O agronegócio brasileiro vive, em 2026, um dilema que poucos setores conhecem na mesma intensidade. De um lado, segue como motor estrutural da economia, respondendo por cerca de 25% do PIB nacional e por parcela decisiva do PIB goiano, com efeito multiplicador sobre indústria, logística e comércio. De outro, vê crescer um movimento que, se não enfrentado, pode comprometer décadas de construção de credibilidade: o uso indiscriminado da recuperação judicial (RJ) como instrumento financeiro.
Os números expõem a gravidade. O setor encerrou 2025 com 1.990 pedidos de RJ, recorde absoluto e alta de 56,4% sobre 2024. No primeiro trimestre de 2026, 539 empresas agropecuárias já estavam em recuperação judicial, um avanço de 9,3% sobre o trimestre anterior. O índice de RJ por mil empresas ativas no agro atingiu 14,42, contra média nacional de 2,18: o setor concentra, hoje, mais de seis vezes o estresse financeiro do restante da economia.
Goiás aparece como segundo Estado em número de pedidos em 2025, com 296 solicitações, atrás apenas de Mato Grosso. O Centro-Oeste, epicentro produtivo do País, é também o epicentro da crise jurídica do crédito rural.
O impacto é direto sobre quem produz com responsabilidade. Cédulas de Produto Rural perdem força como garantia. O setor financeiro eleva exigências, encurta prazos e reprecifica risco. O produtor honesto paga pela conta da minoria que transformou a RJ em estratégia financeira. O Provimento 216 do CNJ, editado em março de 2026, tentou conter o movimento exigindo regime de competência, contabilidade auditada e dois anos de planejamento documentado, que sinalizam claramente que o tempo do amadorismo na gestão rural acabou.
É nesse cenário que o cooperativismo financeiro reposiciona o seu papel. O Sicoob mantém mais de R$ 100 bilhões em carteira agro e responde por cerca de 12% de todo o crédito rural concedido no País. Ou seja, não abandonou o agro.
Em Goiás, é a segunda maior instituição em oferta de crédito ao produtor, posição construída em décadas de relação direta com o campo. Mas o ponto crítico não é o volume, mas sua natureza. O crédito que sai hoje de uma cooperativa não financia apenas custeio de safra. Financia modernização de frota, irrigação, agricultura de baixo carbono, armazenagem, energia solar no campo e sucessão patrimonial. A instituição financeira deixou de ser ponto final da operação e passou a ser parceira de planejamento.
Essa transformação só é sustentável sobre uma base inegociável: a confiança. A cooperativa conhece o cooperado, conhece a propriedade, conhece o histórico produtivo. É este conhecimento territorial que reduz a assimetria de informação que pune todo o mercado de crédito quando a desconfiança se generaliza. É justamente esse modelo, ancorado em vínculo e em compromisso de longo prazo, que oferece ao agro brasileiro o melhor antídoto contra a deterioração reputacional que o uso indevido e nefasto da RJ vem produzindo.
O agronegócio brasileiro precisa de crédito. Mas precisa, sobretudo, do ativo mais valioso de qualquer cadeia produtiva: a palavra empenhada.

Diogo Mafia,
diretor-presidente do Sicoob UniCentro Br














