Em 2026, os planos de saúde coletivos devem ser reajustados, em média, entre 8% e 11% para a maioria dos usuários, quase o dobro da inflação projetada de 4,86%, e, para alguns, entre 20% e 27%. A consultoria Aon estima alta de 9,7% nos custos médicos corporativos: o menor índice em dez anos, e ainda assim o dobro do IPCA. Para a maioria das empresas, a saúde já é o segundo maior custo, atrás apenas da folha de pagamento. A pergunta que todo executivo deveria levar à mesa de renovação do contrato não é “quanto vai subir?”, mas “por que esse modelo só sabe subir?”.
A resposta está no desenho do sistema. A saúde suplementar brasileira ainda opera, majoritariamente, no fee-for-service: paga-se por quantidade de consulta, exame, diária, procedimento, e não por resultado. Nesse arranjo, ninguém é remunerado para manter pessoas saudáveis; a receita nasce da doença. O resultado é conhecido: uso excessivo do sistema, sinistralidade setorial de 81,7% em 2025 e o repasse inevitável ao contratante. É um ciclo economicamente insustentável para operadoras, prestadores e, sobretudo, para as empresas que pagam a conta e os beneficiários, claro.
Existe alternativa, e ela já funciona no Brasil Central. Em Goiás, sete hospitais e uma clínica de imagem, de grupos econômicos diferentes, formaram com uma operadora uma Accountable Care Organization (ACO), rede de cuidado integrado coordenada pela atenção primária, com remuneração por capitação expandida: compartilhamento de receitas atrelado à saúde da população assistida, não ao volume produzido.
Os resultados, publicados em estudo de caso acadêmico, falam por si: 3,7 consultas por paciente/ano contra 5,5 da média ANS; 8,39 exames contra 23,4; internações não cirúrgicas de 0,008 contra 0,072. A sinistralidade ficou em 69%, muito abaixo da média do setor, com NPS de 98. Quando o incentivo muda, paciente, médico, hospital e operadora ganham juntos. Menos desperdício não é menos cuidado: é cuidado no lugar certo, na hora certa, ao custo certo.
O que isso muda para quem está fora do setor da saúde? Tudo. Na próxima renovação, o executivo deveria fazer três perguntas: como a rede que atende meus colaboradores é remunerada? Existe atenção primária coordenando a jornada ou cada um navega sozinho pelo sistema de saúde? Quais desfechos de saúde são medidos e reportados? Reajuste não é fatalidade climática; é consequência de um modelo que a demanda corporativa tem força para transformar.
O futuro da saúde, e do orçamento das empresas, pertence a quem tiver coragem de mudar a lógica: pagar por saúde entregue, não por doença tratada.

Christiano Quinan,
é mestre em Administração com ênfase em Saúde, professor, pesquisador e autor do livro “Gestão Saúde – Guia Prático para Reconstruir o Futuro” (Guanabara Koogan). Cofundador da ACO Unihosp, conselheiro independente da AHPACEG e vice-presidente do Chapter Goiás do CBEXs – Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde.












