Por Rafael Mesquita
A trajetória de Clayton Gonçalves, que fundou o icônico Carne de Sol 1008 (hoje, 1008 Bar e Restaurante) ao lado de seu irmão Patrick João, representa uma das histórias de empreendedorismo mais inspiradoras do cenário gastronômico de Goiânia. O empresário transformou a sua experiência como garçom em um império da culinária nordestina que movimenta noites inteiras no Setor Pedro Ludovico, destacando-se pela fartura extrema e excelência no atendimento.
Antes de se tornar o rosto por trás de um dos estabelecimentos mais movimentados de Goiânia, Clayton Gonçalves trilhou o caminho da base. Durante cinco anos, trabalhou com carteira assinada como garçom em um tradicional bar da cidade, no Setor Marista. No mesmo local, seu irmão Patrick comandava a churrasqueira.
Essa rotina exaustiva de mesa em mesa foi a verdadeira faculdade de Clayton. Ali, ele entendeu o que o cliente goiano valorizava: rapidez, atendimento atencioso e respeito ao consumidor. “Em pouco tempo, eu me destaquei. Era carismático e fiz uma boa clientela. Trabalhava com oito mesas, enquanto os outros garçons com cinco. Os clientes já perguntavam por mim quando chegavam, fui criando vínculo com eles”, recorda.
Em dezembro de 2007, unindo a visão de salão de Clayton e a habilidade técnica de Patrick na cozinha, os irmãos decidiram arriscar o próprio negócio. Nascia o 1008, referência à rua de mesmo nome no Setor Pedro Ludovico. “Com discriminação, as pessoas perguntavam: vocês vão vender picanha no Setor Pedro Ludovico? Mas não tínhamos condições financeiras de abrir um restaurante no Marista, Bueno, Setor Sul (bairros nobres da cidade)”, explica. E não tinham mesmo, para conseguir abrir o empreendimento, Clayton precisou refinanciar o único carro que possuía.
Com mais de 18 anos de história, o estabelecimento se valorizou junto com o setor. A Rua 1008, uma das menores de Goiânia, com apenas 295 metros, graças ao empreendimento, tornou-se uma das mais famosas da cidade. “Quando chegamos aqui, era uma via abandonada. Contribuímos com a limpeza, urbanização, plantamos árvores e iluminamos no Natal”, afirma.
O início não foi fácil. Clayton conciliou por seis meses o trabalho de garçom no antigo emprego com o restaurante recém-inaugurado. “De dia, ia na Ceasa, fazia as compras, ia atrás de fornecedor e, à noite, voltava ao meu trabalho de garçom”, recorda. Eram apenas 11 mesas inicialmente. O irmão Patrick era o churrasqueiro; Clayton, nos dias de folga do emprego, atuava na cozinha, no atendimento e no caixa. A mãe, dona Odaisa Venâncio, era a cozinheira. De funcionários mesmo, havia apenas um barman e um garçom.
A estratégia de Clayton foi trazer a autenticidade das raízes nordestinas misturada aos temperos locais, ideia herdada do cardápio do antigo emprego. Pratos robustos regados a manteiga de garrafa, queijo do sertão, feijão tropeiro e mandioca cozida começaram a chamar a atenção. Contudo, o grande estalo do negócio foi a política de fartura combinada ao preço justo. Clayton percebeu que as pessoas adoravam compartilhar refeições abundantes em família ou entre amigos. Os pratos comerciais e as chapas de carne de sol serviam facilmente três ou mais pessoas, tornando-se rapidamente um sinônimo de “custo-benefício imbatível” na capital.
Mas foi o boca a boca que transformou o 1008 em um ponto de peregrinação diária, gerando filas de espera constantes. “Aumentamos mais oito mesas, depois mais seis, fomos reestruturando, reinventando o espaço, mas sem inventar demais, de forma que o retorno inicial seria investido no negócio”, destaca.
O sucesso foi tanto que as filas de espera para conseguir mesa levavam a clientela a procurar o restaurante ao lado. “Tínhamos fila todos os dias e não havia como crescer mais. Se contribuíamos para lotar a concorrência, por que não abrir outra unidade?”, argumenta. Assim, foi feito. O imóvel escolhido era na mesma rua e não foi inaugurado para ser um concorrente da primeira unidade, mas sim uma extensão.





Nova unidade e mais crescimento dos negócios
O segundo 1008 Bar e Restaurante foi inaugurado quase cinco anos após o primeiro, na esquina com a Avenida Leopoldo de Bulhões, uma das principais do Setor Pedro Ludovico. Antigos e novos funcionários foram treinados para atuar na nova unidade. “O primeiro 1008 se tornou uma escola para o segundo”, afirma. O aprendizado foi bem sucedido, tanto que o novo restaurante, mais amplo, logo também passou a ter filas de clientes a espera.
Além de manter à qualidade dos pratos e do atendimento, o espaço foi, anos depois, ampliado, ganhando uma brinquedoteca, eleita a melhor de Goiânia pelo Prêmio BRB de Gastronomia. “Pelo perfil dos nossos clientes, com grande presença de famílias com crianças, sabíamos que essa era uma demanda crescente”, explica.
Ao todo, quatro cozinhas atendem às duas unidades e ao serviço de delivery. Foi ainda montado um centro de distribuição que manipula os alimentos e abastece os restaurantes. O responsável é um primo de Clayton, José Braz. “Ele é o nosso braço direito, o homem forte do 1008, diretor da nossa área de produção”, afirma.
O primo se tornou sócio dos irmãos Clayton e Patrick em um novo empreendimento, inaugurado no ano passado: o Bar do Bigode, no Setor Bela Vista. O nome é uma homenagem a Patrick, que há anos mantém o visual com um bigode, e à “maioridade” atingida pelo 1008 em 2025. “A ideia do local é oferecer um lugar menor, mais aconchegante ao cliente, com chopp Heineken, cerveja, espetinho e porções menores. É ideal para casais”, explica.
De apenas dois funcionários no início, em 2007, os irmãos empregam atualmente 330 pessoas em toda a estrutura que movimenta os três bares e restaurantes. Entre os profissionais estão: garçons, cozinheiros, entregadores, atendentes de call center, auxiliares de produção, maîtres, monitores e cumins. São quase 600 toneladas de carne consumidas por ano, em uma produção que engloba os mais variados tipos de carne vermelha, frango, lombo e peixe.
Mesmo não sendo uma missão fácil, ela traz prazer à vida de Clayton. “Todo segmento tem os seus obstáculos, mas é uma coisa que a gente ama fazer, minha família e eu nos dedicamos muito aqui dentro”, emociona-se.
Ideias não faltam para expansão do negócio. “Em breve, devemos abrir uma terceira unidade do 1008 e fazermos a expansão do nosso primeiro restaurante para acomodar melhor o cliente. Temos um carinho muito especial por ele, foi onde tudo começou”, explica. Ainda será feito um espaço de call center separado para atender clientes no serviço drive-thru.
O plano é valorizar a cultura gastronômica goianiense. “Temos amor por Goiânia e a capital pode ser muito explorada ainda. Não temos vontade de ir para fora. Atualmente, os nossos restaurantes se tornaram referência também para o público de fora da cidade que vem aqui nos prestigiar”, conta.




História e família
Entre a comida nordestina e o tempero goiano, as origens de Clayton estão ligadas apenas ao segundo. Nascido em Orizona, no interior de Goiás, o empresário deixou a cidade com a família quando tinha apenas um ano de idade e se mudou para Goiânia.
Aos 18 anos, foi trabalhar em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal. Em uma noite na cidade, foi assaltado, tendo uma arma apontada para a sua cabeça, quando trabalhava de frentista em um posto de combustíveis, às margens da BR-040. Ainda atuou como funcionário de uma churrascaria, vigilante de banco e servidor concursado da prefeitura.
Mas o dinheiro era pouco, e com 24 anos e dois filhos gêmeos para criar, Clayton decidiu voltar à capital a convite do irmão. Foi quando começou a construir a sua história de garçom no famoso restaurante do Setor Marista em que Patrick já trabalhava como churrasqueiro.
O empresário destaca a boa relação com o irmão e o primo. “Um entende o outro. Eu, o Patrick (seis anos mais novo) e o José temos as nossas divergências, mas falamos a mesma língua. É uma ligação muito forte”, acredita. “Eles viajaram juntos agora e me deixaram aqui cuidando dos negócios, mas em breve será a minha vez”, brinca.
A mãe, Odaisa, completa 70 anos em 2026 e se aposentou após um bom tempo auxiliando os filhos no restaurante. “A afastamos ainda na época da pandemia, por questões de saúde. Ela precisa descansar, aproveitar a vida. Sempre nos abençoou muito”, conta, emocionado.
Clayton tem quatro filhos e faz questão que eles ajudem de alguma forma nos negócios. Eduardo é auxiliar administrativo do 1008, Luara coordena as rotas e o serviço de telentrega. Já Lucas é chefe de cozinha em um dos restaurantes do empresário Ian Baiocchi, e o caçula, Daniel, tem apenas 13 anos. “Mas logo, logo, ele (Daniel) também estará aqui conosco”, deixa o recado.
O proprietário do 1008 e do Bar do Bigode avalia que ensinar os filhos a necessidade de batalhar para conquistar o que desejam é fundamental para educá-los. “É preciso que eles saibam de onde vem o dinheiro. Que isso não cai do céu. Querem viajar e ter uma vida boa? Tem que ajudar”, afirma.














