O ano de 1991 começou com o País ainda tonto, esmagado por um confisco que quebrou empresas e famílias. O Plano Collor II, lançado em janeiro, congelava preços e salários mais uma vez e, como esperado pela grande maioria, mais uma vez fracassaria. A poupança confiscada em 1990 seguia retida, o crédito rural minguava e a inflação, apenas adormecida, esperava a hora de voltar. Era nesse cenário tenso que o cooperativismo goiano fazia a sua travessia mais silenciosa e decisiva: a da autogestão na prática.
Com a fatídica extinção do Banco Nacional de Crédito Cooperativo (BNCC), no ano anterior, acabara-se de vez a era do Estado como suporte do cooperativismo, que financiava, fiscalizava e, não raro, socorria. Se a Constituição de 1988 dera a liberdade; em 1991, a conta chega e cobra maturidade do setor.
E o cooperativismo respondeu. Em Brasília, a OCB nacional encerrava o ciclo de Roberto Rodrigues, presidente desde 1985 e arquiteto da autogestão conquistada na Constituinte. Dali, Rodrigues partiria para projetar o cooperativismo brasileiro no cenário internacional.
Em Goiás, a Organização das Cooperativas do Estado de Goiás, presidida por Eduardo Pereira de Andrade, assumia integralmente o papel de orientar, registrar e representar as suas filiadas, sem o guarda-chuva estatal do passado.
A aposta na organização em rede, feita em 1989 com a fundação da Cocecrer-GO, mostrava-se providencial: com o BNCC extinto, era a central de crédito goiana que articulava as cooperativas singulares para manter o dinheiro girando no campo. O cooperativismo provava, na adversidade, aquilo que sempre pregou: juntos, os pequenos aguentam o tranco. E assim, seguiu, conquistando gradativamente o seu espaço.
Em Goiás, a política trazia um rosto conhecido de volta ao Palácio das Esmeraldas: em 15 de março, Iris Rezende, o ex-ministro da Agricultura e conhecedor do cooperativismo por dentro, iniciava seu segundo governo. E, no plano internacional, março reservava outra notícia de horizonte de longo prazo: o Tratado de Assunção criava o Mercosul.
Para as cooperativas agropecuárias goianas, com a Comigo à frente, com sua indústria de esmagamento consolidada no Sudoeste, abria-se a promessa de um mercado continental para a soja, o milho e os derivados que o Cerrado produzia em escala crescente. O que depois seria uma corrente transformadora de comércio exterior dava ali, neste período, passos firmes para se estruturar. As commodities foram uma âncora do cooperativismo e da economia brasileira dali em diante. O ano terminava sem milagres econômicos, mas com uma certeza: o cooperativismo goiano não precisava mais de muletas. Andava com as próprias pernas e já olhava para fora.
ANO 37 – 1992 – Um ano de grandes turbulências e consequências
Poucos anos condensaram tanta história do Brasil quanto 1992. Em junho, o Rio de Janeiro sediou a ECO-92, a maior conferência ambiental já realizada até então, reunindo mais de cem chefes de Estado para discutir desenvolvimento sustentável – expressão que o cooperativismo, com seu princípio do interesse pela comunidade, praticava décadas antes de ela virar consenso mundial.
Em setembro, a Câmara dos Deputados autorizou o impeachment de Fernando Collor de Mello; em dezembro, ele renunciou, e Itamar Franco assumiu definitivamente a Presidência da República.
Foi na montagem da equipe econômica de Itamar que Goiás viu um dos seus chegar ao topo. Em 12 de novembro de 1992, o economista goianiense Gustavo Loyola tomou posse na presidência do Banco Central do Brasil. Era o primeiro servidor de carreira da instituição a alcançar o posto.

Para o cooperativismo goiano, o feito tinha sabor de família: Gustavo é filho de Cleomar de Barros Loyola, o presidente da Cooperativa de Consumo dos Servidores do Ipase que, em 1956, fora eleito o primeiro tesoureiro da União das Cooperativas do Estado de Goiás (UCEG).
Trinta e seis anos depois da fundação da UCEG, o filho de um dos seus pioneiros comandava a moeda (e o crédito) do País. A semente plantada pelos cooperativistas de 1956 dava frutos que ninguém ousara imaginar.
Enquanto Brasília fervia, o cooperativismo goiano seguia fazendo o que sempre o fortaleceu: crescer Estado afora. Em maio de 1992, médicos do sudoeste goiano fundaram a Unimed Rio Verde, levando a saúde cooperativa à capital regional do agronegócio, na esteira do caminho aberto por Catalão, em 1984, e por Anápolis, em 1990.
A interiorização do Sistema Unimed em Goiás mostrava que o cooperativismo de trabalho médico, nascido nos grandes centros, encontrava terreno fértil no interior goiano: onde havia produção e gente, havia espaço para cooperar.
À frente da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás, Eduardo Pereira de Andrade acompanhava essa dupla expansão, dos segmentos e dos municípios, consolidando um sistema que, mesmo sob inflação superior a inimaginável 1.100% ao ano, não parava de se multiplicar. A crise derrubava governos; o cooperativismo, seguia de pé.














