Por Rafael Mesquita
A periferia não quer apenas sobreviver, ela quer o centro, o palco e o topo. Essa máxima define a trajetória de Breno Cardoso, presidente da Central Única das Favelas de Goiás (Cufa GO), um homem que transformou a própria vivência em motivação para redesenhar o destino de milhares de jovens goianos em territórios marginalizados.
Ele tem a convicção de que a favela não pode ser definida por suas carências, mas sim pela potência extraordinária de seu povo.
Breno acredita que as ferramentas de transformação precisam ser tão vibrantes quanto a energia da juventude da favela. Sob a sua liderança, o esporte e a cultura deixaram de ser mero lazer e viraram caminhos profissionais estruturados.
Filho de uma família de classe média baixa, ele foi criado na periferia de Aparecida de Goiânia. Morava com a mãe, Izabel, e a irmã, Nayara, no Setor Cruzeiro do Sul. Lá, a dificuldade era compartilhada por toda a comunidade. Ainda na infância, via vizinhos e amigos que não conseguiam manter o básico de uma residência. Era o corte de água em um dia, da energia elétrica em outro. “Muitas dessas pessoas só conseguiam ter o mínimo para sobreviver. A desigualdade social e as carências estão ali”, recorda.
Uma das principais paixões de Breno sempre foi o futebol. Ainda criança, não perdia a oportunidade de jogar bola. Seja no futsal, na grama ou no campo de terra. Onde tinha o esporte, lá estava ele. O desejo de se tornar jogador o fez atuar, entre os 12 e 16 anos, pelas categorias de base do Goiás, Atlético e Goiânia. O centroavante “não perdoava”. “Fui artilheiro de vários campeonatos e torneios”, afirma. Mas a falta de perspectiva de crescimento no futebol o fez abandonar a bola e buscar alternativas para sobreviver.
Reprovado no vestibular da Universidade Federal de Goiás (UFG) e sem condições financeiras de pagar uma faculdade particular, o adolescente abandonou os estudos. A opção foi trabalhar em um escritório de contabilidade. Iniciou como office boy e, com muita dedicação e cursos de aperfeiçoamento, ainda atuou nas áreas de recursos humanos e escrita fiscal.
Evangélico desde os 18 anos de idade, o envolvimento com a igreja o fez se tornar pastor com apenas 21 anos. “Dediquei-me tanto que me chamaram para ser pastor em tempo integral, passei a receber salário e abandonei o emprego”, destaca. Ali, começava um trabalho que, de alguma forma, segue na vida de Breno até hoje: a atuação direta com os jovens.
Ao subir na estrutura eclesiástica da igreja, se tornou o pastor principal de jovens da instituição. Nesse período, começou a organizar grandes eventos voltados a esse público. “Liderava muitos adolescentes de comunidades periféricas e realizava obras sociais. Tudo isso é muito parecido com o que fazemos hoje na Cufa”, acredita. Foi reconhecido como bispo, o segundo principal cargo da igreja.
Paralelamente à vida eclesiástica, decidiu empreender. Fundou uma empresa que organizava torneios esportivos de futebol, basquete e vôlei para jovens, vários deles de baixa renda. “Mesmo antes da Cufa, sempre entendi que a periferia é um território de muito potencial. Vários só enxergam problemas lá, mas isso esconde talentos que não são vistos ou impulsionados. É preciso gerar oportunidades”, avalia.

Projetos que mudam o jogo nas periferias
O ano era 2019, a Cufa estava desativada em Goiás há quatro anos. A intenção de Breno era realizar uma competição entre bairros da periferia, sem a necessidade de pagamento de inscrição. Buscou patrocínio, conseguiu o apoio de ex-jogadores famosos, fez uma boa divulgação nas redes sociais. Mas faltava “a cereja do bolo”, a transmissão ao vivo para todo o Estado.
O projeto da Copa da Periferia foi apresentado ao Grupo Jaime Câmara para que a TV Anhanguera transmitisse ao vivo a competição. Os diretores da emissora aprovaram a ideia, mas, a poucos dias do início do torneio, um problema quase colocou tudo a perder. A Rede Globo já tinha uma parceria nacional com a Taça das Favelas, promovida pela Cufa. Com isso, as afiliadas não poderiam transmitir outra competição semelhante.
Breno foi convencido por Celso Athayde, fundador nacional da Central Única das Favelas, e outros representantes da organização não governamental a transformar a Copa da Periferia em Taça das Favelas. Em apenas um mês, a competição foi realizada em Goiás com 12 equipes. A final entre Parque Atheneu (Goiânia) e Santa Luzia (Aparecida de Goiânia), no estádio Olímpico, teve a transmissão ao vivo da TV Anhanguera e foi motivo de comemoração. “Primeiro, tivemos receio de o goiano não gostar do nome Favela. Depois, a dúvida se conseguiríamos manter a audiência do Jornal Hoje (um dos principais da emissora)”, recorda. Resultado: o número de telespectadores quase dobrou em relação ao Jornal. “A curiosidade do público era maior do que qualquer resistência ao nome. Afinal, os maiores talentos do futebol brasileiro vieram da favela”, orgulha-se.
Já estava tudo pronto para a segunda edição do torneio em março de 2020. Em apenas cinco dias, 275 equipes de todo o Estado se inscreveram para a competição. Mas uma notícia que abalou o mundo afetou diretamente o futuro da Taça das Favelas: a pandemia da covid-19. Com a confirmação do primeiro caso em Goiás, a competição foi cancelada. “Na cabeça do jovem da comunidade, a chance de ele ser visto pelo Barcelona é jogando o nosso torneio com transmissão ao vivo da TV. De repente, estava tudo cancelado”, lamenta.
Era preciso “virar a chave” e entender que as comunidades periféricas que participariam da Taça seriam as mais prejudicadas com a nova realidade. “Mobilizei os mais de 200 líderes comunitários das equipes que disputariam o torneio e iniciamos uma campanha de arrecadação de alimentos nos campos de terra dessas regiões”, explica.




Ao todo, 200 mil famílias goianas foram beneficiadas com a ação nos três anos de pandemia.
A Taça das Favelas retornou somente em 2021. A final foi realizada dias após a liberação de público para eventos esportivos durante a pandemia. Ao todo, já foram seis edições do torneio, que inclui o futebol masculino e feminino. São 270 equipes com cerca de 250 mil atletas participantes desde as peneiras para escolher as seleções dos bairros.
Além da competição de futebol, a Cufa Goiás tem realizado, nos últimos sete anos, outras ações que promovem o protagonismo para os jovens da periferia. No esporte, ainda foi criada a Liga Internacional de Basquete de Rua (Liibra), valorizando o improviso do jogo e estimulando a versatilidade e criatividade. A Top Cufa é um concurso de beleza para meninas de comunidades que sonham em ser modelo, voltado para o mercado publicitário e o mundo da moda. Já a Expo Favela se tornou a maior feira de empreendedorismo de pessoas da periferia da América Latina. Há, ainda, o projeto Mães da Favela, uma ação humanitária com distribuição de alimentos nas comunidades.
A intenção é auxiliar a população de baixa renda e, acima de tudo, oferecer oportunidades. “São pessoas que criam a capacidade de se reinventar. Não vivem os problemas na teoria, mas sim, na prática. Todos os dias têm que enfrentar a busca pelo amanhã”, emociona-se.
Planalto Esporte Clube
Trata-se do primeiro clube brasileiro nascido diretamente de bases comunitárias. A ideia é “fugir” do histórico do futebol brasileiro de times que são criados através da união da elite. “O Planalto nasceu da mesma ideia da Cufa. É a mesma visão de mundo”, explica.
Fundado em 2024, o Planalto surge a partir da análise crítica de Breno sobre a formação das categorias de base do futebol brasileiro desde o início dos anos 2000. “O esporte no País abriu mão da sua essência, que é a criatividade e o improviso. A parte física é vista como a mais importante”, acredita.
Ele afirma que, em escolinhas de futebol, já há crianças de sete anos de idade com personal trainer. “Essa questão também envolve poderio econômico, porque tem um custo financeiro. O menino que teve acesso a isso, quando tiver 13 anos, terá vantagem, mesmo não sendo melhor. Passamos a não formar mais jogadores de terrão, mas sim os de condomínios”, avalia.
O objetivo do Planalto é existir na contramão dessa realidade e fazer o movimento de retorno da origem do futebol brasileiro. Com sede em Aparecida de Goiânia, o clube é um dos quatro no Estado que disputa todas as categorias de base no futebol masculino e um dos dois que está presente em todas no feminino.
No primeiro semestre deste ano, foi o maior campeão de competições de base organizadas pela Federação Goiana de Futebol, juntamente com o Vila Nova. Foram três títulos conquistados: Sub-17 e Sub-20 no masculino e Sub-20 no feminino.
Destaque, ainda, para o futebol profissional feminino com o vice-campeonato goiano, que lhe deu a oportunidade de estar na série A3 do Campeonato Brasileiro em 2026 (está a um confronto do acesso para a A-2). “Ainda chegamos à terceira fase da Copa do Brasil, a melhor campanha da história de um clube goiano na competição. Tudo isso tem nos dado muita visibilidade na mídia”, destaca.
O Planalto Esporte Clube tem atualmente 248 atletas na base e no profissional. Ainda promove o projeto Crias da Bola, com 12 escolinhas de futebol gratuitas para duas mil crianças da periferia em todo o Estado. Já o Favela City é a transição da escolinha para a base dentro do Planalto. São selecionados atletas que permanecem no clube por até um ano, jogando e treinando gratuitamente para buscar uma chance nas categorias que antecedem a profissional.







Família e futebol
Há 18 anos, Breno e Beatriz Oliveira estão casados. Ela auxilia nos projetos do marido e é diretora institucional da Cufa. “Ainda me ajuda muito dentro de casa. Várias vezes, resolve os problemas lá, porque viajo muito por causa dos meus compromissos com a Cufa e o Planalto”, destaca. O casal tem dois filhos, Gabriel (15 anos) e Matheus (8 anos). Assim como o pai, ambos são apaixonados pelo futebol.
O caçula está na escolinha do Goiás. Mas Breno acredita que é cedo para o garoto sonhar com voos mais altos no esporte. “Ele ainda é muito novo. Por enquanto, é só mais um esporte que o ajuda a praticar atividade física e estar longe da tela do celular”, explica.
No caso do primogênito, até pela idade, o futebol já se tornou algo mais sério. Gabriel jogou na base do Goiás e da Aparecidense. Atualmente, está no Planalto e já foi vice-artilheiro do Campeonato Goiano Sub-15. Mas o pai não dá moleza para o adolescente na vida escolar. “Cobro muito os estudos. Se a nota cair, ele para com o futebol”, afirma. Breno conta que, mesmo sendo presidente do clube, nunca conversou com o treinador sobre o filho. “Futebol é um funil apertado, que depende de muitos fatores. É o Gabriel que vai traçar o próprio caminho”, acredita.

















