Por Rafael Vaz
Durante muito tempo, Goiânia foi reconhecida pela fartura à mesa. Os tradicionais pit dogs, as pamonharias, as churrascarias e os bares ajudaram a construir uma identidade gastronômica que permanece viva até hoje. Nos últimos anos, porém, a capital passou a escrever um novo capítulo dessa história. A chegada de chefs premiados, grupos empresariais em expansão e operações de marcas nacionais transformou a cidade em um dos mercados mais dinâmicos da alta gastronomia brasileira.

Esse movimento acompanha o próprio desenvolvimento econômico de Goiás. Impulsionada pelo agronegócio, pela expansão imobiliária e pela consolidação como polo regional de saúde, educação e serviços, Goiânia passou a formar um consumidor mais sofisticado, disposto a investir não apenas em boa comida, mas em experiências completas. A gastronomia deixou de ser apenas um segmento do entretenimento para ocupar espaço estratégico na economia criativa, movimentando investimentos, atraindo turistas e fortalecendo a imagem da capital como destino de negócios e lazer.
Os números confirmam essa transformação. Uma pesquisa realizada pelo Sindicato de Turismo e Hospitalidade no Estado de Goiás (Sindtur-GO) durante o Goiás Gastronomia 2026 revelou que 95% dos participantes pretendem retornar ao festival, enquanto 81% afirmaram valorizar muito a culinária e a cultura goianas. O levantamento também mostrou que quase 80% do público participava pela primeira vez de um festival gastronômico realizado em Goiânia, evidenciando a capacidade da cidade de atrair novos consumidores para experiências ligadas à gastronomia.

Esse novo cenário também ajudou a projetar nacionalmente profissionais que construíram as suas carreiras em Goiás. Um dos principais exemplos é o chef Ian Baiocchi. Em 2026, a 1929 Trattoria Moderna foi eleita o melhor restaurante italiano do Brasil pela revista Prazeres da Mesa, reconhecimento que consolidou definitivamente o nome do chef entre os principais representantes da gastronomia nacional.
Em entrevista à Forbes Brasil, Baiocchi atribuiu parte dessa trajetória às próprias origens. Bisneto de um imigrante italiano da cidade de Lucca, na Toscana, ele contou que cresceu cercado pelas receitas preparadas pela avó Colombina. Uma tradição que inspirou a criação da 1929 Trattoria Moderna como uma releitura contemporânea da cozinha italiana transmitida por sua família ao longo das gerações.
A consolidação da alta gastronomia goianiense, entretanto, não pode ser explicada apenas pelo talento de chefs. Ela também é resultado da profissionalização da gestão dos negócios e da capacidade de transformar criatividade em empreendimentos sustentáveis.
Nesse aspecto, o Grupo Íz tornou-se um dos principais símbolos dessa nova fase. Além do Íz Restaurante e da própria 1929 Trattoria Moderna, o grupo reúne operações como Grá Bistrô & Rooftop, Famu Restaurante, Fulles Kitchen, Alata Sorvetes e o Íz Hotel Conceito, projeto pioneiro que integra hospedagem e gastronomia em uma mesma experiência.

Em entrevista recente à Leitura Estratégica, o empresário Domingos Ávila Neto, sócio de Ian Baiocchi, explicou que a expansão do grupo sempre esteve apoiada em uma visão que vai além da cozinha. Atualmente, os empreendimentos atendem cerca de 50 mil clientes por mês e empregam mais de 400 colaboradores, números que demonstram o amadurecimento do mercado gastronômico da capital.
Segundo Domingos, a excelência de um restaurante não depende apenas da qualidade dos pratos. “Muito do segredo do negócio está nisso, pois acreditamos que o servir precisa estar em primeiro lugar, e o resto é consequência”, afirmou.
O empresário destaca que o grupo investe continuamente em arquitetura, coquetelaria, cartas de vinhos e atendimento, buscando oferecer uma experiência completa aos clientes. Em outra passagem da entrevista concedida à Leitura Estratégica, ele observa que o perfil do consumidor goianiense também contribuiu para esse crescimento. “Vejo que o goianiense sempre gostou de viajar, gosta de coisa boa, é exigente, hospitaleiro, e isso reflete nos nossos negócios”, declarou.

Essa evolução do mercado chamou a atenção de empresários que passaram a enxergar Goiânia como um ambiente cada vez mais atrativo para investimentos em gastronomia de alto padrão. Entre eles está José Henrique Queiroz, sócio de empreendimentos como Malibu, Alma Boutique Bar, Giulí Osteria, Madalena Gastrobar e Manda Picanha. Para ele, o crescimento da cidade vai muito além da abertura de novos restaurantes.
“Goiânia, hoje, consolidou-se como uma das grandes capitais do Brasil. É referência em segurança, qualidade de vida, clínicas médicas e escolas pré-vestibulares. A cidade deixou de atender apenas Goiás e passou a receber pessoas do Pará, do Maranhão, de Mato Grosso e de outras regiões”, afirma.

Na avaliação do empresário, a localização estratégica da capital e o fortalecimento da economia goiana contribuíram diretamente para a formação de um mercado consumidor mais sofisticado. “O agronegócio cresceu muito nos últimos anos, e isso consolidou o mercado de luxo e da alta gastronomia em Goiânia. Antes, as pessoas viajavam para São Paulo em busca dessas experiências. Hoje, acontece o contrário. Cada vez mais gente vem para Goiânia.”
Para acompanhar essa mudança, segundo José Henrique, foi necessário elevar o padrão dos empreendimentos. “A gente precisou aumentar essa régua com bons bares e bons restaurantes”, explica.
A cidade que elevou a régua
A elevação desse padrão não significou abandonar a identidade gastronômica da cidade. Pelo contrário. Para José Henrique Queiroz, um dos fatores que diferenciam Goiânia de outros mercados é justamente a capacidade de combinar referências internacionais com características muito próprias do consumidor local.

Segundo o empresário, cada novo empreendimento nasce a partir de estudos de tendências observadas em diferentes Países, mas nenhuma ideia é reproduzida integralmente. Os conceitos precisam dialogar com os hábitos e expectativas do público goianiense.

“Primeiro, a gente estuda muito tendências e conceitos do mundo. Tal como lançamos agora o Recreio, que é uma tendência mais vintage, dos anos 80 e 90. Saiu até um estudo na França mostrando esse movimento”, ressalta.

Na sequência, ele explica que existem alguns pilares considerados indispensáveis para qualquer operação gastronômica. “Você precisa ter, primeiro, uma gastronomia boa. Onde tem comida boa, a turma anda longe. Depois, atendimento, hospitalidade e arquitetura diferenciadas”, avalia.

Esse cuidado, segundo José Henrique, passa diretamente pelo comportamento do consumidor local. Diferentemente de outras capitais brasileiras, onde bares e restaurantes muitas vezes funcionam apenas como ponto de encontro antes de outros compromissos, em Goiânia o restaurante costuma ser o destino principal da noite. “O goianiense fica, em média, de três a seis horas num bar ou restaurante. Então, você tem que ter cadeiras confortáveis. É diferente de São Paulo e Rio de Janeiro, onde a turma sai para um happy hour, fica em pé um tempo e vai embora”, explica.

Essa permanência maior influencia desde o projeto arquitetônico até o ritmo do serviço e a construção dos cardápios. A regionalização também faz parte da estratégia. “O goianiense gosta da comida um pouco mais temperada e com muita proteína. Gosta muito de carne. Então a gente pega as tendências do mundo todo, traz para Goiânia e dá um toque regional.”

É justamente essa combinação entre referências internacionais e identidade local que ajuda a explicar o novo momento vivido pela capital. Hoje, Goiânia reúne operações que vão da cozinha contemporânea à culinária italiana, passando por bares autorais, rooftops, clubes privados e restaurantes especializados em experiências gastronômicas.

Entre os exemplos está o Nino Cucina, marca reconhecida nacionalmente que escolheu Goiânia para expandir a própria atuação. Outro destaque é o Maremonti, instalado no World Trade Center Goiânia, conhecido pela produção de massas frescas, pizzas napolitanas e pratos inspirados na autêntica culinária italiana. A casa utiliza ingredientes importados, reúne certificações internacionais, como o selo da Associação dos Pizzaiolos de Nápoles (APN), possui indicação no Guia Michelin e acumula prêmios concedidos pela revista Veja Comer & Beber. Durante o Festival Curta Mais, passou a oferecer menus especiais que aproximam o público de uma experiência típica da alta gastronomia italiana.
Exclusividade
Outro empreendimento que ilustra essa nova fase é o Frederic Private Club. Inspirado nos tradicionais clubes privados de Londres e Nova York da década de 1940, o espaço reúne gastronomia, jazz, arte e coquetelaria em um ambiente reservado, voltado para um público que busca exclusividade e experiências diferenciadas.
Embora possuam propostas bastante distintas, esses empreendimentos compartilham uma mesma característica: todos apostam na experiência como elemento central do negócio. O prato continua sendo protagonista, mas já não é o único diferencial competitivo. Arquitetura, iluminação, música, serviço, carta de vinhos e coquetelaria passaram a ocupar papel tão importante quanto a própria gastronomia.
Essa mudança também pode ser observada nos grupos empresariais goianos. O Malibu, o Alma Boutique Bar e a Giulí Osteria, por exemplo, foram concebidos para atender públicos diferentes, mas mantêm uma característica comum: a preocupação em oferecer experiências completas, capazes de transformar uma refeição em um momento de convivência.

Na avaliação de José Henrique, esse é um caminho sem volta. “A tendência é cada vez mais você se aperfeiçoar e profissionalizar na gastronomia. Desde o boteco que você vai, do espetinho, até a alta gastronomia. Então, uma comida de muita qualidade”, pontua.
O empresário acredita que a gastronomia goiana ainda tem espaço para crescer e conquistar reconhecimento nacional. Para isso, defende um esforço coletivo de valorização da cidade como destino gastronômico. “A tendência é sairmos do regional para o nacional. Assim como outros grupos, como o chef Fabiano e o chef Ian, que estão sendo conhecidos no Brasil, precisamos mostrar isso para o Brasil todo e trazer o nosso turismo gastronômico”, acredita.













