Uma boa safra nem sempre significa um bom negócio. O produtor rural pode colher muito milho e, ainda assim, perder margem com preços desfavoráveis, frete caro e crédito oneroso. A indústria precisa de matéria-prima competitiva. O investidor, de segurança para aplicar capital. Como transformar interesses tão diferentes em uma oportunidade comum?
A cadeia do etanol de milho e do DDG mostra um caminho.
Segundo estimativa da Conab para 2025/26, o Brasil deverá produzir 10,17 bilhões de litros de etanol de milho, crescimento de 29,8%. No Centro-Oeste, a expansão estimada é de 17,3%. Goiás, entretanto, apresenta recuo de 2,2% no mesmo período. A diferença revela uma questão estratégica: participar de um mercado em expansão não significa, por si só, capturar todo o seu potencial.
As oportunidades não se limitam ao mercado brasileiro. A Agência Internacional de Energia projeta crescimento de 50% no consumo de energia renovável no transporte até 2030. Já as projeções da OCDE-FAO indicam aumento de 47,9 milhões de toneladas no consumo mundial de carnes ao longo da próxima década.
É nessa conexão que o milho ganha novas possibilidades. Ao produzir etanol, a indústria também gera DDG, coproduto utilizado na alimentação animal. A matéria-prima passa a conectar energia e proteína: o combustível atende ao mercado energético, enquanto o DDG pode abastecer cadeias de aves, suínos e bovinos. Para Goiás, isso abre oportunidades de agregar valor ao milho, desenvolver a indústria de nutrição animal e aproximar diferentes mercados.
O produtor pode participar dessa transformação antes mesmo do plantio. Um contrato de fornecimento de médio ou longo prazo pode definir volumes, critérios de preço, prazos de entrega e condições de pagamento. Com essas referências, torna-se possível planejar a comercialização, negociar financiamento e comparar a rentabilidade esperada com outras alternativas. Mas previsibilidade não é garantia de lucro: preço contratado, custos de produção, cláusulas contratuais, riscos climáticos e capacidade de cumprimento das obrigações continuam determinantes.
A indústria, por sua vez, ganha condições de planejar o abastecimento e avaliar investimentos. O investidor pode encontrar oportunidades nas usinas e em armazenagem, transporte, energia, processamento e financiamento. Essas oportunidades, porém, dependem de demanda comprovada, custos competitivos e projetos economicamente viáveis.
É aqui que entra a infraestrutura econômica da cadeia: estruturas tributárias, financeiras, societárias, contratuais e de governança, habilmente orquestradas, cria um mecanismo para coordenar decisões, distribuir riscos e alinhar interesses. Quando bem estruturada, transforma relações comerciais isoladas em projetos mais competitivos, previsíveis e financiáveis.
A questão estratégica para Goiás é estimular a geração de valor econômico ao redor de cada cadeia em desenvolvimento sem cair na tentação de criar políticas públicas que limitem ou onerem o produtor rural sob o pretexto de incentivar a industrialização.

Murilo Résio de Castro,
assessora empresas, famílias empresárias e é sócio de consultoria tributária e financeira.














