Em 20 de novembro de 2017, a OCB/GO e o cooperativismo goiano inauguraram a sua torre, o Edifício Goiás Cooperativo. No terreno da Avenida Jamel Cecílio, onde a sede de 1988 fora demolida três anos antes, subiram 11 pavimentos (nove andares e dois pisos subsolos). Fechava-se, assim, um arco patrimonial que resume a história inteira da instituição: da sala alugada de 12 metros quadrados na Rua 8, em 1956; passando pela casa própria de 1988, a ampliação de 2011 e, agora, o prédio-símbolo, com nome, auditório e andares de sobra para o sistema crescer. Sessenta e um anos separavam a sala, no Centro de Goiânia, da nova torre em área nobre. Entretanto, a distância real era de outra grandeza.

O ano do novo prédio da OCB/GO foi também o ano do 8º Seminário Estadual do Cooperativismo, que reuniu 450 participantes no Centro de Convenções da Pontifícia Universidade Católica, a PUC Goiás. O público presenciou o historiador Leandro Karnal falar de ética, o tema que o Brasil da Lava Jato e das delações transformara em urgência nacional.
A escolha não era casual. Num ambiente de confiança em colapso, o cooperativismo se apresentava como “terceira via”, modelo em que o dono é o usuário, e a governança se faz em assembleia. O economista Roberto Padovani e o consultor Cláudio Tomanini completaram o cardápio: ética, economia e gestão (a tríade da maturidade).

Os números do ano mostravam um sistema em consolidação seletiva. O cadastro registrava 215 cooperativas – depuração natural dos registros – com mais de 173 mil cooperados, alta de 10%, e 10,2 mil postos de trabalho mantidos “sem demissões significativas”, nas palavras do então presidente Joaquim Guilherme, em um País com 12 milhões de desempregados.
O ramo da saúde avançou 12,7%, alcançando quase R$ 2 bilhões de receitas; o crédito somou R$ 1,9 bilhão; e o agropecuário recuou 7%, uma ressaca da supersafra anterior sobre os preços. No ranking Valor 1000, a Comigo apareceu em 156º lugar entre as maiores empresas do País, primeira do agro no Centro-Oeste; a Unimed Goiânia, entre os 20 maiores planos de saúde do Brasil.
No sudoeste goiano, o Censo flagrava a intercooperação em números. Os cooperados pessoa jurídica haviam dobrado em dois anos, 98% deles no crédito – era cooperativa associando-se a cooperativa. Também registrava um fim de ciclo: a Comigo encerrou, naquele ano, a sua linha de lácteos, manteiga e requeijão, cedendo lugar, na estratégia, ao esmagamento de grãos (sobretudo soja) e à produção de ração, atividades que a tornaram gigante. A representação institucional da OCB/GO, sob comando de Joaquim Guilherme, alcançava assento no conselho deliberativo do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO).
O pano de fundo nacional era de convalescença. Tecnicamente, o País saía da recessão com crescimento de 1,3%, os juros despencavam do patamar máximo e a reforma trabalhista entrava em vigor em novembro, redesenhando as relações de trabalho que as cooperativas, por natureza, sempre organizaram de outro jeito.
Ano 63 – 2018
O Brasil parou nas estradas
Durante onze dias de maio de 2018, o Brasil experimentou o que acontece quando a logística para. A greve dos caminhoneiros esvaziou postos, prateleiras e aeroportos, e deu ao País urbano uma aula involuntária sobre a economia real: tudo que se come, veste e consome depende de alguém que produz e de alguém que transporta.
Para o cooperativismo goiano, a lição tinha gosto de reconhecimento. Organizar produção e escoamento era exatamente o que o coop fazia, desde quando os pioneiros de 1956 discutiam crédito para arroz, feijão e batata. No auge da paralisação, enquanto o frete disparava e a soja parava nos armazéns, as cooperativas operaram como sempre nas crises: amortecendo, estocando, negociando coletivamente o que o produtor isolado não conseguia.
O ano fechou um ciclo silencioso de conhecimento. O Censo do Cooperativismo Goiano 2018 foi a 13ª e última edição publicada da série iniciada em 2006, pelo Programa de Visitas. Foram doze anos de radiografias anuais, feitas de analistas na estrada e dados colhidos in loco, que nenhum outro Estado produzira com tal constância e que a academia usaria por anos como referência.

O retrato final do sudoeste goiano mostrava 26 cooperativas, 53,6 mil cooperados e uma divisão de trabalho que explicava a década. O crédito concentrava 78% de todos os cooperados da região, com 10 mil pessoas jurídicas associadas, enquanto o agropecuário respondia por 72% dos empregos. Um ramo reunia as pessoas; o outro, os postos de trabalho. O patrimônio líquido regional alcançara dois terços no agro, e a movimentação anual chegava a R$ 2,3 bilhões.
No Estado, o sistema somou R$ 6 bilhões de receitas no agropecuário (+6,8%), R$ 1,9 bilhão no crédito e R$ 2,2 bilhões na saúde (+13%) – o conjunto dos ramos chegando nos R$ 10 bilhões anuais. E o ano trouxe a última transição do período Joaquim Guilherme. Em outubro, o Brasil elegeu Jair Bolsonaro para a presidência, e Goiás escolheu Ronaldo Caiado, um produtor rural, para o Palácio das Esmeraldas, encerrando 20 anos de hegemonia de um mesmo grupo político estadual. Para o cooperativismo, a mudança abriria uma interlocução que a década seguinte provaria frutífera, de missões internacionais a gerências dedicadas na máquina pública.
Dentro da casa, encerrava-se também, um ciclo. Joaquim Guilherme chegava ao fim de seus quatro anos com um balanço de consolidação: o Edifício Goiás Cooperativo inaugurado, a ISO renovada e o sistema atravessando a pior recessão da história brasileira com emprego preservado e crédito em expansão. A sucessão, mais uma vez, estava dentro da própria chapa – padrão que a casa repetia desde 1996, trocando de comando sem trocar de rumo. O escolhido seria o vice-presidente engenheiro que, 20 anos antes, conhecera o cooperativismo por acaso, em uma obra de reforma justamente no prédio da OCB/GO.
ANO 64 – 2019
Da obra do prédio à cadeira de presidente
Não é incomum que toda longa história institucional carregue fatos que se cruzam com histórias profissionais distintas e improváveis. No cooperativismo goiano, temos boas. Nos anos 2000, um engenheiro civil formado pela UFG, com carreira na Receita estadual – fora superintendente do Tesouro e da Receita na Secretaria da Fazenda –, teve como primeiro contato com o movimento uma obra de sua empresa: a reforma da sede da OCB/GO.
Pouco depois, convidado por um colega de faculdade, ajudou a fundar uma cooperativa de crédito para engenheiros, o Sicoob Engecred. E, ali, foi “pegando gosto”. Chegou ao conselho, à presidência da cooperativa e a cadeiras no sistema nacional. Até que, em 21 de março de 2019, eleito em chapa única e por unanimidade na assembleia das filiadas, Luís Alberto Pereira assumiu a presidência do Sistema OCB/GO, com a posse em 26 de abril, em casa lotada.
O engenheiro que reformara o prédio assumia a instituição com um simbolismo de época: em mais de seis décadas, era o primeiro presidente vindo do ramo de crédito. A cadeira que fora do agro desde José de Assis Moraes refletia, enfim, o novo desenho do sistema. Na chapa, a simetria: o vice, Astrogildo Gonçalves Peixoto, vinha do leite, pela cooperativa Coapil, de Piracanjuba; a Comigo seguia no conselho. E, no mesmo dia, uma assembleia extraordinária criou o Conselho Ético Consultivo de ex-dirigentes – a memória da casa, institucionalizada, e a experiência valorizada na direção dos projetos estratégicos.

A gestão começou com método de engenheiro. Recém-saído do 15º Congresso Brasileiro de Cooperativismo, Luís Alberto adotou as diretrizes nacionais: governança, representação, mercado, comunicação, inovação e intercooperação, sem vaidade de reinventá-las.
O dirigente saiu a campo para conhecer a base: visitou cooperativas de todos os tamanhos em todas as regiões, somando mais de 17 mil quilômetros rodados, “como daqui à China”, na sua própria medida. Dali, saiu um diagnóstico: o Estado era grande demais para uma sede só, com cooperativas distantes que “se sentiam sozinhas”. Nasceria, então, a marca registrada do ciclo: os núcleos regionais, cinco polos com analistas dedicados, além da região central, para que cooperativas de Porangatu ou de Jataí não dependessem de Goiânia para serem ouvidas. O modelo sairia do papel já no ano seguinte.
O ano também marcou os 20 anos do SESCOOP/GO, a escola que saíra de 95 alunos, em 1999, para mais de meio milhão de pessoas formadas, devolvendo ao palco um velho conhecido desta série. Em setembro, o ex-deputado Luiz Carlos Hauly, relator da reforma tributária na Câmara, lotou o auditório da entidade com 160 contadores, advogados e dirigentes. Na pauta, a velha causa de 1988: o ato cooperativo, previsto na Constituição e jamais regulamentado, cuja blindagem o setor já articulava em emenda pelas mãos do senador Luís Carlos Heinze. A semente da batalha de 2023 estava plantada ali.
Os números do primeiro ano davam a régua de partida da nova gestão: 220 cooperativas registradas, 229 mil cooperados, 12 mil empregos e receitas em torno de R$ 10 bilhões – com o agro somando R$ 7,1 bilhões (+18,8%), o crédito R$ 2,4 bilhões (+28%) e a saúde R$ 2,7 bilhões (+22,5%), todos em forte aceleração.
No plano nacional, o governo aprovava a Reforma da Previdência e a economia engatava recuperação morna de 1,2% – ninguém imaginava que o ano seguinte traria a maior prova de estresse do século.














