada.
A ideia de montar o bar no local surgiu das próprias mães dos alunos. “Inicialmente, abri uma lanchonete, mas as mães que vinham buscar as crianças me sugeriram que eu vendesse cerveja a elas e espetinho para os alunos comerem depois da escola”, recorda. A novidade deu certo, e logo Celson ganhou também a clientela de moradores dos prédios próximos.

Em 1994, o imóvel foi vendido para a construção de um prédio e o empresário mineiro teve que mudar o negócio para a Rua 7, também no Setor Oeste. Dessa vez, o nome Celson Bar seria oficializado e passaria a funcionar em uma estrutura maior, com 32 mesas para os clientes. Tempos depois, o boom imobiliário da região o obrigou novamente a procurar outro local.
Após uma tentativa frustrada de sociedade e três meses de busca, Celson finalmente conseguiu encontrar o ponto ideal, a famosa esquina da 15 com a 22, seguindo no Setor Oeste. Em maio de 1998, nascia o Celsin & Cia, ou simplesmente “bar do Celsin”, como os clientes o chamam. Mas Celson se recorda da dificuldade que teve para conseguir construir o novo empreendimento. “Eu vivia em uma casa no Setor Sudoeste, conversei com a minha esposa e decidi vender o imóvel para investir aqui. Foi o melhor negócio que fiz na minha vida”, conta.

Foram alguns anos morando de aluguel até que tivesse retorno do investimento feito. Mesmo assim, o sucesso entre os clientes não demorou muito. “Goiano gosta de bar com área externa, vieram os antigos frequentadores que já me conheciam e novos, que viviam na região”, explica.
Com o espírito empreendedor correndo nas veias e a filosofia de que “tudo que a gente faz tem que fazer bem feito”, essa figura simpática de óculos, bigode e sorriso largo no rosto cativou os clientes pelo estômago e, principalmente, pelo carisma. “Foi um trabalho bem feito, qualidade boa de produto e o que manda muito no comércio é estar junto. Eu ou os meus filhos estamos todos os dias aqui”, afirma. Ele explica que alguns dos clientes chegam a perguntar para os garçons se o “Celsin” existe mesmo. “Aí, eu visito as mesas, faço a parte social e as pessoas gostam”, orgulha-se.

Frequentadores de outros estados questionam o empresário sobre montar um estabelecimento semelhante em Brasília, São Paulo ou no Rio de Janeiro. Ele rejeita a ideia. “Prefiro não arriscar tanto, já que não vou poder estar lá. Gosto de estar aqui e ver as coisas acontecerem”, avalia.
Além de Celson, dois dos quatro filhos atuam diretamente na gestão do estabelecimento. Frederico é o gerente de compras e manutenção e Fernando é o administrador financeiro. “Eu ensinei os meus filhos a sempre serem atuantes nos negócios. No início, assavam espetinho e trabalhavam no caixa”, explica. A ideia é futuramente deixar o empreendimento para eles de maneira definitiva. “Hoje, os dois já administram tudo, estou mais na parte social. Já estou começando a pensar em aposentadoria”, destaca o empresário de 71 anos de idade.

Bar da família
Se Celson se mantém firme há mais de três décadas em um mercado tão rotativo, o segredo está nas conexões de sangue e afeto. Essa essência familiar moldou a própria estrutura do bar. Pensando no conforto dos pais que, assim como ele, queriam aproveitar a noite sem pressa, o bar investiu no bem-estar dos pequenos. O resultado é histórico: o local ostenta o título de pentacampeão consecutivo de melhor espaço com brinquedoteca de Goiânia pelo Prêmio Curta Mais, um dos mais importantes da cidade.
O simples espaço com escorregador de lata, tambor e balanço de 1998 se transformou ao longo dos anos. Foi contratado um arquiteto para projetar a ampliação da brinquedoteca. A proposta agora é expandir ainda mais. Um novo lote foi adquirido para que haja uma melhor divisão do espaço conforme a faixa etária da criança. “Ao todo, um terço dos clientes é formado pelas famílias com crianças. Sempre fomos um bar 100% família. É a nossa essência”, acredita.

A longevidade no segmento e a preocupação em atrair as famílias fazem com que o Celsin & Cia mantenha clientes de pelo menos três gerações. “É o pai que vinha aqui no início, que já se tornou avô e que, hoje, traz o filho e o neto para o nosso estabelecimento”, explica.
Pandemia e união do setor em Goiás
A trajetória de Celson teve, em 2020, o maior teste de sua resiliência. Foi durante a pandemia de covid-19, quando o bar enfrentou o cenário inédito de passar quatro meses com as portas totalmente fechadas. “Acertamos com todos os 50 funcionários, depois recontratamos a maioria. Vendemos a cerveja que tínhamos no estoque a preço de custo”, recorda.
Enquanto muitos fecharam as portas em definitivo, a família do Seu Celson uniu forças. Investiram recursos próprios na reestruturação e na segurança sanitária para garantir que cada colaborador mantivesse o próprio sustento. A reabertura foi um recomeço emocionante, provando que a tradição construída com respeito ao cliente é à prova de crises.

O empresário destaca que a união do setor foi fundamental. “Tínhamos regras rígidas, clientes não vinham com medo de contaminação, mas a nossa parceria com o segmento foi muito importante”, destaca.
Celson ressalta que, anos atrás, havia muita rivalidade entre os empresários do setor. Havia o receio de que a simples visita a outro estabelecimento tivesse a intenção de plagiar o concorrente. “Hoje, se precisar, a gente ajuda um ao outro com algum produto que necessite, principalmente chopp”, afirma. Até as famílias se tornaram amigas. “Chegamos a viajar juntos, fazemos eventos, as esposas têm um grupo no WhatsApp só delas”, diverte-se.
Segundo ele, a realidade do setor mudou em Goiânia após a criação da Associação de Bares e Restaurantes em Goiás (Abrasel-GO), há 20 anos. “Um ajuda o outro. Um toma as dores do outro. E isso é fundamental para o nosso crescimento”, acredita.
Vida, família e coração de pescador
Nascido em Monte Alegre de Minas, no triângulo mineiro, Celson Batista e Silva, foi criado na fazenda. Mudou-se para Goiânia com apenas 17 anos. Na época, vendeu algumas vacas que tinha para se tornar sócio na capital da filial da importadora em que trabalhava como vendedor.
O negócio não deu certo e Celson decidiu comprar roupas em São Paulo e no Rio de Janeiro para vender de porta em porta em Goiânia. O sucesso permitiu que ele abrisse a própria loja, a Toca da Moda. O estabelecimento funcionou por sete anos no prédio do Cine Capri, no Centro de Goiânia.
Foi quando, em 1983, ele decidiu arriscar e voltar à cidade natal com a família para investir em plantação de abacaxi. O negócio foi bem, mas oito anos depois, Celson preferiu retornar a Goiânia. “Decidi ir embora e recomeçar. Montei uma lanchonete na Rua 9 com a 4, no Centro: a Fominha Lanche”, recorda. De lá, transferiu-se para o imóvel próximo à escola das cunhadas, onde começou a sua história de sucesso no segmento de bares em Goiânia.

A esposa, Vânia Lúcia Machado, conheceu na juventude em Goiânia. São casados há 48 anos. Do casamento, além de Frederico e Fernando, Celson tem as filhas Milena e Mariana, ambas sócias de um empório de carnes na capital. Um dos mais antigos proprietários de bar da cidade tem sete netos.
Além do tradicional Celsin & Cia, o empresário investe no agronegócio em uma propriedade rural que possui no município de Inhumas. “Invisto em gado nelore pintado, gado de corte, melhoramento genético. Gosto muito, principalmente por causa das minhas origens na roça”, explica.
Outra paixão, que vem dos tempos em que morava na fazenda em Monte Alegre de Minas, é a pescaria. “Pesco pelo menos duas vezes ao mês”, conta.
Ele não pesca sozinho. O time é profissional e chama-se Equipe Cumbuca. Formado por Celson e três amigos, o grupo busca o tricampeonato do maior circuito de pesca esportiva em rio do Brasil, o Gigantes do Araguaia. “Pesco desde a infância e continuei o costume aqui em Goiás. Atualmente, viajo o Brasil inteiro: Pantanal, Xingu, Amazônia e Araguaia”, orgulha-se.
Fotos: Arquivo pessoal.














