ANO 7 – 1962 – O marco zero do planejamento
Por Leandro Resende
O ano de 1962 consolidou Goiás como o laboratório de uma experiência administrativa sem paralelos no Brasil. Enquanto o Governo Federal ainda engatinhava na criação de pastas de planejamento, o governador Mauro Borges, inspirado pelo “50 anos em 5” de Juscelino Kubitschek, já operava com uma estrutura de metas quantificadas e rigor estatístico fornecido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Era a disrupção no setor público da época.
Para o cooperativismo goiano, este foi o marco zero de uma nova mentalidade: a transição definitiva do amadorismo político para a gestão técnica. Estava sob a batuta de um governador de origem militar que, ao mesmo tempo que entendia de logística, era da família Ludovico, que construía uma tradição política no Estado. Goiás começava a deixar de ser um “grande pasto” para se tornar um território em franca modernização. Neste cenário, o cooperativismo assumia protagonismo como a peça no motor do desenvolvimento. Mauro Borges abria os primeiros concursos públicos, combatendo o apadrinhamento e exigindo que o setor produtivo – ainda 70% rural – se profissionalizasse. E o processo era simples e prático.

O Plano de Desenvolvimento Econômico (PDE) destinou 15,4% de seus recursos à agropecuária, mas com uma condição clara de eficiência. Onde o capital privado era incipiente e a organização local ainda operava em moldes tradicionais, as cooperativas surgiram como parceiras ideais para as novas estatais, como a Companhia de Armazéns e Silos do Estado de Goiás (Casego) e a Companhia Agrícola do Estado de Goiás (Caesgo). Essas empresas foram fundamentais nos anos 1960 e 1970 para fomentar a agricultura e organizar a infraestrutura de armazenamento e comercialização no Estado, atuando na regulação de preços e no apoio direto ao produtor rural.
Era o nascimento de um ecossistema em que o Estado montava a infraestrutura de armazenamento e fomento, enquanto, na base, as cooperativas organizavam a produção local. Iniciado em 1961, no ano seguinte, já dava resultados e já começava a se tornar uma estrutura orgânica: várias regiões do Estado solicitaram também a implantação do modelo.
Entretanto, 1962 também trouxe uma camada extra de complexidade sociopolítica. O cooperativismo foi adotado por Mauro Borges não apenas como ferramenta econômica, mas como estratégia de colonização e controle social. Inspirado por modelos como o Kibutz israelense, buscou-se na organização coletiva uma forma de modernizar o campo e conter a mobilização e a influência das ligas camponesas, as quais tiravam o foco do econômico para ampliar e até priorizar o embate político.
O cooperativismo tornava-se, assim, um agente de influência rural, na avaliação de teóricos da época, garantindo que a evolução tecnológica ocorresse sob a defesa da ordem e do progresso estatal, afastando o espectro da radicalização. Era um parceiro do desenvolvimento e não um partido político. Para a União das Cooperativas do Estado de Goiás (UCEG), entidade que deu origem ao Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado de Goiás (OCB/GO), o impacto de 1962 foi a compreensão de que a segurança jurídica e o planejamento orçamentário eram os únicos caminhos para a longevidade.
O cooperativismo goiano entendeu o recado e começou a desenhar o seu próprio caminho, preparando-se para o futuro, ciente de que o cenário político tem oscilações e de que governos (e projetos) têm prazo de validade. Entender que o cooperativismo não era refém da política transformou a história do setor por décadas. Melhor ainda, selou o compromisso com uma elite técnica que transformaria o perfil socioeconômico do Estado, unindo o capital estatal à força do produtor organizado, com os melhores pensadores de cada área de atuação.

ANO 8 – 1963
O escudo cooperativo e a construção de independência
Em 1963, enquanto Goiás vivia a euforia das metas do Plano Mauro Borges, o movimento cooperativo mundial se reunia em Bournemouth, na Inglaterra, para um debate crucial na Aliança Cooperativa Internacional (ACI). O tema central foi a preservação da autonomia frente à crescente intervenção dos governos.
As cooperativas locais e a UCEG, acompanhavam daqui, atentas às deliberações em âmbito internacional. Em solo goiano, esse dilema era palpável: ao mesmo tempo em que o Estado provia o combustível para o crescimento, via Caixa Econômica do Estado de Goiás (Caixego) e Banco de Desenvolvimento, as cooperativas precisavam lutar para não se tornarem meros apêndices da máquina pública.
Era o desafio de equilibrar o incentivo estatal para crescer com a autogestão para se estabelecer, um pilar que ganharia força em Viena, na Áustria, em 1966, no 23º Congresso da ACI. Nesse contexto que se formava, o ano de 1963 foi da educação e da doutrina cooperativista, que se tornaram vitais para a governabilidade. A elite rural goiana percebeu que, para evitar conflitos de interesse e garantir a independência, era preciso profissionalizar os quadros sociais.
O cooperativismo serviu de escudo contra a incerteza em Brasília, permitindo que o produtor local ocupasse os polos de desenvolvimento no Sudoeste e no Mato Grosso Goianos. As cooperativas não eram apenas unidades de produção, mas centros de resistência econômica que utilizavam os recursos do Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa) e do Consórcio das Empresas de Radiodifusão e Notícias do Estado (Cerne) para conectar o interior ao progresso, sem abrir mão da sua identidade societária. Eram mais duas estatais importantes criadas por Mauro Borges que beneficiaram a economia e o cooperativismo.

A regionalização econômica proposta por Mauro Borges encontrou no cooperativismo de 1963 a sua tradução mais fiel e atuante. O Estado foi dividido em zonas fisiográficas e, em cada uma delas, a cooperativa atuava como a ferramenta de “proteção social” que mitigava o esvaziamento do campo. Onde o Estado racionalizava a presença, a cooperativa se estabelecia, provendo o apoio que a modernização excludente do latifúndio muitas vezes negava ao pequeno produtor.
Era uma simbiose complexa: o Estado entrava com o capital e a infraestrutura, mas a cooperativa precisava garantir a “consciência social”, um conceito que começava a ganhar corpo no debate. Ao encerrar 1963, o cooperativismo goiano estava em sua fase de maior robustez institucional. Operando em rede e atraindo investimentos de programas como a Aliança para o Progresso, o setor provava que a eficiência econômica era um eficiente caminho para a justiça social.
A lição de 1963 era de que o apoio governamental é bem-vindo, mas a independência é inegociável. Essa solidez doutrinária e administrativa seria o alicerce que permitiria ao movimento goiano atravessar a tempestade pós-1964, o que veremos no próximo capítulo, mantendo o motor do desenvolvimento girando sob pressão institucional.














