Por Rafael Mesquita
São 50 anos de carreira que transformaram Renaldo Limiro, 78 anos, em uma das maiores autoridades do País em Direito Empresarial. O advogado continua atuando, se não com a força de um escritório que já chegou a empregar cerca de cem profissionais, com a mesma vontade e determinação que marcaram a sua trajetória. “Estou em uma fase muito boa profissionalmente, continuo estudando, escrevendo artigos, e sou mais seletivo na quantidade de processos a que me dedico”, explica.
Na missão de abrir portas para pessoas que se apaixonam pela profissão, Renaldo acredita que tem cumprido muito bem. “Se fui exemplo, é nesse sentido de conseguir inspirar outros profissionais que passaram pelo meu escritório e atualmente são juízes, procuradores de Justiça e grandes advogados. Isso já faz valer a pena”,emociona-se
Ser um exemplo também para os três filhos, todos advogados, o orgulha e o motiva a seguir em frente. “Não penso em encerrar a carreira. Meus filhos sempre me procuram para trocar ideias jurídicas. É muito bom saber que sou uma referência para eles”, afirma.
A experiência e o conhecimento adquiridos em cinco décadas de profissão lhe proporcionaram a capacidade de lançar seis obras ao longo da carreira. A principal delas é de 2015: “A Recuperação Judicial Comentada Artigo por Artigo”. O trabalho lhe proporcionou ser citado em um julgamento no Superior Tribunal de Justiça (STJ). “Foi um grande sentimento para mim. Um matutão do interior de Minas chegou lá, onde pouca gente chega”, orgulha-se.
O livro mais recente está sendo lançado: “Liberdade Econômico- Financeira para Micro e Pequenos Empresários”. Na obra, Limiro explica a Lei nº 11.101/2005, que regula a recuperação judicial no Brasil. Segundo ele, muitos micro e pequenos empresários não entrariam em falência se tivessem real conhecimento da legislação.
De acordo com o jurista, o legislador concedeu vantagens ao empreendedor, como a suspensão de 180 dias nos débitos contraídos. “Mostro o passo a passo para que a empresa, desde que seja viável, consiga sobreviver. Tudo com transparência e ética, demonstrando que o negócio pode ser recuperável e que os clientes podem ter a certeza de que vão receber o que lhe deve”, explica.





Origem e construção de uma carreira
Natural de Frutal (MG), Renaldo Limiro chegou a Goiás em janeiro de 1970 para dar continuidade aos estudos, já que na cidade natal só havia ensino até o segundo grau.
Na família, não existiam advogados. O grande incentivador para que fizesse o vestibular de Direito na Universidade Católica foi o amigo Jovino. Contador da Associação dos Funcionários do Fisco de Goiás, entidade na qual trabalhavam juntos, Jovino também era estudante do curso e o aconselhou a se tornar advogado.
Limiro conciliava o emprego, que lhe sustentava em Goiânia, com a faculdade. Até que conseguiu um estágio remunerado no departamento jurídico da Associação Comercial do Estado de Goiás (Acieg), local em que atuou com profissionais do Direito que lhe ofereceram grandes oportunidades na profissão, entre eles, Dirceu Borges Ramos e Luiz Murilo Pedreira e Sousa. “Foi a virada de chave para mim, me abriram as portas. Sempre me relacionando bem com as pessoas, consegui desbravar caminhos e seguir em frente”, acredita.
Dois anos após se formar, Limiro se tornou sócio de um escritório de advocacia pela primeira vez. A sociedade surgiu a convite de um amigo de Frutal, Nilo Ferreira Macedo. Após cinco anos de parceria, um novo caminho foi traçado: montar o próprio escritório. Nasce, então, em 1992, o Renaldo Limiro Advogados Associados. “Consegui trazer vários clientes interessantes para o meu escritório”, recorda.
Pouco antes, havia entrado em vigor o Código de Defesa do Consumidor, um “bicho de sete cabeças” para muitos empresários, mas uma oportunidade de crescimento profissional. O advogado lembra de um caso especial que lhe deu notoriedade nacional. Limiro atuava para uma das maiores varejistas do Brasil na época, a Mesbla, e a empresa anunciou erroneamente, em um folder, um forno de microondas ao preço de 24 cruzeiros e 50 centavos, quando, na verdade, o produto custava 245 cruzeiros. A situação gerou uma confusão entre clientes, que acionaram a Justiça para adquirir o equipamento pelo valor ofertado. “Achei uma brecha na lei e entrei com uma medida cautelar de nulidade, alegando erro na impressão do material. Vencemos no STJ. Foi o grande momento da minha carreira naquele instante”, afirma.
Outro segmento que se abriu para Limiro foi o de bancos, a partir do destaque na atuação no caso do Banco Comercial Bancesa. O advogado visitou outras instituições financeiras em São Paulo à procura de clientes e, em pouco tempo, ficou conhecido nacionalmente como o “advogado dos bancos”, representando juridicamente dez instituições em todo o País.
O aumento da quantidade de clientes o obrigou a ampliar a estrutura de trabalho. Direito Empresarial, Civil, Processual Civil, Tributário e Trabalhista estavam entre as áreas de atuação. O escritório passou a ocupar três salas do Edifício Magalhães Pinto, na Avenida Goiás, no Centro de Goiânia. Com isso, veio a decisão pela mudança para um imóvel na Avenida 85, onde ficou por 16 anos. O local chegou a ter cerca de cem funcionários e associados, entre advogados, estagiários e administrativos.
A convivência com tantas gerações de profissionais do Direito o faz uma testemunha viva da evolução do Judiciário brasileiro. Para quem começou a exercer a advocacia nos tempos da máquina elétrica, o impacto é ainda maior. “A tecnologia mudou tudo, antes o processo era em papel, um trabalho quase artesanal para encontrar o que queríamos. Hoje, é tudo eletrônico”, destaca. Mas a modernidade também resultou em “um choque de gerações”. “Lamentavelmente, vários grandes colegas da minha geração deixaram de advogar. Não sou expert no mundo digital, mas me esforcei e aprendi”, afirma.






Atividade classista
A atividade classista também é algo presente na carreira do advogado. Na Ordem dos Advogados (OAB), já foi secretário-geral e conselheiro. Ainda foi candidato a presidente pela oposição por três vezes (2000, 2006 e 2009). Anos depois, apoiou um antigo aliado, Lúcio Flávio, que ocupou o cargo principal da entidade por dois mandatos, entre 2016 e 2021.
Limiro também tem atuação marcante na Acieg, onde começou como estagiário, em 1974. Na gestão do ex-presidente Pedro Bittar, contribuiu na alteração do estatuto da entidade. Na época, o escritório de advocacia dele era bem próximo à sede da Associação e Renaldo estava presente quase que diariamente na Acieg. Posteriormente, Limiro ocupou os cargos de primeiro tesoureiro, vice-presidente. Atualmente, é diretor eleito da Associação na gestão do presidente Rubens Fileti.
A Família e o Direito
Pode-se dizer que a família Limiro respira o Direito e não só pela história do patriarca, mas também pelo que os filhos têm construído ao longo dos anos. Os três são advogados de destaque em suas áreas: Alexandre (Tributário), Danielle (Ambiental) e Daniel (Empresarial). Eles começaram a carreira em sociedade com o pai.
Com o primogênito, Alexandre, Renaldo escreveu, em 2007, um livro sobre o Simples Nacional (regime unificado de arrecadação de tributos devidos pelos microempresários individuais, microempresas e empresas de pequeno porte). Alexandre, aliás, foi o primeiro a decidir, há pouco mais de dez anos, deixar a sociedade com o pai. Na sequência, os outros dois filhos tomaram a mesma decisão. “Eu pensava que ficaríamos juntos até o fim, mas entendo o lado deles e sempre desejei que tudo desse certo em seus caminhos”, afirma.
Mesmo pai e filhos não trabalhando mais juntos, os almoços de domingo na casa de Renaldo não poderiam ter outro assunto principal. “Quando um começa a falar de Direito, os outros se envolvem e o tema acaba dominando as nossas conversas. Se não bastasse, as noras e o genro também são advogados”, diverte-se. Ele admite que, mesmo com a advocacia predominando, os assuntos se tornaram um pouco mais diversificados com a chegada dos netos, sendo seis no total (quatro meninos e duas meninas).
Quem na família também se envolveu intensamente com o Direito foi a esposa de Renaldo: Sônia Maria Fernandes. O advogado a conheceu ainda na juventude, quando estagiava no escritório de Dirceu Borges Ramos. Na época, Sônia, recém-chegada de São Paulo, era secretária no local. Os dois se conheceram em 1975, mas só começaram o namoro um ano depois na formatura de Renaldo. O casamento foi em 1977, portanto, completa 50 anos no ano que vem. “Nas nossas bodas de ouro, devemos viajar para celebrar a data”, acredita.
Sônia foi a grande incentivadora para que Renaldo montasse o próprio escritório. “Ela disse que iria me auxiliar. Lembro até hoje dos nossos filhos nos ajudando a colocar os livros na estante”, emociona-se. E Sônia realmente contribuiu muito para o sucesso do escritório. Durante anos, coordenou as áreas administrativa e de RH do Renaldo Limiro Advogados Associados.
Em 2025, o casal recebeu, da Assembleia Legislativa de Goiás, o Título de Cidadania Goiana, um reconhecimento que nunca sairá da mente de Renaldo. “Fomos receber juntos. Fiz um discurso e minha voz embargou, me emocionei muito. Lembrei da minha saída de Frutal, em uma madrugada fria de 1970. Agora sou goiano de fato e com muita honra”, orgulha-se.














