Ano 24 – 1979: Fim de uma década estruturante
A década de 1970 trouxe grandes ganhos para o cooperativismo goiano.
Leandro Resende
Um olhar atento para os anos 1970 poderia mostrar grandes diferenças entre aquele Goiás de poucas rodovias no interior e baixa expansão da rede elétrica no início da década e o que se verificava no balanço de 1979. A realidade mudou: onde havia pasto nativo e arroz de sequeiro, agora despontavam lavouras de soja. Onde o produtor enfrentava sozinho o atravessador, agora havia armazéns cooperativos. E onde o médico dependia exclusivamente da estrutura pública ou dos grandes grupos privados, agora havia cooperativas de trabalho organizando a própria categoria.

A década de 1970 foi, para o cooperativismo goiano e para a economia do Estado, de reorganização. Começava, ainda sem medir as consequências, com uma nova lei, a nº 5.764, de dezembro de 1971, que deu ao movimento um marco jurídico nacional, e terminava com três pilares fincados em solo goiano. Foram eles: a Coopanest-GO, criada em 1974 por 38 médicos anestesistas, a primeira cooperativa de especialidade médica do Brasil; a Comigo, nascida em 6 de julho de 1975, quando 50 produtores de Rio Verde decidiram enfrentar juntos os gargalos da sacaria, da secagem e da comercialização; e a Unimed Goiânia, fundada em 21 de fevereiro de 1978 por 49 médicos, trazendo para a capital o modelo de trabalho médico cooperativo que se espalhava pelo País.

O Brasil que encerrava 1979, porém, já não era o do “milagre”. O segundo choque do petróleo dobrou o preço do barril, a inflação rompeu a barreira dos 70% ao ano e o governo do general João Figueiredo, empossado em março, respondeu com a maxidesvalorização do cruzeiro em dezembro. Ao mesmo tempo, a Lei da Anistia, sancionada em agosto, sinalizava que a abertura política era um caminho sem volta. Entre a crise econômica e a distensão política, o País entrava numa nova era e o cooperativismo entrava com ele.

A virada de década trouxe também uma virada de comando. Em assembleia no dia 22 de abril de 1979, os cooperados elegeram Luiz Alberto de Lorenzzo para a presidência da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCEG, que se tornaria depois a OCB/GO), tendo Jales Rodrigues Naves como vice, encerrando o ciclo de Adilom Antonio de Souza, que conduzira a entidade desde 1976, que lidou com a diversificação responsável por levar a saúde para dentro do movimento.
A nova diretoria recebia um cooperativismo mais plural do que jamais fora até então: agro, energia, saúde, crédito e consumo conviviam sob o mesmo teto institucional. A fronteira agrícola do Cerrado, aberta a golpes de calcário e pesquisa agronômica, prometia transformar o Estado num dos celeiros do País e as cooperativas seriam o instrumento dessa transformação.
Ano 25 – 1980: Nova década, produto novo no campo
Se a década anterior foi estruturante, os anos 1980 abriram com uma grande novidade na pauta econômica: um produto novo se espalhava pelas lavouras – a soja. E redefiniria as próximas décadas de Goiás. Enquanto a economia brasileira mergulhava na crise da dívida externa, o campo goiano vivia o início da sua maior revolução produtiva.
A soja, planta de clima temperado adaptada ao Cerrado a partir de pesquisas brasileiras, avançava sobre os chapadões do sudoeste e sul do Estado, atraindo produtores gaúchos, paranaenses e catarinenses que chegavam em caravanas de mudança. Traziam a experiência do cooperativismo do Sul para juntar com o cooperativismo em evolução no Centro-Oeste. Uma mistura que, como se veria no futuro, daria muito certo.

Mas, esse movimento não foi espontâneo. Programas oficiais de ocupação do Cerrado, como o Polocentro e o nascente Prodecer, fruto da cooperação nipo-brasileira, ofereciam crédito, correção de solo e infraestrutura para transformar terras antes consideradas improdutivas no novo mapa agrícola do País. E, em cada frente de expansão, a lógica cooperativa se apresentava como o caminho natural: comprar insumos juntos, armazenar juntos, vender juntos.
Goiás já sabia, por experiência própria, o que a cooperação era capaz de fazer pela infraestrutura rural. Vale lembrar, como já pontuamos neste Caderno dos 70 anos da OCB/GO, que, no início da década anterior, o Estado chegou a contar com 18 cooperativas de eletrificação rural, que levaram energia a fazendas e povoados aonde o poder público não chegava. Essa construção fez parte de uma esteira: a cooperação acendeu a luz no campo para, depois, armazenar a safra.
Na condução institucional do movimento, o ano de 1980 guarda uma curiosidade que os livros de atas registram: já na assembleia de 7 de abril daquele ano, quem aparecia à frente da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCEG, hoje OCB/GO) era Jales Rodrigues Naves, o vice eleito ao lado de Luiz Alberto de Lorenzzo apenas um ano antes. A transição silenciosa, formalizada em eleição no ano seguinte, dava o tom de um período em que a entidade se reorganizava para os desafios de uma década que começava dura.
E era dura mesmo. A inflação superou os 100% ao ano pela primeira vez na história republicana, os juros internacionais dispararam com a política monetária norte-americana e o crédito oficial começava a encarecer. Com isso, a cooperativa, com sua escala e seu poder de negociação e aglutinação, tornava-se cada vez mais uma necessidade. Em Rio Verde, a Comigo, com apenas cinco anos de vida, já planejava o passo seguinte: deixar de ser apenas armazenadora para se tornar indústria.














