Rafael Mesquita
A trajetória de Rivas Rezende da Costa é uma verdadeira crônica de resiliência, visão de futuro e dedicação. Nascido em Urutaí, sudeste goiano, o empresário construiu um legado que se estende desde o setor logístico e de comunicação até a aviação civil, sempre movido por uma paixão inabalável pelo trabalho e pela vida.
O garoto de infância humilde se tornou um dos principais executivos de Goiás e proprietário de uma das mais importantes empresas de transporte e armazenagem de cargas do Centro-Oeste, a Quick Logística.
O pai, João Antônio da Costa, era boia-fria, e se mudou de Urutaí com a família para trabalhar em uma fazenda em Vila Rica, próximo à cidade de Nerópolis e, atualmente, distrito de Goiânia. Logo depois, a família seguiu novamente o patriarca. Dessa vez, mudou-se para Uruana, região do Vale do São Patrício, onde o Seu João trabalharia para um primo em um laticínio. Menos de dois anos depois, o pai de Rivas teve um mal súbito e faleceu.
Foi um baque para a família, sobretudo para dona Aparecida Rezende da Costa que passou a cuidar e a sustentar os três filhos sozinha. Retornaram para Vila Rica e logo depois se mudaram em definitivo para Goiânia, onde ela passou a trabalhar como lavadeira. “Nunca nos deixou passar fome. Mesmo com a pobreza que vivíamos, ela se virava. Pedia comida até para a vizinhança se precisasse”, emociona-se
Rivas tinha apenas 12 anos de idade e teve que arrumar o primeiro emprego: vendedor de jornal. De terça a domingo, entregava o jornal O Popular de porta em porta na região central de Goiânia. Mas não teve sucesso. “Na segunda-feira, que era o dia de receber, os responsáveis pelo pagamento sumiam. Pensei: esse negócio não vai dar certo”, recorda. Não deu mesmo.
O segundo emprego foi de engraxate. E um novo insucesso. “Eu fazia o serviço e, quando o cliente não gostava, não pagava”, explica. Então, o terceiro emprego: servente de pedreiro. Agora sim? Ainda não. “Fiquei quatro meses, mas era muito fraquinho, tinha só 13 anos e quarenta e poucos quilos”, conta.
Desistir não era uma opção. Rivas precisava de um emprego para ajudar no orçamento de casa. Em 1965, no Setor Norte Ferroviário, ao cruzar as portas de uma empresa que moía sal para pecuária e uso doméstico, viu a oportunidade que abriria portas para o seu futuro. Começou em um modesto cargo de empacotador. “Iniciava o trabalho às 4 da manhã e ia até às 18 horas. Depois, ainda ia de bicicleta para a escola à noite”, afirma.
De empacotador, passou a ocupar uma das funções mais básicas do ambiente corporativo, office boy. O empenho e destaque do jovem o fizeram ter uma carreira meteórica de ascensão dentro da empresa: auxiliar e chefe de departamento pessoal, tesoureiro, auxiliar de contabilidade e gerente de vendas. “Sempre me esforcei muito para fazer o que era preciso, até aos finais de semana e feriados. Construí minha carreira trabalhando”, relata. Paralelamente, conseguiu ingressar no ensino superior. O curso escolhido foi o de Ciências Contábeis, na Universidade Católica de Goiás.
Em 1975, a empresa já com o nome Produtos Cometa Ltda passa a se chamar Arisco Industrial. Seria o início de uma nova era do mundo corporativo em Goiás e a consolidação da ascensão profissional daquele que se tornaria um dos executivos mais influentes do Brasil.




A escalada ao topo do mercado
A fábrica de temperos já existia em Campinas, na cidade de Goiânia. A Cometa era a sua fornecedora. Uma dívida com a empresa em que Rivas trabalhava fez o dono da Arisco propor a venda da companhia. Proposta aceita pelos empresários João Alves de Queiroz e João Alves de Queiroz Filho (conhecido como Júnior).
A dupla decidiu expandir a Arisco para São Paulo, oferecendo tempero completo, alho e sal. Mesmo com a fábrica permanecendo em Goiás, foi no principal centro econômico do Brasil que a companhia iniciou o sucesso comercial.
O êxito de vendas na terra natal também aconteceu com a criação de um sachê com 30 gramas de tempero. Gerente de vendas na época, Rivas Rezende se recorda bem desse período, final da década de 1970. “Íamos para a entrada do supermercado distribuir o produto para os clientes. Até na porta das escolas, entregávamos o sachê para as crianças presentearem as mães”, recorda.
A Arisco se tornou um sucesso. Além dos temperos tradicionais, a empresa começou a produzir molho caseiro, mostarda e molho de pimenta. Tudo isso na antiga fábrica no Setor Norte Ferroviário. Era preciso um novo espaço para atender a expansão da marca. Nessa época, Rivas havia crescido ainda mais na empresa e se tornou diretor geral. “Buscamos uma área para a construção da nova fábrica e achamos um terreno de um milhão e duzentos metros quadrados no Setor Goiânia 2”, destaca.
Com a estrutura adequada, a companhia se tornou a primeira goiana a realizar a produção industrial de tomate, milho para conserva e goiaba para doce. Em 1984, o programa estadual de incentivo à industrialização foi o combustível que o negócio precisava. “A partir daí, pegamos o rumo. Foi um crescimento acelerado”, explica.
A empresa foi a primeira em Goiás a ter alcance mundial, já que ela exportava para o exterior e também importava produtos como o bacalhau, alho e cebola. Além disso, tornou-se o maior parque de máquinas Tetra Pak, equipamentos industriais usados para o processamento, envase e distribuição de alimentos, viabilizando as embalagens do tipo longa vida, do mundo. Eram 8.500 funcionários trabalhando em três turnos, de domingo a domingo. “O time comandado pelo João Alves e pelo Júnior acreditava de verdade, e acertou demais”, avalia.
Era comum Rivas visitar grandes empresas na França, Itália , Suécia e Estados Unidos para conhecer como eram as fábricas pelo mundo. “Os chefes diziam: vá lá aprender e trazer as novidades para cá”, conta. O executivo ainda ocupou o cargo de superintendente da TV Serra Dourada (afiliada ao SBT em Goiás), após a aquisição da emissora pela holding pertencente à família Alves de Queiroz.
Até que, em 1994, veio a decisão do comando da Arisco de preparar a empresa para ser vendida. Rivas ganhava o maior salário de um executivo no Centro-Oeste e participou ativamente desse processo. “Os americanos vinham e falavam de banco de horas, questões trabalhistas e ambientais. Temas que não eram tratados pelos empresários daqui”, explica.
Quando percebeu que o negócio seria de fato fechado, Rivas decidiu se antecipar e deixar a empresa. “Saí em 30 de abril de 1999, após quase 34 anos completos de trabalho. Acreditava que, com os novos donos, eu seria o primeiro a ser mandado embora”, relata.
A venda da Arisco, líder no mercado nacional de temperos, foi consolidada no ano 2000 pelo valor de US$ 490 milhões, além do comprador assumir as dívidas de US$ 262 milhões da empresa goiana. Ela foi vendida originalmente para o grupo norte-americano Bestfoods (dono de marcas como Hellmann’s e Knorr no Brasil). Poucos meses depois, no mesmo ano de 2000, a gigante anglo-holandesa Unilever comprou mundialmente a companhia americana, herdando o controle de todas as marcas da Arisco.


O Legado Quick e o Voo Próprio
Quando saiu da Arisco, Rivas tinha seis ofertas de emprego de grandes empresas. Ficou um ano fora do mercado, analisando as possibilidades. Optou em abrir o próprio negócio na área de logística.
Erguida com o suor de quem enxergou o potencial de Goiás na área, em maio de 2000, é inaugurada a Quick, companhia que transformou-se em um gigante regional.
Uma das decisões iniciais era não prestar serviços para a Arisco, já que o executivo havia ocupado a maior parte dos cargos na empresa. A situação perdurou durante os três primeiros anos da Quick. “Não queria depender de favores”, destaca. Dessa forma, a nova companhia de Rivas se desenvolveu inicialmente realizando os serviços de transporte, armazenamento e distribuição, principalmente para laticínios e para o agronegócio.
A Quick Logística foi montada com sedes em Goiânia, São Paulo e Rio de Janeiro. Mas a opção foi por instalar a matriz na cidade maravilhosa. “Um cliente carioca nos desafiou dizendo que não conseguiríamos ter sucesso no mercado nacional sendo uma empresa goiana”, recorda. Ele estava errado, a companhia se tornou a décima maior empresa do Brasil no segmento de carga e logística.
Com apenas cinco anos de existência, a Quick já tinha dez filiais pelo Brasil. Elas estavam espalhadas pelos mais diversos estados, como: Pará, Santa Catarina, Ceará, Pernambuco, Espírito Santo e Mato Grosso. Nesse período, já prestava serviço também para a Hypermarcas, grupo que pertencia a Júnior (ex-Arisco) e que, na época, conquistava o mercado com os produtos Assolan (esponjas de lã de aço).
Rivas Rezende explica que aprendeu muito durante o longo tempo em que ocupou os mais diversos cargos na Arisco. Esse é um dos fatores que contribuiu para o sucesso quando quis alçar voos próprios. “Foi uma grande escola. Sempre quis fazer melhor que os outros. A relação comercial que eu adquiri e tenho até hoje ajudou muito”, avalia. Mas ressalta: nada seria conquistado sem a garra necessária para vencer. “Se você trabalha mais, é claro que vai fazer mais que os concorrentes. O trabalho está ligado ao sucesso. Quer ganhar mais? Trabalhe mais. Quer fazer melhor? Dedique-se mais”, acredita.
A empresa durou 16 anos. Em 2016, a decisão de deixar o negócio. Naquele momento, o setor de logística começou a ser incorporado por várias empresas. “Éramos líderes do Centro-Oeste, maior transportador de pneus do Brasil, tínhamos clientes em setores estratégicos, como o de alimentos e o farmacêutico, mas entendi que aquele seria o momento para migrar de área”, afirma.
A companhia logística de 1.900 funcionários, 1.453 equipamentos e 18 filiais espalhadas por todo o Brasil foi vendida por R$ 130,7 milhões para a JSL, líder do setor no País. Arrependimento? “Não, fizemos um bom negócio, mas talvez poderíamos ter feito mais e chegado mais longe” , avalia Rivas. “Tínhamos uma visão econômica do País mais pessimista do que realmente aconteceu. Não errei em tudo, mas algumas empresas do setor cresceram muito posteriormente”, admite.
A dedicação ao segmento imobiliário se tornou, a partir de então, a prioridade. A R&F Participações Ltda tem como foco a gestão de imóveis próprios, sejam comerciais ou residenciais. “Temos prédios construídos em vários estados e outros terminando agora. Fazemos um empreendimento por ano e estamos ampliando a nossa atuação”, destaca.





Família e exemplo
O empresário tem seis filhos, um deles atua com Rivas no setor imobiliário, dois são estudantes e três estão na área de logística. Para estes, o pai presta consultoria com o conhecimento adquirido ao longo dos anos. “Eles têm vários clientes que eram da Quick e transportam produtos de alto valor agregado”, explica. O executivo já tem cinco netos.
O maior legado que quer deixar é o esforço e a dedicação às coisas que se presta a fazer. Além do exemplo de cuidado com o próximo. “Aprendi que, a partir do momento em que você começa a ajudar as pessoas e a se preocupar com elas, a sua própria vida se transforma”, acredita.
Para Rivas, o importante é “ensinar a pescar” e ajudar as pessoas a encontrar o seu próprio caminho. “É preciso reconhecer o esforço de quem realmente merece. Já paguei a faculdade de vários funcionários e filhos deles que são gratos até hoje”, afirma. A ideia é sempre estar disposto a fazer o bem. “O fato de você auxiliar as pessoas faz uma diferença muito grande. Não gosto de ser ajudado, mas sim de ajudar”, conta.
A saudade da mãe, vítima da covid-19 em 2021, aos 90 anos, Rivas ainda guarda no coração. “Se não fosse a pandemia, ela ultrapassaria os cem anos. Ela foi tudo para mim, não só como mãe, mas como exemplo de pessoa”, emociona-se. Dona Aparecida era semianalfabeta, mas uma pessoa totalmente sensitiva e muito firme. “Quando ela falava algo, a gente tinha que refletir, porque iria acontecer”, compartilha. Rivas cuidou da mãe até o fim. Ia visitá-la todos os dias. Restaram as boas memórias da convivência e do aprendizado de vida.





Nova Vida
A tarde de 28 de junho de 2026 parecia mais um domingo comum. Rivas estava em sua fazenda em Nerópolis, na Região Metropolitana de Goiânia. O plano era simples: decolar com a sua aeronave de pequeno porte. Mas a vida, em frações de segundo, impõe os seus próprios planos.
Logo após a decolagem, um problema inesperado na aeronave interrompeu o voo. O avião caiu quando estava a cerca de dez metros de altura em uma área rural e foi consumido pelas chamas. Em cenários como esse, o desfecho costuma ser trágico. Contudo, a rápida ação de um funcionário e a força do próprio Rivas mudaram o rumo da história. O empresário foi resgatado de dentro da aeronave consciente e orientado, apresentando ferimentos leves — marcas do cinto de segurança que salvou sua vida, escoriações nas mãos e um corte no joelho.
A causa do acidente: a trava do banco em que o empresário estava quebrou, forçando o banco para trás, o que fez com que Rivas perdesse o controle dos comandos. “É o quinto acidente desse tipo no mundo, apenas eu e outro sobrevivemos. Três pessoas morreram. Se eu tivesse desmaiado, tinha morrido queimado”, explica.
O empresário ficou em observação por 24 horas no hospital, sem perder a consciência em nenhum momento. No outro dia, mais de 600 mensagens de amigos e familiares no WhatsApp. Todos preocupados. Mas, felizmente, foi apenas um susto. “Minha relação com a Igreja Católica é muito forte. É Deus que põe a mão em tudo, o acidente que aconteceu comigo é um exemplo”, acredita.
Atualmente, Rivas é um dos diretores do Aeródromo de Goiânia, que está entre os dez maiores do Brasil. “Há meses em que ultrapassamos o Aeroporto Santa Genoveva em pousos e decolagens”, afirma.
A paixão pela aviação existe desde a infância. “Eu era menino e sonhava que estava voando”, compartilha. Quando passou a ter condições financeiras, estudou e tirou a habilitação necessária da aviação civil para pilotar. Apesar do recente acidente, como em toda a sua trajetória, desistir não é uma opção. “Sou um estudioso da área. A aviação é um hobby que realizo com dedicação e disciplina”, conclui.














