Lisandro Nogueira é, acima de tudo um entusiasta do cinema brasileiro. Paixão que se consolidou de fato com o Cineclube Antônio das Mortes, referência ao personagem principal de filmes do cineasta, Glauber Rocha. O grupo foi criado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) e tinha integrantes de vários cursos. Lisandro tornou-se membro em 1981, um marco na vida do então estudante universitário. “Foi uma revelação para mim, as exibições e discussões sobre cinema que realizo atualmente, eu comecei a fazer naquela época”, explica. Dali, não parou mais.

Portanto, não é por acaso que Lisandro Nogueira conduz com sucesso por tantos anos a mostra de cinema “O Amor, a Morte e as Paixões”. A ideia começou em 2002, quando o professor conheceu Gerson Santos, do Cine Lumière (hoje, Cine X). A primeira edição reuniu 17 filmes. “Foi a única vez que desmaiei na vida com tanto estresse. Me levaram para o hospital, o médico disse que era cansaço. Me deu um remédio, dormi até às 10 horas da manhã e, no outro dia, já estava no cinema de novo”, recorda.
Em 2026, o evento chegou à sua 17ª edição, encerrada no último dia 22 de abril. Ao longo dos anos, foram mais de mil filmes exibidos, debates e palestras com a presença de importantes atores brasileiros, como Lucélia Santos, Selton Mello e Glória Pires. Realizada pelo Instituto Jardim Cultural e curadoria de Lisandro Nogueira, a mostra tem a proposta de integrar cinema, pensamento e arte. “Queremos incentivar, formar público para o cinema em Goiás. Lançamos seis longas-metragens feitos no Estado por diretores goianos. Buscamos sempre consolidar a cena cinematográfica local”.

Outra importante contribuição de Lisandro para o cinema em Goiás foi durante os 17 anos em que coordenou um dos mais relevantes festivais do Estado e um dos mais respeitados do país, o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), realizado na cidade de Goiás. “Além de promover a cena local e nacional do gênero, ainda internacionalizamos o evento. Fernando Meirelles (diretor de “Cidade de Deus”, “Ensaio sobre a Cegueira” e “Dois Papas”) ficou admirado com o que viu, lembra. Na época, o evento ainda trouxe importantes nomes da cultura nacional, como: Arnaldo Jabor, Cacá Diegues e professores da Unicamp e USP. “Hoje, é um festival consolidado”, comemora.
Uma das experiências que mais marcou Lisandro foi o período de um ano e meio em que comandou, em São Paulo, a Cinemateca Brasileira, instituição que possui o maior acervo audiovisual da América do Sul, preservando grande parte do conteúdo cinematográfico nacional. O ano era 2013 quando um convite surgiu dos amigos Manoel Rangel (presidente da Agência Nacional do Cinema, a Ancine) e Ismael Xavier (professor da USP). “Eles me explicaram que a instituição estava em crise e precisava de alguém de fora de São Paulo para a gestão. Me convenceram e fiquei um ano e meio”, explica.

Lisandro considera um dos momentos mais exitosos da gestão da Cinemateca a ideia de implementação do modelo de organização social (OS) para a administração da entidade. “Eu já conhecia o modelo aqui de Goiás. Sabia que, em alguns setores da administração pública, como esse, seria plenamente possível”, afirma. Ele iniciou o processo, que terminou de ser implementado em gestões posteriores. “A partir dali, os conflitos acabaram e as OSs funcionaram”, acredita.
Dessa época, recorda-se bem de um episódio curioso que lhe marcou. Sempre que o jornal Folha de S. Paulo se referia a ele, o tratava como “o goiano Lisandro Nogueira”. “Fui à redação tomar um café com os jornalistas e perguntei se, quando era um paulista o diretor da Cinemateca, eles diziam: o paulista falano de tal”. Depois desse dia, o jornal passou a tratá-lo apenas como Lisandro Nogueira.
UFG e Cinema
A história de Lisandro com a Universidade Federal de Goiás começou nos anos 1980, quando fez os cursos de História e Jornalismo simultaneamente na instituição. “Só via caminho para mim nas ciências humanas”, conta. A ideia era ser professor de história (atividade que ele já exercia mesmo antes de se formar) e trabalhar de alguma forma com cinema. Até que, em 1989, passa no concurso para ser professor da UFG.

Em busca de mais conhecimento, fez o mestrado em História e Crítica de Cinema na USP (anos depois, ainda fez doutorado e pós-doc em São Paulo). Um período que transformou a forma como via os filmes, muito influenciado pelo orientador, o professor Ismail Xavier. “Ele abriu minha cabeça para compreender o cinema como algo além da diversão. Começo a ver o cinema como a maior representação que o mundo moderno pode ser capaz de criar em seu imaginário”, afirma.
Outros embates surgem a partir do aprofundamento dos estudos. Um deles, é a diferenciação entre o cinema de indústria (de mercado) e o cinema de arte (reflexão). “Quem inova é o segundo, e é o que mais me atrai”, avalia.
Foram três anos em São Paulo que mudaram para sempre a visão do professor da UFG. Lisandro Nogueira retornou à Universidade com outra perspectiva. “Começo a entender o cinema como algo que pode ser usado como uma máquina de guerra, como os nazistas fizeram, um instrumento de arte ou simplesmente uma indústria para ganhar dinheiro, assim como é feito em Hollywood”, afirma.
O professor passa a se sentir também mais preparado para transmitir o conteúdo aos alunos. “Começo a mostrar a eles o que existe por trás da narrativa de um filme”, acredita. Foram várias as sementes plantadas durante essa longa trajetória da UFG. Ele orientou nomes destaque da comunicação e do cinema em Goiás: Georgia Cynara (UEG), Rodrigo Cássio (UFG), Daniel Christino (UFG), Fabrício Cordeiro (Cine Cultura).

Na universidade, ainda criou o Cine UFG, projeto que proporcionava cinema gratuitamente na instituição em duas sessões, todos os dias ao meio-dia e às 17h30. Ainda havia debates e discussões sobre os filmes apresentados, com média de 45 pessoas por sessão e filmes que iam do cinema clássico ao contemporâneo. O projeto durou cinco anos.
Origem, amizades e futuro
Nascido e criado em Goiânia, Lisandro Nogueira é de uma família que veio, nos anos 1950, de Carolina, no Maranhão, para a capital de Goiás. Na infância, morou no Centro, próximo ao Parque Mutirama, onde viveu momentos marcantes. “Eu brincava lá, ia sozinho, o Centro era um lugar maravilhoso, o melhor lugar da cidade. Hoje, está abandonado”, lamenta.

Estudava perto de casa, em uma escola estadual que ainda existe na Rua 59, José Honorato. Na adolescência, mudou-se com a família para o Setor Universitário e atualmente vive no Setor Aeroporto.
Além do gosto pelo cinema, uma outra paixão é a música. Por meio dela, fez grandes amigos, como os cantores Belchior, que conheceu no ateliê do artista plástico Siron Franco, e Moraes Moreira, que viu pela primeira vez na Pousada do Rio Quente durante um show em 1985.
Já a amizade com os cineastas Cacá Diegues e Arnaldo Jabor gerou um acontecimento marcante. “Almocei com os dois no Rio de Janeiro e, pouco depois, o Jabor morreu. Eles me chamavam de nosso goiano”, recorda.
Quando questionado sobre o futuro do cinema, Lisandro não se esquiva. “Se formos um País inteligente, nunca irá acabar, mas se não tiver incentivo vai ser difícil. Somente na China, houve investimento de um bilhão de reais em salas”, conta. Para ele, a diferença é brutal entre ver um filme em uma sessão de cinema e em um serviço de streaming. “O cinema é magia, é escuro, a pessoa fica concentrada. Streaming é luz acesa, celular na mão, tem a ver com ansiedade e falta de foco. Tenho minhas dúvidas se pode ser considerado cinema mesmo”, acredita.

Texto: Rafael Mesquita.
Fotos: Arquivo pessoal.














