Por Vinícius Braga
O charme colonial, as ruas de pedra, as igrejas centenárias, as cachoeiras que nascem em meio ao Cerrado e uma atmosfera acolhedora que resiste ao tempo. Pirenópolis reúne atributos que, há décadas, encantam turistas brasileiros e estrangeiros. Agora, a histórica cidade goiana pretende dar um passo ainda maior: conquistar o título de Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Com quase 300 anos de história e 36 anos de tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Pirenópolis retomou, neste ano, as articulações em torno da candidatura. A campanha “Pirenópolis Patrimônio da Humanidade” é conduzida pela Prefeitura de Pirenópolis em parceria com o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), entidade que participa da construção técnica e institucional do projeto.
Mais do que um reconhecimento simbólico, o selo da Unesco representa uma oportunidade estratégica. Em todo o mundo, cidades que recebem o título passam a integrar um seleto grupo de destinos reconhecidos por seu valor universal excepcional, ampliando a sua projeção internacional, fortalecendo políticas de preservação e atraindo investimentos, turistas e pesquisas.
Para Pirenópolis, a certificação significaria consolidar uma vocação construída ao longo de séculos: a de figurar entre os mais importantes patrimônios históricos, culturais e ambientais do Centro-Oeste brasileiro.

O caminho até a Unesco
Segundo o presidente do IHGG, Jales Mendonça, o momento é de estruturar uma base técnica robusta, capaz de atender às exigências da Unesco.
“A candidatura foi oficialmente lançada e entra, agora, em sua fase mais importante: a construção de uma articulação sólida. Estamos reunindo especialistas, pesquisadores, arquitetos e historiadores para formar uma comissão forte, tanto do ponto de vista institucional quanto estratégico, que conduzirá todo o processo.”
O reconhecimento não depende apenas da riqueza histórica da cidade, mas também da qualidade dos estudos apresentados, dos inventários patrimoniais, dos planos de preservação e da demonstração de que o município possui condições permanentes de proteger esse patrimônio.
“Não estamos falando de um sonho distante. Pirenópolis reúne atributos concretos para alcançar esse reconhecimento. O desafio é demonstrar isso com documentação consistente, pesquisas qualificadas e planejamento. Uma candidatura bem fundamentada amplia significativamente as chances de sucesso.”

Mendonça reforça ainda que o engajamento da sociedade será fundamental para que o pleito avance.
“Precisamos unir os mais de sete milhões de goianos em torno dessa causa, como aconteceu durante a candidatura da Cidade de Goiás. Assim, teremos uma instância a mais de proteção para um patrimônio valioso, um verdadeiro relicário do povo goiano.”
Patrimônio cultural e natural
Para o presidente do IHGG, Pirenópolis apresenta os requisitos necessários para conquistar o título, sobretudo por estar inserida em uma das áreas mais emblemáticas do Cerrado brasileiro.
Entre os destaques, ele cita o Parque Estadual dos Pireneus, considerado o ponto mais alto da região, com campos rupestres, formações rochosas marcantes e rica biodiversidade. Também destaca a Cidade de Pedra, monumento natural que impressiona pelas formações geológicas e pelas paisagens que oferecem uma visão privilegiada do bioma.

Somam-se a isso dezenas de cachoeiras espalhadas pelo município, responsáveis por consolidar Pirenópolis como um dos principais destinos de ecoturismo do País.
A cidade também abriga um dos conjuntos históricos mais preservados do Centro-Oeste. Entre os bens que integram esse acervo, estão a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e o Museu de Arte Sacra do Carmo, o Museu das Artes do Divino, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, o Theatro Sebastião Pompeu de Pina (Teatro de Pirenópolis) e o Cine Teatro Pireneus, entre outras edificações históricas.
A gastronomia também integra esse patrimônio vivo. Considerada um dos principais polos gastronômicos de Goiás, Pirenópolis reúne desde a culinária tradicional goiana até restaurantes contemporâneos, preservando receitas que ajudam a manter viva a identidade cultural da região.
Outro diferencial está nas manifestações populares. Festas como as Cavalhadas e a Festa do Divino Espírito Santo atravessam gerações e reforçam a riqueza do patrimônio imaterial da cidade.
Pirenópolis e as cidades já reconhecidas
No Brasil, há um número restrito de cidades na lista do Patrimônio Mundial da Unesco. No Centro-Oeste, apenas a Cidade de Goiás e Brasília receberam esse reconhecimento. Caso obtenha o título, Pirenópolis se tornará o terceiro município da região a integrar essa lista.
Para Mendonça, a comparação com a Cidade de Goiás é inevitável.
“A Cidade de Goiás demonstrou que é possível preservar um conjunto urbano histórico e, ao mesmo tempo, transformá-lo em referência internacional. Pirenópolis reúne características semelhantes: patrimônio arquitetônico preservado, tradições culturais vivas, importância histórica e uma paisagem natural que amplia ainda mais seu valor”, lembra. Ele ressalta que a relação entre as duas cidades remonta ao período colonial.
Na época, o então Arraial de Meia Ponte, atual Pirenópolis, e o Arraial de Santana, hoje Cidade de Goiás, disputavam protagonismo político e econômico na antiga Capitania.
Houve, inclusive, uma disputa para definir qual dos dois arraiais seria elevado primeiro à condição de vila. A escolha acabou favorecendo a Cidade de Goiás, em razão de fatores ligados à ocupação territorial e à organização das bacias hidrográficas.
Apesar disso, Pirenópolis acumulou protagonismos próprios ao longo da história. Foi ali que se instalou a primeira tipografia de Goiás, responsável pela impressão do Matutina Meiapontense, considerado o primeiro jornal publicado no Estado e um marco da imprensa goiana.


Selo fortalece a economia
O impacto do reconhecimento da Unesco vai muito além do turismo. O título de Patrimônio Mundial representa novas oportunidades de desenvolvimento econômico. Essa é a visão da empreendedora Adriene Melo, proprietária da Amarela Ateliê, especializada em curadoria de roupas e acessórios autorais.
Como moradora, ela enxerga o reconhecimento como uma forma de ampliar a visibilidade de Pirenópolis no cenário internacional e valorizar ainda mais seu patrimônio cultural. Como empreendedora, acredita que o título fortalece a economia ao atrair visitantes interessados não apenas em conhecer a cidade, mas em vivenciar a história, cultura e produção locais.
Segundo Adriene, o público atraído por destinos reconhecidos pela Unesco costuma buscar experiências autênticas, valorizando produtos artesanais, design independente e iniciativas que preservam a identidade do território.
“É um visitante que busca autenticidade. Valoriza experiências genuínas e se conecta com negócios que têm propósito e identidade. Ateliês, artistas, artesãos e pequenos empreendedores passam a dialogar com um público que reconhece o valor da produção local e das expressões culturais.”
A própria trajetória da Amarela Ateliê nasceu dessa conexão com Pirenópolis. Para Adriene, a cidade a inspira diariamente e influencia diretamente a curadoria das peças oferecidas aos clientes.
“Pirenópolis tem um ritmo próprio e uma beleza que não depende de tendências. A arquitetura histórica, a natureza e a força do artesanato fazem parte da essência da cidade e inspiram tudo o que fazemos. Buscamos marcas e peças que carregam histórias, processos manuais e uma identidade singular, porque acreditamos que vestir também é uma forma de expressar cultura.”
Para ela, um eventual reconhecimento da Unesco reforça justamente aquilo que faz de Pirenópolis um destino especial: sua autenticidade.
“A cidade nos lembra todos os dias da importância de valorizar o que é verdadeiro, o que tem história e propósito. É essa autenticidade que encanta quem chega e que pode ganhar ainda mais força com um reconhecimento de alcance mundial.

O precedente goiano
Às vésperas de completar 300 anos, Cidade de Goiás mostra como o reconhecimento da Unesco fortaleceu o patrimônio, impulsionou o turismo e projetou o município internacionalmente
Por Rafael Vaz

Enquanto Pirenópolis mobiliza instituições e especialistas para conquistar o título de Patrimônio Mundial da Unesco, outro município goiano já demonstra, na prática, o impacto desse reconhecimento. A Cidade de Goiás, antiga capital do Estado, integra a lista do Patrimônio Mundial desde 2001 e se prepara para celebrar, em julho de 2027, seus 300 anos de fundação com uma programação que une preservação, cultura, turismo e desenvolvimento econômico.
A comemoração do tricentenário começou a ser estruturada ainda neste ano e reúne secretarias municipais, instituições públicas, entidades culturais e parceiros estratégicos. Entre eles, está a própria Unesco, que participa da construção de projetos voltados à preservação do patrimônio histórico, à valorização das manifestações culturais, ao fortalecimento da educação patrimonial e à ampliação do turismo cultural.
Mais do que celebrar uma data histórica, o objetivo é utilizar o aniversário como uma oportunidade para consolidar a Cidade de Goiás como referência nacional e internacional em patrimônio cultural, ampliando a sua capacidade de atrair visitantes, investimentos e novas oportunidades de negócios.

Fundada em 25 de julho de 1727, a antiga Vila Boa preserva um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos coloniais do Brasil. Casarões, igrejas, ruas de pedra e manifestações culturais centenárias fazem parte de um patrimônio que, em 2001, recebeu da Unesco o reconhecimento por seu excepcional valor histórico e cultural.
Desde então, o município consolidou a sua vocação para o turismo histórico. Eventos tradicionais, como a Procissão do Fogaréu, o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) e diversas manifestações religiosas e culturais ganharam ainda mais projeção, fortalecendo a economia criativa e movimentando setores como hotelaria, gastronomia, comércio e serviços.
O reconhecimento internacional também ampliou a responsabilidade com a preservação do patrimônio. Ao longo dos últimos anos, investimentos em restauração, conservação do Centro Histórico e ações de educação patrimonial passaram a integrar a estratégia de desenvolvimento do município, reforçando a ideia de que preservar a história também significa criar oportunidades para as próximas gerações.
É justamente esse modelo que inspira a candidatura de Pirenópolis. Assim como a Cidade de Goiás, o município reúne um conjunto arquitetônico preservado, tradições centenárias, festas populares reconhecidas e uma forte identidade cultural. A diferença é que, agora, busca dar um passo além: conquistar a chancela da Unesco e ingressar no seleto grupo de cidades consideradas patrimônios de toda a humanidade.
Patrimônios Mundiais brasileiros
Alguns exemplos reconhecidos pela Unesco:























