Rafael Vaz
Goiás vive um novo ciclo de expansão empresarial que começa a alterar a geografia dos negócios no Estado. Se durante décadas a atividade econômica esteve fortemente concentrada em Goiânia e em alguns poucos polos industriais, o avanço do agronegócio, a melhoria da infraestrutura logística, a formação de novos mercados consumidores e a expansão de grandes empresas vêm criando novas oportunidades em diferentes regiões.
O movimento aparece tanto na criação de novos espaços para receber indústrias quanto na ampliação de distritos já consolidados. Em Aparecida de Goiânia, o Distrito Agroindustrial Norberto Teixeira (Dianot) entra em fase de implantação com 67 empresas selecionadas, mais de R$ 1 bilhão em investimentos privados e expectativa de geração de mais de 20 mil empregos diretos e indiretos. Em Anápolis, a expansão do Distrito Agroindustrial (Daia), por meio da Plataforma Logística Multimodal (DaiaPlam), já reúne novos empreendimentos que representam mais de R$ 100 milhões em investimentos e cerca de 700 empregos diretos.

O fenômeno, entretanto, não se limita aos grandes polos. Municípios do interior passam a concentrar empresas que buscam proximidade com seus clientes, fornecedores, matérias-primas e mercados consumidores. Para Maicon Farina, sócio-diretor da Lure Capital e vice-presidente da Câmara Setorial de Governança Corporativa da Acieg, a geração de riqueza no interior ajuda a explicar essa transformação.
“Goiás é um estado predominantemente agrícola e o segmento do agronegócio gera muita riqueza pulverizada localmente. Ela não é uma monocultura, é uma policultura, e isso ajuda os locais a se desenvolverem”, afirma.
Segundo Maicon Farina, o aumento da renda e do poder de consumo cria uma demanda que ultrapassa a produção rural e passa a movimentar outros setores da economia. “Quando existe essa riqueza, existe necessidade. É uma necessidade de aquisição de ativos, e aí entram ativos imobiliários e não imobiliários”, explica.
O efeito pode ser percebido na expansão de construtoras, incorporadoras, concessionárias, supermercados e redes varejistas para municípios do interior. “Há muitas construtoras indo de Goiânia para os interiores, incorporadora, concessionárias de veículos e também ativos de despesas recorrentes, que é o chamado Opex. Por exemplo, supermercados e redes varejistas estão abrindo cada vez mais no interior por entender que essa população que está tendo mais riqueza possui uma necessidade de comprar mais”, explica.

Distritos como infraestrutura para uma nova fase
A expansão dos distritos industriais acompanha essa mudança. Para o presidente da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Goiás (Codego), Luiz Antônio Rosa, a nova dinâmica nacional provocada pela Reforma Tributária também deverá influenciar as decisões empresariais.
“O que está mais em pauta agora é essa expansão dos distritos industriais, principalmente por causa da nova dinâmica nacional trazida pela Reforma Tributária. Como a reforma está mudando os regimes e reduzindo a importância dos incentivos fiscais, a tendência é que as empresas passem a olhar cada vez mais para fatores como localização e logística”, ressalta.
Na avaliação do presidente da Codego, a vantagem competitiva de Goiás está relacionada à localização do Estado e à capacidade de conectar empresas a fornecedores e mercados consumidores. O movimento, segundo ele, não envolve apenas empresas que chegam de outras unidades da Federação.
É nesse contexto que o Dianot ganha dimensão estratégica. Localizado na região leste de Aparecida de Goiânia, próximo à BR-153, o novo distrito ocupa uma área superior a dois milhões de metros quadrados e foi estruturado para receber mais de 200 empresas.
O empreendimento representa também uma mudança de vocação para uma área que anteriormente abrigava o complexo prisional do município. Com a transferência das unidades penitenciárias, o espaço passa a ser destinado à atividade produtiva, à geração de empregos e ao desenvolvimento econômico.
Na primeira fase de ocupação, 67 empresas foram selecionadas. Segundo a Codego, mais de 30 empresas habilitadas já receberam a Concessão de Direito Real de Uso (CDRU). As primeiras indústrias devem iniciar a construção de suas unidades ainda em 2026.
Para Luiz Antônio Rosa a demanda pelo empreendimento já sinaliza a necessidade de ampliar o projeto. Segundo ele, o número de empresas interessadas em ocupar áreas supera a capacidade disponível na primeira etapa, o que abre espaço para novas fases de expansão.
“Se considerarmos uma média das 67 empresas que entraram nessa primeira fase, temos potencial para chegar a algo entre 120 e 200 empresas. Isso vai depender, principalmente, do porte e do tamanho das áreas que serão demandadas nas segunda e terceira fases”, explica.
A projeção também aponta para um impacto expressivo no mercado de trabalho. A expectativa é de pelo menos 20 mil empregos com a conclusão do assentamento das empresas.
Outro diferencial apontado pelo presidente da Codego é a infraestrutura projetada para atender à capacidade máxima do distrito. O projeto prevê sistemas de tratamento de água e efluentes, vias preparadas para tráfego pesado e infraestrutura elétrica.
A conclusão das obras de infraestrutura deve ocorrer até o final de dezembro. Além dos investimentos privados, o Dianot tem previsão de mais de R$ 120 milhões em recursos públicos destinados à infraestrutura, incluindo redes de água e esgoto, energia elétrica, drenagem, pavimentação e estruturas de tratamento e armazenamento de água.

Um distrito que nasce conectado
A consolidação do novo polo também depende da infraestrutura externa. Em setembro, o Governo de Goiás autorizou a duplicação de 3,84 quilômetros do eixo viário que conectará Aparecida de Goiânia à região do Vale das Pombas, em Goiânia, ampliando também o acesso ao Dianot.
A intervenção contempla a duplicação da Avenida Copacabana, no Vale das Pombas, até a ponte na divisa com Bela Vista de Goiás, além da construção de uma ponte de 30 metros sobre o Ribeirão Santo Antônio, ciclovia e calçada para pedestres. O prazo previsto para execução é de oito meses, com conclusão estimada para maio de 2027.
O novo eixo deverá conectar o Dianot ao Parque Industrial Vice-Presidente José Alencar, ao Distrito Industrial Municipal de Aparecida de Goiânia (Dimag), ao Distrito Agroindustrial de Aparecida de Goiânia (Daiag) e ao Vale das Pombas, além de ampliar as alternativas de acesso à GO-020 e aos municípios de Bela Vista de Goiás e Hidrolândia.
Daia
Se Aparecida cria um novo grande distrito, Anápolis amplia uma estrutura industrial que já possui décadas de atividade. Atualmente, 181 empresas estão instaladas no Daia. Esse número, porém, deve crescer com a expansão da Plataforma Logística Multimodal.
A área de expansão possui 1,7 milhão de metros quadrados disponíveis. Segundo dados da Codego, 13 empresas estão atualmente em processo de ocupação. Três já foram assentadas e outras dez avançam nos trâmites necessários para a instalação.
Os novos empreendimentos representam mais de R$ 100 milhões em investimentos previstos e cerca de 700 empregos diretos.
Entre as empresas, estão negócios dos segmentos de gases industriais, biofarmacêutico, embalagens, metalurgia, agronegócio e logística. Também há outros 35 empreendimentos que demonstraram interesse em ocupar áreas no DaiaPlam, dos quais 17 estão em negociação para eventual assentamento.
Para Luiz Antônio Rosa, a vocação de cada polo influencia diretamente o perfil das empresas que procuram esses espaços. “Hoje, quando pensamos em Anápolis, a maioria das interessadas em se instalar lá está ligada à logística. Também temos empresas dos setores farmacêutico e automobilístico”, pontua.

Cliente e fornecedor definem o endereço
A expansão industrial, entretanto, não ocorre de maneira uniforme. Para Maicon Farina, a escolha do município depende do segmento da empresa e, principalmente, da proximidade com clientes e fornecedores.
“Quando a gente fala de indústria, vai depender muito do segmento. Você não pode dizer que uma indústria farmacêutica vai dar certo em Rio Verde se não tiver cliente ou fornecedor por perto. É muito diferente de Anápolis, onde existe uma cadeia de fornecedores mais próxima.”
Segundo Farina, essa lógica explica a expansão de diferentes polos industriais pelo Estado. No agronegócio, por exemplo, a demanda por fertilizantes, sementes, insumos e tecnologias estimula a instalação de empresas próximas às regiões produtoras. Ele cita a Solubio, em Jataí, como exemplo.

Efeito multiplicador
A instalação de uma empresa também pode desencadear novos negócios ao seu redor. Na avaliação de Farina, esse processo forma um ciclo que envolve consumo, emprego, arrecadação e redução de custos. “É um ciclo virtuoso”, resume.
Segundo ele, uma empresa instalada no interior gera empregos e poder de compra, mas também pode reduzir custos para outras empresas que antes precisavam adquirir determinados produtos ou serviços fora do município.
O efeito chega também aos cofres municipais. “E, além de tudo isso, grande parte dos impostos gerados são pagos no município, o que faz com que as prefeituras arrecadem mais, portanto também gerem mais empregos e mais investimentos para o local, fazendo de novo o ciclo virtuoso girar”, completa.
Grandes negócios
Os efeitos da interiorização também aparecem nos dados da Junta Comercial do Estado de Goiás (Juceg). Para o presidente da autarquia, Euclides Barbo Siqueira, a simplificação dos processos de abertura de empresas contribui para esse movimento.
O avanço do agronegócio também impulsiona a interiorização. Na visão de Euclides, empresas que fornecem produtos e serviços ao setor tendem a se aproximar das grandes propriedades e regiões produtoras.
A presença de grandes indústrias reforça esse movimento em municípios como Anápolis e Catalão, que concentram segmentos como os setores automobilístico e farmacêutico. “Nós temos pedra, ouro, calcário e várias outras riquezas. Também temos grandes indústrias, como a automobilística e a farmacêutica em Anápolis e a automobilística em Catalão”, completa.
Economia mais regionalizada
O resultado é o fortalecimento de ecossistemas econômicos em diferentes regiões de Goiás. A lógica deixa de ser apenas instalar uma indústria em determinado município e passa a envolver a formação de cadeias produtivas completas.
Esse movimento também aparece no Dianot. De acordo com a Codego, o distrito reúne empresas de diferentes segmentos, como alimentação, transporte e indústria metálica. “É um distrito bastante diversificado”, avalia Rosa.
A expansão alcança mais cidades. Em Caldas Novas, a Codego realiza estudos de viabilidade para empreendimentos ligados à indústria hoteleira e à agroindústria. Em outros distritos, há projetos relacionados à mineração e à inteligência artificial, além do interesse de empresas de pesquisa e desenvolvimento em instalar equipes fora da capital.
Próximas fronteiras
Para Maicon Farina, o agronegócio continuará sendo determinante para Goiás, mas novas cadeias produtivas podem ganhar espaço nos próximos anos. “Entre as novas tendências, eu diria que, primeiro, estão as terras raras”, destaca.
A relevância desse segmento cresce com a demanda por minerais utilizados em tecnologias avançadas e na produção de veículos elétricos, avalia o executivo. “E por que as terras raras estão sendo cada vez mais valorizadas? Por conta da expansão do consumo de minerais que são utilizados na fabricação de baterias e de veículos elétricos”, conclui.













