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Início Blog

Perfil: Alencar Júnior 

“Nós que já ganhamos tudo não podemos correr para brincar. Se um cara novo anda mais rápido que eu, vira zoação”

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
setembro 19, 2026
em Blog
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Perfil: Alencar Júnior 

Fotos: Arquivo pessoal

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Rafael Mesquita

Para quem olha de longe, o automobilismo parece um espetáculo feito de velocidade, gasolina e números. Mas, para quem conhece as pistas por dentro, as corridas são feitas de carne, osso, suor e uma dose quase sobre-humana de teimosia. Se há alguém que personifica essa essência por trás do ronco dos motores, esse alguém é Olimpio Alencar Júnior, ou simplesmente Alencar Júnior.

Sua vida sempre foi moldada na velocidade máxima, tornando-se uma das maiores lendas vivas do esporte a motor nacional e o maior piloto de automobilismo da história de Goiás. “Sou o que conquistou os maiores resultados no Estado”, afirma sem falsa modéstia. Não é para menos. Entre os maiores títulos estão o da principal categoria nacional, Stock Car, em 1982, o mundial de turismo, Trofeo Maserati, em 2005 e, no ano seguinte, o Campeonato Brasileiro de Turismo, Trofeo Maserati.

Mas a trajetória desse ídolo do automobilismo vai muito além dos troféus: é a história de alguém obstinado que comandava o próprio destino de dentro e de fora do cockpit. “Sempre fiz questão de ter o controle da minha vida, o poder de decisão. Quando isso não é possível, prefiro me retirar”, afirma. 

O automobilismo foi uma das  principais escolhas desde jovem. Com apenas 12 anos, guiou um carro pela primeira vez. Na pacata Goiânia dos anos 1960, dirigiu o veículo do pai, um Jeep Land Rover, pelas ruas do Centro da capital. “Fui até a Avenida Paranaíba, freei e acelerei com um movimento de pedal que os pilotos profissionais já faziam. Meu pai ficou impressionado. Nasci com essa habilidade”, recorda. 

Alencar só começou a competir no final da adolescência. Como não tinha um kart para correr, teve que comprar um já batido de um vizinho que era mecânico. O goianiense foi destaque nas primeiras corridas, ganhando provas que eram disputadas nas ruas do Centro, quartéis da PM, praças Cívica e Tamandaré e Parque de Exposição Agropecuário. Foram quatro anos de kart com três conquistas de competições regionais e três vices.

A inauguração do Autódromo Internacional de Goiânia, em 1974, era um sonho para Alencar Júnior. Mas, na época, ele mesmo se perguntava: como um pobre pode correr? O piloto não tinha dinheiro para ter um carro de corrida. Duas categorias seriam disputadas, a de carros da época e as 12 horas de Goiânia. Era preciso encontrar uma forma de participar. 

Um amigo piloto de moto, que tinha melhores condições financeiras, topou o desafio. Os dois demoraram três anos para construir o carro que ficou pronto quase no dia da prova. Para disputar a outra categoria do evento, Alencar tinha um plano B. Na época da inauguração, trabalhava como vendedor de remédios para uma multinacional holandesa. Vendeu um Fusca que utilizava no serviço e pediu para ser demitido para receber a indenização trabalhista. Com a soma desses valores, compraria um Maverick para correr. O patrão não quis dispensar Alencar e ainda o emprestou o dinheiro, que seria descontado do salário nos próximos meses.  

Quando tudo parecia estar certo para a estreia, um outro problema surgiu. Para a corrida, o Maverick precisaria de quatro amortecedores duplos que custariam quase o preço do carro e só eram encontrados em São Paulo. A forma encontrada foi pedir dinheiro emprestado à Caixa Econômica Federal, banco em que o gerente em Goiânia era um compadre de Alencar. Dívida feita, mas felicidade garantida: o Maverick veio de São Paulo equipado para a prova. 

Chegou o grande dia, 28 de julho de 1974, data da inauguração do Autódromo Internacional de Goiânia. Duas categorias e duas experiências completamente distintas. O carro que montou com o amigo quebrou na primeira volta da corrida. Já com o Maverick, a inexperiência atrapalhou, mas serviu de aprendizado.     

O piloto conta que não sabia quando abastecer, por isso, decidiu ter como referência a principal equipe da prova. “Eles pararam e nós paramos juntos. Só que eles estavam com problemas no carro e não com falta de combustível. Resultado: o nosso tanque estava cheio e vazou gasolina para todo lado, quase pegando fogo nos boxes”, recorda. O carro ainda apresentou problemas durante a corrida, mesmo assim, conseguiu terminar entre os dez primeiros colocados. 

Após realizar o sonho de competir na inauguração do autódromo na cidade natal, Alencar ainda disputou e ganhou competições estaduais e regionais de carros de turismo, como o Campeonato Goiano, Copa Goiás, Minas-Goiás, Planalto (Goiânia e Brasília) e Turismo Centro-Oeste Divisão 1. “Eu já era um piloto conhecido e guiava para grandes concessionárias locais, como a Cical e a Jorlan”, explica. Mas o melhor ainda estava por vir.

Glórias e batalhas na Stock

O empresário e piloto Marcos Gracia queria montar uma equipe de corrida. Alencar Júnior foi chamado para participar do projeto. Quando soube que a proposta era correr de Fiat, não topou. “Eu disse que só toparia se fosse para disputar a Stock Car”, afirma. Contraproposta aceita. 

O ano era 1979 e a categoria havia sido recém-criada. A Stock Car surgiu na era dos lendários “Opalões” (Chevrolet Opala, carro exclusivo que as equipes utilizavam na competição). “Compramos o carro em Ribeirão Preto (SP) e fomos eu e meu amigo Marcos Spenciere para a primeira prova da Stock em Tarumã (RS)”, destaca. 

Alencar estava confiante. “Falei para o Marcos Spenciere que eu chegaria entre os primeiros nem que fosse sem uma roda”, diverte-se. A palavra tem força. Sem recursos, a equipe não tinha mecânicos, nem peças  disponíveis, mas contou com a boa vontade de dois gaúchos que trabalhavam na área e se dispuseram a ajudar. “Eram pai e filho e, além de nos auxiliar de graça no fim de semana, ainda fizeram churrasco pra gente”, brinca. 

O piloto goiano largou em quinto lugar, mas conseguiu se recuperar ao longo da prova e estar entre os três principais colocados da corrida, brigando pela vitória. Na última volta, a roda do carro quebrou, mas Alencar Júnior ainda conseguiu completar a competição em terceiro lugar, conquistando o pódio. Assim como havia prometido para o amigo, chegou entre os primeiros, mesmo sem uma roda. 

Aquele seria apenas o início da “guerra” travada pelo goiano contra os paulistas na categoria, já que Alencar era o único piloto de fora do eixo Rio-São Paulo com chances reais de título naquele período. Foi preciso superar o forte domínio e a estrutura das equipes e pilotos paulistas nessa época, como Ingo Hoffmann, Paulo Gomes, Affonso Giaffone Jr. e Zeca Giaffone. Enquanto isso, o goiano corria de forma independente, controlando desde o patrocínio até a logística de sua equipe. 

Em 1979 e 1980, Alencar bateu na trave, terminando como vice-campeão por apenas um ponto de diferença. A glória veio em 1982. Em uma temporada de bastidores tensos e rivais de peso. Nas últimas corridas o goiano era apenas o quarto colocado do campeonato e precisava de uma combinação improvável para ser campeão. Conquistou os pontos que precisava e chegou à última corrida em Interlagos (SP) ainda com chance de título. 

Se o goiano vencesse, Paulo Gomes poderia chegar no máximo em sexto lugar. Se Alencar chegasse em segundo, o rival só poderia completar a prova até o sétimo lugar. Na última volta, Alencar era o segundo colocado e o piloto paulista era apenas o oitavo. Mesmo com a equipe o orientando a manter a posição, o goiano decidiu ir para cima e passou Wilson Fittipaldi Jr. na linha de chegada, vencendo o campeonato por um ponto. “Estranhamente, o Paulão passou dois pilotos na última volta e, se eu não tivesse vencido, teria perdido o título”, ressalta. 

Goiânia parou para recebê-lo. Uma carreata histórica, que reuniu milhares de pessoas, estendeu-se do aeroporto até o Parque Agropecuário. Goiânia tinha o seu rei das pistas. “Lavou a alma por tudo que passei. Os caras falavam que correndo por Goiás eu nunca seria campeão”, emociona-se.

O Estado ainda viu o seu principal piloto competir na maior categoria do automobilismo nacional até 1987, quando a velocidade cobrou o seu preço. Alencar liderava o campeonato em uma corrida na pista de Tarumã (RS), sob forte chuva. Ele vinha fazendo uma recuperação impressionante, saindo das últimas posições para o terceiro lugar. Contudo, uma falha no acelerador o jogou para fora da pista em um grave acidente que quebrou os seus dois pés. 

Os médicos diziam que o campeão precisaria amputar os dois pés. Em poucas horas, Alencar Júnior conseguiu ser transferido de avião para Goiânia, onde foi operado. “O médico me disse que se não ocorresse infecção, eu não perderia os pés, mas caso contrário, teria que amputar”, relata. A cirurgia foi bem sucedida. Mesmo assim, o piloto perdeu parte dos movimentos dos pés. 

Muitos parariam ali. Mas Alencar se recuperou, voltou a acelerar e, anos mais tarde, expandiu as suas fronteiras. A trajetória gloriosa na Stock Car de 87 corridas, 19 vitórias e 26 pódios estava encerrada, mas a carreira vitoriosa nas pistas ainda teria história para contar. 

Mais glórias na pista

Após a passagem marcante pela Stock Car, Alencar disputou a Fórmula 3 Sul-Americana correndo em pistas da América do Sul. Entre elas, a da Argentina, a do Uruguai e a do Brasil. Foram três temporadas com ampla cobertura para todo o País na Rede Manchete de Televisão. Em 1994, o piloto ainda competiu e venceu o Grand Prix de Miami, na categoria turismo, pilotando um Porsche 911. 

Após 14 anos sem participar de competições, Alencar Júnior reestreou no Campeonato Brasileiro de Turismo, o Trofeo Maserati. Ele disputou a sua primeira prova em 2005, em Interlagos, terminando  em segundo lugar e fazendo um belo retorno às pistas. No campeonato, obteve cinco vitórias e, mesmo com uma corrida a menos, foi vice-campeão brasileiro a apenas dois pontos do campeão. 

No mesmo ano, disputou o Campeonato Mundial do Trofeo Maserati, realizado no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, reunindo os campeões e vice-campeões dos campeonatos brasileiros e europeus da categoria, entre outros pilotos convidados da Stock Car Brasil. Alencar obteve dois segundos lugares nas duas baterias realizadas, somando maior pontuação que os adversários e, assim, levando o título de campeão mundial. 

No ano de 2006, o piloto ainda venceu o Campeonato Brasileiro Trofeo Maserati com duas rodadas de antecedência e com 152 pontos de diferença do segundo colocado, com trajetória impecável e aumentando os seus recordes na categoria.

Em 2007, o goiano realizou o sonho antigo de pilotar uma Ferrari nas pistas. Disputou o GT3 Brasil dirigindo uma Ferrari F430. Ao término da temporada, Alencar anunciou a sua retirada das pistas, onde deixou sua história no automobilismo mundial. “Já estava decidido a parar, o carro não era meu, não tinha poder de decisão”, destaca. 

Mas uma vez piloto, sempre piloto. Viver totalmente longe das pistas nunca foi um projeto de vida. Por isso, nos últimos anos, tem participado de etapas da AMG Cup Brasil, principal competição monomarca da Mercedes no País, sempre que convidado. “Ia voltar a correr em setembro e outubro deste ano em Goiânia, mas o autódromo está fechado novamente para a troca do asfalto”, lamenta. Mesmo com mais de 70 anos de idade, a ideia é entrar para vencer. “Nós que já ganhamos tudo não podemos correr para brincar. Se um cara novo anda mais rápido que eu, vira zoação”, se diverte. 

Sobre o automobilismo goiano, Alencar avalia que falta dinheiro para que o esporte tenha pilotos locais capazes de competir nacionalmente com concorrentes de São Paulo e do Sul do Brasil. “O automobilismo ficou muito caro, e Goiás é mais fraco financeiramente do que esses estados”, acredita. 

Paixão, autódromo e família

E o que o autódromo de Goiânia representa na sua carreira? Alencar é enfático: “é tudo, é minha carreira como piloto, minha vida financeira e familiar”. O piloto explica: “tudo que conquistei foi lá ou graças às corridas”. 

Para ele, o local vive o seu melhor momento em 52 anos de história. “A MotoGP é tão forte quanto a Fórmula 1. Só de termos a categoria aqui, já é uma vantagem muito grande para Goiás”, avalia. Alencar acredita que não há como Goiânia brigar com São Paulo por eventos, devido à estrutura e à riqueza da capital paulista. “Mesmo assim, se o governo de Goiás trouxer também a Fórmula Indy, teremos um fortalecimento ainda maior para a nossa região”, opina. 

Ainda sobre o autódromo, a principal conquista no local foi a esposa, Maristela Sousa de Alencar, com quem é casado há 55 anos. “Nos conhecemos lá, durante um evento. Ofereci carona, namoramos e casamos”, orgulha-se. Para ela, os elogios não faltam. “Quando fui casar pensei: no automobilismo posso até conseguir carro bom pra correr, mas mulher igual a essa não tem”, brinca. 

Maristela auxiliava o marido cronometrando os tempos nas pistas em que ele corria. Não reclamava do período gasto em autódromos, sobretudo aos finais de semana, e do cheiro de graxa, asfalto e gasolina. “Sempre foi minha parceira em tudo”, afirma. Inclusive nos negócios. Atualmente, Alencar e a esposa atuam na extração de látex em uma propriedade do casal em Inhumas. “É um segmento em que o sucesso é certo. O Brasil só consome 40% do que produz de borracha”, explica. “A gasolina é substituível, a borracha não. Está na aviação, no transporte terrestre e aquático”, destaca. 

O casal tem quatro filhos: Mirella, Rodrigo, Lorena e Sávio. Todos moram fora do país. “Não vi nenhum filho nascer, por causa das corridas”, lamenta. Sávio foi o único que herdou o dom do pai para os esportes. Jogou futebol nas categorias de base de clubes como PSG, Flamengo, Palmeiras e Atlético Goianiense. Ele também já correu quatro corridas pelo campeonato brasileiro de Endurance. 

O único neto, Noah, 8 anos, mora nos Estados Unidos e diz que vai ser jogador de futebol. “Ele pergunta na escola para os colegas se já ouviram falar na minha história como piloto”, orgulha-se. 

Alencar Júnior e Maristela já estão de viagem marcada para visitar a família no exterior. Afinal, são três filhos morando nos Estados Unidos e uma na Austrália. “Eles ficam competindo querendo que a gente fique mais tempo na casa de um ou de outro. Ano passado, ficamos seis meses viajando na casa deles para ninguém reclamar”, brinca. 

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