Leandro Resende
ANO 45 – 2000 – A travessia do milênio
A passagem de 1999 para 2000 foi marcada pelo famoso bug do milênio – quando se previa um caos dos computadores na virada do século. Mas, no dia primeiro de janeiro de 2000, tudo amanheceu em paz. Em Goiás, o cooperativismo também atravessou a virada sem sobressaltos, mas com uma pergunta no ar: a casa recém-batizada de OCB/SESCOOP-GO confirmaria, no novo século, a promessa feita em outubro de 1999?
A primeira resposta veio das urnas internas. Em 8 de fevereiro de 2000, Antonio Chavaglia foi reeleito presidente, mantendo Antonio Carlos Borges como vice. A mesma dupla que conduzira a instalação do SESCOOP em solo goiano ganhava mandato para fazer a máquina funcionar. E, de fato, a máquina funcionou. Se 1999 terminara com duas tímidas atividades de capacitação e 95 pessoas alcançadas, o primeiro ano cheio da Casa do Cooperativismo Goiano multiplicou por muitas vezes o alcance dos cursos, seminários e treinamentos. Era esse o tamanho da demanda represada por décadas de capacitação improvisada e parcerias de ocasião.

O País ajudou. Depois do susto cambial de 1999, a economia brasileira cresceu mais de 4% em 2000, a inflação ficou domada e o Congresso aprovou, em maio, a Lei de Responsabilidade Fiscal – um freio inédito nas contas públicas que, para o campo, significava um governo menos propenso a resolver os seus rombos imprimindo moeda.
Com o dólar mais alto tornando a soja goiana supervalorizada no mercado externo, a Região Centro-Oeste consolidava a virada: a fronteira agrícola chegava ao status de plataforma exportadora. As cooperativas, que fizeram parte de todo esse processo de aprendizado e evolução de transformar o Cerrado em celeiro produtivo, agora aprendiam a vender para o mundo.
Dentro da Casa do Coop Goiano, na Avenida Jamel Cecílio, a rotina também mudava de natureza. Pela primeira vez, a entidade não precisava escolher entre representar e capacitar, pois já dominava as duas atividades, com recursos próprios e calendário permanente. O primeiro andar abrigava a Câmara de Conciliação e Arbitragem; os demais, uma agenda crescente de cursos, seminários e visitas técnicas. A casa que nascera para representar e defender as cooperativas descobria sua vocação de formá-las.

ANO 46 – 2001 – O espelho de 1,7 mil rostos
Se as peças estavam se encaixando em 2000, o ano seguinte foi tenso. O Brasil enfrentou a pior crise energética em décadas e impôs um inédito racionamento de 20% a partir de junho, apagou as luzes da cidade, mudou horários de fábrica e ensinou o País inteiro a entender o significado da palavra “apagão”.
Havia certa ironia na cena para quem conhecia a história do cooperativismo goiano: décadas antes de a energia virar manchete nacional, eram cooperativas de eletrificação rural (dezoito delas registradas na entidade ainda em 1981) que puxavam fio e poste para levar luz aonde o Estado não entregava energia. O movimento que nascera para resolver escassez via o País redescobrir, à força, o valor de quem organiza a própria solução.
E era o primeiro capítulo tenso do ano – teriam mais. Foi nesse ano nervoso que o Brasil ainda veria a Argentina afundar na maior moratória da história e o mundo mudar de era em 11 de setembro, após os atentados às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos – o mundo sentiu o abalo por meses e, as consequências, por anos.
Mesmo diante de tanto caos, uma notícia do setor cooperativista, em Goiás, brilhava forte. Em 18 de novembro de 2001, Goiânia sediou o 1º Congresso Goiano de Cooperativismo. Mais de 1,7 mil participantes lotaram o encontro: dirigentes, técnicos, cooperados do agro e da saúde, do crédito e do transporte, gente de dezenas de municípios que, pela primeira vez, cabiam numa mesma fotografia. Em 45 anos de história, a entidade jamais reunira tantas pessoas em torno de uma só pauta: que sistema cooperativista o novo século exigia?
O congresso coroava a engrenagem montada em 1999. Dois anos depois da instalação do SESCOOP/GO, a agenda de capacitação já rodava em ritmo que a velha OCG não conheceu, e a formação ganhava até endereço acadêmico. Em 2001, a Faculdade Anhanguera inseriu a disciplina Cooperativismo em sua grade curricular, seguindo a trilha aberta pela Universidade Católica em 1988. A doutrina que, um dia dependera apenas dos pioneiros para circular, agora, tinha sala de aula, calendário e diploma.
Mas os abalos de 2001 na economia, claro, cobraram pedágio: juros altos para defender o real da turbulência externa, crédito rural espremido, dólar nas alturas – que era bom para quem exportava soja, duro para quem comprava insumo. Contudo, o saldo do ano ficou no outro prato da balança: um movimento que se contava em multidão e uma entidade que aprendera a formar os próprios quadros.














