O setor de serviços, motor que impulsiona a maior parte do Produto Interno Bruto e da empregabilidade no Brasil, avizinha-se de um cenário de provações sem precedentes. A convergência de duas forças de impacto global e nacional desenha o que especialistas começam a classificar como um duplo tsunami estrutural. Uma tempestade perfeita, se considerados os juros inescrupulosos do País.
De um lado, a reconfiguração fiscal promovida pela reforma tributária ameaça sufocar a sustentabilidade financeira das empresas com uma elevação drástica da carga de impostos sobre o setor.
De outro, a aceleração desgovernada da inteligência artificial expõe as corporações a riscos operacionais e jurídicos invisíveis, subvertendo a segurança jurídica que fundamenta as relações de mercado.
A primeira onda avança de forma institucional. Sob o pretexto de simplificação, o novo modelo tributário penaliza de maneira desproporcional as atividades que dependem fundamentalmente de capital humano. Ao contrário da indústria, que acumula créditos robustos ao longo de sua cadeia produtiva, as empresas de serviços encontram na folha de pagamento sua maior despesa, um insumo que não gera abatimentos significativos no novo sistema de Imposto sobre Valor Agregado. O resultado prático será o repasse inevitável de custos ao consumidor ou, na pior das hipóteses, a compressão severa das margens de lucro, comprometendo a capacidade de investimento e a manutenção de postos de trabalho em um setor que historicamente absorve a mão de obra nacional.
Se o impacto fiscal é previsível e quantificável em planilhas, a segunda onda é silenciosa, sofisticada e de contornos cibernéticos. A introdução da inteligência artificial generativa no ambiente corporativo e judiciário, celebrada como o ápice da eficiência produtiva, revelou sua primeira grande fratura sistêmica. O recente episódio registrado na Justiça do Trabalho do Pará, onde uma petição inicial utilizou a técnica de injeção de comandos ocultos, conhecida como prompt injection, serve de alerta definitivo para o empresariado.
Neste caso específico, comandos maliciosos foram inseridos em fonte branca sobre fundo branco, tornando-se invisíveis ao olho humano, mas perfeitamente legíveis para os algoritmos de triagem do Judiciário. A instrução ordenava ao sistema ignorar provas e fragilizar a contestação de forma oculta. O incidente superou a barreira da mera curiosidade tecnológica. Ele inaugurou uma modalidade inédita e altamente prejudicial de litigância, que coloca em risco a lisura de contratos, pareceres e processos decisórios automáticos dentro das corporações.
Para as lideranças estratégicas, a mensagem é inequívoca. O setor de serviços não enfrenta apenas uma transição de mercado, mas uma redefinição compulsória de suas regras de sobrevivência. O viés empresarial exige que os gestores abandonem a passividade operacional. Diante do aumento iminente de impostos, a busca por eficiência e automação se tornará obrigatória. Contudo, essa mesma automação, se implementada sem protocolos rígidos de governança digital e blindagem algorítmica, transformará os sistemas internos em alvos fáceis para fraudes invisíveis. Mitigar a asfixia fiscal e proteger os ativos reputacionais contra fraudes cibernéticas de nova geração passam a ser as prioridades máximas na agenda do ecossistema de negócios brasileiro.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














