Em plena campanha de 2026, o Estadão entregou a todas as candidaturas à Presidência o “Brasil Adiante”, com 58 propostas construídas em quatro encontros do jornal com mais de 30 especialistas. O documento se apresenta não como programa de governo, mas como “repertório de soluções maduras”, e o jornal promete acompanhar e cobrar o próximo governo: a intenção é fixar a agenda do mandato antes que ele comece, com propostas executáveis em 24 meses.
O eixo econômico tem uma tese clara: a despesa obrigatória cresce por regra, gera déficit, dívida, risco e juro alto, que derruba o investimento, hoje em 16,7% do PIB. Daí o ajuste de cerca de 4% do PIB, embora as medidas quantificadas somem menos de 1% do PIB e o diagnóstico ignore que, em 2025, o déficit primário foi de 0,43% do PIB enquanto os juros consumiram 7,9%. O mais grave é a ausência: nenhuma linha sobre estrutura produtiva, numa economia em que a indústria de transformação caiu de cerca de um terço do PIB nos anos 1980 para 10,8% em 2024 e que exporta soja, petróleo e minério à China para importar dela manufaturados.
Por trás dessa ausência está a matriz liberal-ortodoxa do documento, em que o Estado aparece só como despesa a conter, nunca como agente do desenvolvimento. A história econômica desmente essa visão: nenhuma grande economia chegou à renda alta apenas pelo mercado. Os Estados Unidos de Alexander Hamilton e a Alemanha de Friedrich List, como mostrou Ha-Joon Chang em “Chutando a Escada”, protegeram a indústria nascente; Japão, Coreia do Sul e Taiwan combinaram crédito dirigido, metas de exportação e disciplina sobre as empresas apoiadas. A China radicalizou o método: o 15º Plano Quinquenal (2026–2030) fixa metas de produtividade e P&D, desdobra-se em planos setoriais e provinciais e vincula o seu cumprimento à avaliação dos quadros. É o que Ignácio Rangel e Elias Jabbour chamam de projetamento: o Estado coordena a transferência de recursos ociosos para os setores em estrangulamento, e o mercado opera dentro desse projeto, não no lugar dele.
Traduzido para o Brasil, isso significa um plano decenal aprovado em lei, com metas para 2036: investimento em 22% do PIB, indústria em 14%, P&D em 2%. As missões teriam âncoras concretas: indústria verde com o gás hoje reinjetado, complexo da saúde com o SUS como comprador, agroindústria de maior valor e refino de minerais críticos. O financiamento combinaria BNDES com funding de mercado, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) protegido de contingenciamentos e parte da renda do petróleo, e o ajuste recairia mais sobre o topo da renda e as renúncias, de R$ 620 bilhões em 2026, do que sobre o gasto social.
Os riscos são reais. A política industrial de 2008–2014 mostrou que subsídio sem contrapartida vira renda capturada: cada apoio exige metas contratuais, cláusula de saída e avaliação independente. Com a Selic em 13,75%, poucos projetos se pagam, e cada ponto de juro custa cerca de R$ 69 bilhões ao Tesouro. E a China investe perto de 40% do PIB sob partido único; o Brasil, democracia de poupança baixa, precisa de pacto suprapartidário para planejar além de um mandato.
O Estadão tem razão ao dizer que o Brasil ficou para trás. Mas contas equilibradas num país sem projeto produtivo apenas organizam a estagnação: o próximo governo precisa de regras fiscais críveis e de um Estado capaz de planejar, as duas coisas juntas

Marcos Freitas, empresário, economista, mestre e doutorando.














