O ser humano usa 10% da sua cabeça animal. Essa porcentual tem caído desde que profetizou Raul Seixas, em 1973. A música é o do mesmo ano do Corcel, citado na mesma canção “Ouro de tolo”. De 1973 para 2026, tivemos muita água passando debaixo da ponte, mas temos questões para conectar e pensar.
Com o desembarque das inteligências artificiais, que usam 15% de sua cabeça computacional, mas ludibria e intimida as pessoas, como se usasse 1000%. A sacada é que ela desenha melhor a frase – ela não pensa, mas recorta e copia cada vez melhor. Reparou no travessão na frase anterior, não é de IA (respeita meu travessão – como disse o amigo Carlos André).
A questão é complexa, mas deixa eu entender sozinho.
E o dilema começa exatamente aí, do fim para o começo.
A expressão “deixa, eu vou entender sozinho”, acabou.
O mundo agora é das muletas.
O cérebro não plugou em nada para evoluir, mas para descansar. Dormiu. Está dormindo, desidratado, raquitizando-se, empobrecido de criatividade, abobado e babando por textos que jamais pensaria em fazer (ele goza de prazer ao dizer “o prompt é meu”).
O acuado humano treme quando é colocado em xeque, em público, sem ter como se conectar para responder. Cadê a IA, mãe do céu, onde está você? Surta. Ele consulta antes do encontro, prompt pronto, copia: o que falar quando tiver de falar sem ter o que falar e sem você para falar por mim?
A IA é ruim? Não, ótima ferramenta para conectar ideias. Boa amiga, péssima bedel. Mas para existir uma ponte, tem de existir dois lados. O lado artificial da inteligência não pode humilhar o lado orgânico (você, claro). Aceitar essa subjunção é ser um burro artificial, é jogar no lixo a capacidade orgânica de pensar.
Ligar a inteligência artificial não é desligar a inteligência orgânica.
Muito pelo contrário, é um jogo legal de desafio.
Você pode dominar a IA sem se ajoelhar. Ela pode ser sua companheira sem ser um bedel. Você pode evoluir sem ela, mas involuir se ela fizer tudo. Por exemplo, zero IA no texto acima. A frase seguinte tem IA.
“Há cerca de 70 mil anos, o Homo sapiens era um animal sem grande importância no ecossistema. Não era o mais forte, nem o mais veloz, nem o mais resistente. Mas dominou o planeta.” (Contém IA)
Eu não precisava dessa frase, estava indo bem. Eu me pergunto, quase chorando, por que eu fiz isso, meu Deus?
Deus não responde mais.
Para terminar, um outro trecho do Ouro de Tolo:
“Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: E daí?
Eu tenho uma porção
De coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado”
É isso. Não pare seu cérebro. Estimule-se. Fortaleça sua inteligência orgânica, pois a artificial é sua amiga, não sua chefe. Leia mais (um livro por mês, pelo menos), vá ao cinema duas vezes por mês (pelo menos), saia para bares e restaurantes diferentes com pessoas diferentes do seu circuito normal, mude a conversa. Converse uma vez por mês (pelo menos). Seja você, o ser orgânico. Use a IA como remédio, não como droga. Comece hoje.
Bom fim de semana.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














