Rafael Mesquita
Por trás de cada produção agrícola que alimenta o Brasil e o mundo, existe uma engrenagem invisível de técnica e relacionamento humano. No centro dessa engrenagem em Goiás, o executivo Euripedes Júnior trilhou um caminho moldado pelo dinamismo empresarial e pelo compromisso com o homem do campo.
Fundador da AHL Agro, empresa especializada em comércio atacadista de insumos agropecuários e suporte técnico para o campo, e da Solotek, desenvolvedora de fertilizantes especiais e soluções tecnológicas para o agronegócio, a trajetória de Eurípedes reflete a própria evolução do agro moderno: um setor altamente tecnológico, mas que ainda depende fundamentalmente do olho no olho, da palavra empenhada e do respeito por quem vive da terra.
A inspiração do empresário vem da infância, quando ajudava o pai na Casa da Lavoura, uma das maiores lojas de produtos veterinários do Brasil na época.

O senhor Eurípedes Ferreira dos Santos é veterinário e um dos pioneiros do segmento na capital. Começou o negócio em 1959, em Anápolis, mas em 1963 se estabeleceu em Goiânia. O estabelecimento funcionava na Avenida Anhanguera, no Setor Campinas.
Ainda crianças, Eurípedes Júnior e os quatro irmãos ajudavam o pai na loja. Com apenas 12 anos de idade, Júnior já limpava gaiolas de animais, carregava pacotes pesados de ração e atendia os clientes. “No começo detestava, porque perdia as férias escolares. Depois, entendi que foi a melhor coisa para a minha vida, porque me ensinou a gostar de trabalhar”, acredita.
Com 16 anos, iniciou a faculdade de Administração de Empresas, na Universidade Católica de Goiás. A ideia inicial era estudar para ajudar o pai na gestão e dar continuidade aos negócios. Trabalhava de dia na Casa da Lavoura e estudava à noite. Na época, a loja chegou a ter mais de 20 filiais pelo Brasil (em Goiás, São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal).
Ao concluir o curso universitário, Júnior começou a se interessar pelo agronegócio e, com o apoio do pai, abriu, na Avenida Castelo Branco, em Goiânia, a Soloplan. A loja vendia defensivos agrícolas e fertilizantes. “Uma propaganda feita na TV Anhanguera na época me ajudou a impulsionar o negócio”, recorda.
Em 1994, a Casa da Lavoura entrou em crise financeira. Poucos anos depois, o pai decidiu reunir as cinco melhores filiais da empresa e distribuí-las entre os filhos. Eurípedes Júnior ficou com a unidade da Avenida Castelo Branco e, assim, nasceu a Agroatacado, que comercializava produtos agropecuários e veterinários.
Em 2001, a empresa passa a se chamar AHL, iniciais dos nomes dos filhos Arthur, Hugo e Luiza. Em 2011, a pedido de uma multinacional que atendia, criou a Verdelog com o objetivo de armazenar defensivos agrícolas e fertilizantes da forma adequada, conforme a legislação exige. “Nosso depósito era no meio da cidade e clientes nossos, como a Unilever, nos alertaram. Cada vez mais a questão ambiental ganha importância para os negócios”, explica.
O desafio de trazer mais inovação e tecnologia para o campo leva Eurípedes Júnior a criar em 2015, a empresa Solotek. Entre as especialidades, estão a venda de adubo especial e do produto considerado “a menina dos olhos” do mercado: o protetor solar para plantas.





Produzir mais e priorizar o coletivo
Especialistas estimam que cerca de 40% da produção de soja do Brasil se perde por conta das altas temperaturas. Acima dos 30º C, o risco aumenta consideravelmente. “Agora que alguns produtores estão se atentando para isso, muitos ainda nem sabem”, afirma.
A Solotek é a representante do protetor solar no País. Trata-se de um produto ultraprocessado, desenvolvido pela BASF, maior empresa química do mundo, e que tem a tecnologia adquirida por um grupo belga. O produto é aplicado por pulverizadores convencionais, drones ou aviões em plantações de soja, melancia, algodão, café, milho e cana-de-açúcar. “Somente no ano passado, comercializamos mais de sete mil toneladas em todo o Brasil e a expectativa é chegar a oito mil neste ano”, explica.
Mesmo com o sucesso do protetor solar, ele acredita que as condições financeiras do produtor rural no Brasil atrapalham. “O empresário do agro está descapitalizado, a inadimplência está muito alta e a situação do setor está ruim”, avalia. Ele acredita que é preciso que se priorize a agricultura como forma de oferecer condições de dignidade à população. “O agro é fundamental para qualquer sociedade. Ninguém consegue governar um país com fome”, afirma.
A preocupação com o pensamento coletivo é uma das filosofias de vida de Eurípedes Júnior, ideal que ele carrega na profissão. “Sou um facilitador, gosto de juntar as duas partes. A partir de um exemplo que deu certo, posso ajudar um outro produtor que não obteve sucesso. Se for para vender algo para prejudicar as pessoas, eu não faço”, garante.
O interesse pelo próximo é algo que o empresário afirma ter aprendido com o pai. “Ele dizia que nunca se perde em tratar bem as pessoas. Até hoje sofro se precisar mandar funcionários embora”, conta. A religião e o período em que serviu o Exército na juventude também trouxeram aprendizado. “Sou católico, e a igreja ensina muito sobre isso. Minha época de Exército também foi importante para entender que o sucesso de um contribui para toda a corporação”, destaca.





Viagens e família
Uma das grandes paixões são as viagens, são mais de 80 países visitados. Seja a negócio ou a passeio, o conhecimento sobre outras realidades desperta o “brilho no olhar”. O interesse pela rápida transformação social é o que surpreende. “Fico impressionado como a China se tornou um país tão moderno. A Índia é outro caso incrível. Fui lá pela primeira vez em 2020 e vi o quanto havia pobreza. Voltei no ano passado e a realidade era outra. Parecia uma nova Miami”, acredita.
A maioria das viagens é feita em companhia da esposa Maria Augusta, com quem é casado há 39 anos. Ele exalta a sólida e duradoura relação. “Eu a amo mais hoje do que quando casei. É preciso gostar das pessoas do jeito que elas são, não querer mudá-las”, compartilha.
A união gerou três filhos: Arthur, Hugo e Luiza. Os dois primeiros atuam nos negócios com o pai, Arthur na gestão da Verdelog e Hugo na área comercial da Solotek e da AHL. A família é grande: são 16 netos e mais dois que estão por vir. “A Luiza e a esposa do Hugo estão grávidas”, comemora. Valorizar a importância da família é prioridade. “Sem eles, tudo ficaria muito vazio. Os netos fazem a gente renascer. É o que realmente vale a pena na vida”, orgulha-se.
Uma tristeza na relação familiar é ver o estado de saúde do pai, Eurípedes Ferreira dos Santos, de 86 anos. Há seis anos, foi diagnosticado com Alzheimer e, há dois, a condição se agravou. “Infelizmente, meu pai não é mais o mesmo. Não se lembra de quem ele foi, que teve empresa. Para minha mãe (Maria Yone dos Santos), é uma dor e um sofrimento ainda maior vê-lo assim todos os dias”, emociona-se.














