Há vinte anos, o cérebro de um adulto produtivo enfrentava pressões que hoje soam quase artesanais: o telefone fixo que tocava, a pilha de papel sobre a mesa, o noticiário que chegava de manhã e no começo da noite, na televisão. No máximo, uma atualização durante o dia na CBN.
Havia estresse, claro, sempre houve. Mas havia também intervalos. O cérebro de 2026 não conhece intervalo. Ele é solicitado antes de acordar e depois de deitar, atravessado por centenas de notificações que não pedem licença diariamente, sendo treinado para a recompensa curta e para a impaciência com tudo que exige mais de trinta segundos de atenção contínua.
O resultado é um sujeito que lê menos e rola mais a tela do celular. Que conhece o título de tudo e o conteúdo de quase nada. Vivemos o paradoxo mais estranho da história do conhecimento: nunca houve tanto acesso, e nunca soubemos tão mal de tudo um pouco.
A informação virou paisagem, passa pela janela, não entra em casa. E o cérebro apenas passa por informações, sem digeri-las, sem reflexão. Engole sem mastigar o dia todo. Arquiva, compartilha, salva, cola, mas nunca absorve de fato.
Sobre as redes sociais, resisto à tentação dos dois sermões prontos: o que as demoniza e o que as celebra. Prefiro ficar, deliberadamente, em cima do muro, porque é do muro que se enxerga os dois lados. As redes deram voz a quem nunca teve, encurtaram distâncias, criaram mercados, carreiras e causas que não existiriam sem elas.
Mas as mesmas redes cobraram um preço que só agora começamos a contabilizar: a ansiedade permanente, a comparação como um esporte diário, a visibilidade como obrigação. Neste caso, o problema não é a ferramenta, mas o cérebro despreparado que a opera. Entregamos um órgão moldado por milênios de escassez a uma máquina desenhada para a abundância infinita de estímulos, maquinada por robôs e algoritmos insuportavelmente agradáveis.
Esse cérebro maltratado, eletrônico e carente vive, hoje, cercado de nuvens de propósito onde deveria haver determinação. Nunca se falou tanto em “encontrar o propósito”, e talvez por isso mesmo tanta gente pareça perdida. Propósito virou produto de prateleira, discurso motivacional, legenda de post. Determinação, que é coisa mais antiga e menos fotogênica, virou artigo raro. Somos donos de uma jornada que raramente se completa, não por falta de mapa, mas por excesso deles.
E isso não fica no indivíduo. Somos exércitos de ausentes. Na mesa de jantar, na reunião de domingo, no escritório, no aeroporto. Estamos boa parte do tempo dopados (dopaminados) como zumbis controlados por wi-fi. Pouco se fala, nem para brigar temos argumentos mais. Pouco se lê, mesmo com todos os livros disponíveis. Pouco se move, mesmo andando o dia todo.
A tecnologia se desenvolveu em progressão geométrica; o humano, na melhor das hipóteses, parou. Na pior, subdesenvolveu-se, perdeu músculos que tinha, como a paciência, a memória longa, a capacidade de estar inteiro num lugar só. O mesmo ecossistema que abriu espaço legítimo para criadores de conteúdo, gente que pesquisa, elabora e entrega valor real, abriu espaço idêntico para atores de vidas inexistentes.
Não falo de influenciadores; falo de personagens. Vida falsa, com rotinas encenadas, patrimônios alugados e autoridade fabricada. O mundo fake não avança sobre nossos cérebros por acaso: avança porque quer vender.
Vender produto, curso, estilo de vida, atalho. E vende cobrando em três moedas: consumo, dívida e frustração. A frustração, aliás, é a mais rentável: um cérebro frustrado compra de novo.
Seja subversivo. Leia um livro, deixe o celular de lado um pouco mais a cada dia. Seja produtivo e faça cursos livres, monte quebra-cabeças, compre um Lego, solte uma pipa e vá tomar banho em um rio nos próximos meses. Seja humano, seja dono do seu dia. Troque dez propósitos do card no Instagram por uma ligação para alguém que você não fala há cinco meses.
O ativo mais valioso de qualquer empresa, de qualquer família e de qualquer vida continua sendo o mesmo de sempre: uma mente que pensa por conta própria. A diferença é que, pela primeira vez, há uma indústria inteira disputando a posse dela. Não entregue seu cérebro de graça.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














