Por Rafael Vaz
Um grande parque ecológico cercado por novos empreendimentos urbanos. A possibilidade ainda é indefinida, mas já movimenta debates sobre urbanismo, patrimônio histórico e requalificação urbana em Goiânia. O tema surgiu após uma publicação feita pelas redes sociais do Jóquei Clube de Goiás mencionar negociações envolvendo o Hipódromo da Lagoinha e a possibilidade de implantação de um parque na região.
Apesar da repercussão, a própria diretoria do clube afirma que não existe nada definido. “São apenas conjecturas”, afirma a presidente do Jóquei Clube, Nívea Cristina Ribeiro de Paula, ao comentar as discussões envolvendo a área.
Segundo ela, as negociações com a Prefeitura de Goiânia ainda estão concentradas na tentativa de resolver o passivo financeiro da instituição e discutir os valores relacionados às dívidas tributárias e aos imóveis do clube.

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Goiânia para comentar as discussões envolvendo a possibilidade de implantação de um parque na região do Hipódromo da Lagoinha, mas o município informou que não irá se manifestar sobre o assunto neste momento.
A situação financeira do Jóquei é considerada delicada. De acordo com a diretoria, o clube acumula cerca de R$ 280 milhões em dívidas, principalmente relacionadas ao IPTU da sede social, localizada no Setor Central, e do Hipódromo da Lagoinha. “É inviável o hipódromo naquele local com um IPTU de R$ 10 milhões por ano”, afirma.
Segundo a presidente, a atual gestão assumiu o clube já em meio ao processo de desapropriação da sede social e sob risco de comprometimento do patrimônio da instituição. “Quando essa diretoria tomou posse, a gente já assumiu com o patrimônio do Jóquei comprometido”, diz.
A dirigente afirma que, antes de qualquer definição sobre o futuro do hipódromo, o clube tenta concluir um “encontro de contas” com o município para definir o valor efetivo das dívidas e também a avaliação patrimonial dos imóveis envolvidos nas negociações.
“Enquanto a gente não finalizar a parte do passivo tributário, desse encontro de contas para ver realmente qual é o valor da dívida e qual o valor também desses imóveis, são apenas conjecturas mesmo”, declara.
O parque que entrou no debate
Mesmo sem projeto formalizado, a hipótese de criação de um parque acabou ampliando o debate sobre o futuro urbano da capital.
A própria presidente do clube reconhece que a publicação divulgada nas redes sociais também serviu para medir a reação da sociedade e do poder público diante das possibilidades envolvendo a área do hipódromo. “De uma certa forma, a gente até fez essa postagem até para entender como seria a receptividade”, explica.
Segundo ela, caso um parque venha a ser implantado futuramente, a execução dependeria do município. De acordo com a dirigente, existe também a possibilidade de utilização de um fundo imobiliário municipal nas negociações envolvendo a área.
Patrimônio histórico e disputa urbana
O futuro do Jóquei Clube também mobiliza arquitetos, urbanistas e especialistas em patrimônio histórico. Projetada em 1962 pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, em parceria com João Eduardo de Gennaro, a sede do clube é considerada uma das principais obras da arquitetura modernista em Goiás.
Em nota pública divulgada quando a prefeitura anunciou a intenção de declarar o imóvel de utilidade pública, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO), classificou o edifício como “uma das obras mais expressivas da arquitetura moderna brasileira” em Goiânia e defendeu que qualquer revitalização preserve o valor arquitetônico e histórico do conjunto.
O conselho também pediu a recuperação de elementos ambientais previstos no projeto original, como áreas verdes e a reintegração do córrego existente no terreno antes das intervenções urbanas feitas ao longo das décadas.
A preocupação com a preservação da sede não é recente. Em 2017, a possibilidade de demolição do prédio para implantação de um empreendimento religioso provocou mobilização de arquitetos, professores, estudantes e antigos frequentadores do clube.

Requalificação urbana
As discussões envolvendo o Jóquei também chamaram atenção do mercado imobiliário e de especialistas em urbanismo. Para o presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO), Felipe Melazzo, qualquer projeto de requalificação da área pode provocar impactos importantes no desenvolvimento urbano da cidade. “O que a população mais gosta é de área verde, de parque”, avalia.
Segundo ele, regiões próximas a parques urbanos costumam passar por processos de valorização e transformação urbana, como ocorreu em áreas próximas aos parques Vaca Brava, Areião, Cascavel e Serrinha.
O presidente da Ademi-GO também defende que desenvolvimento urbano e preservação histórica podem coexistir. “O novo tem que conviver com o antigo”, diz. Ele defende, ainda, a criação de políticas públicas capazes de incentivar a preservação de imóveis históricos sem impedir novos empreendimentos urbanos.

O “novo Jóquei”
Enquanto negocia dívidas milionárias e o futuro de seu patrimônio, a atual diretoria do Jóquei Clube de Goiás tenta reconstruir a movimentação do clube e reaproximar antigos associados.
Segundo a presidente Nívea Cristina Ribeiro de Paula, a gestão retomou as corridas no Hipódromo da Lagoinha e vem promovendo ações para atrair novamente os joqueanos e suas famílias.
De acordo com a diretoria, o clube possui cerca de 1.750 famílias de sócios remidos, e a intenção da gestão é incentivar a participação dos associados nas decisões sobre o futuro patrimonial da instituição. “Nada disso vai ser feito sem aprovação dos joqueanos”, diz Nívea ao comentar as negociações em andamento com o município.
A diretoria também afirma trabalhar na construção de um “novo Jóquei”, buscando alternativas para garantir a continuidade das atividades do clube mesmo diante das disputas envolvendo a sede histórica e o Hipódromo da Lagoinha.















