Se pedir para que uma pessoa aleatória descreva fisicamente a profissão que você escolheu, acredita que ela descreveria você?
Já ouvi tantas vezes “você não parece psicóloga” e confesso que, hoje, a frase me intriga mais do que ofende. Afinal, como é que uma psicóloga “parece”? Pelo imaginário coletivo, ela deve ter uns cinquenta anos, óculos na ponta do nariz, cardigã bege, voz baixinha e uma caneca de chá de camomila sempre por perto. Ri pouco. Fala devagar. E, de preferência, responde cada pergunta com outra pergunta. Acredito que, se essa realmente for a referência do coletivo, eu não poderia estar mais longe mesmo. Eu tenho vinte e poucos anos, falo quando preciso, rio alto e prefiro café. Pelo jeito, isso é suficiente para gerar desconfiança.
Não é exclusividade da minha profissão. A gente distribui características para cada um como quem monta um figurino. Advogado tem que ser sério e falar difícil. O médico tem que ser frio e apressado. Engenheiro não pode gostar de poesia. Contador, coitado, é condenado a ser chato. E, se alguém foge do roteiro, a reação imediata é a dúvida: será que é bom mesmo?
A psicologia tem um nome para isso: heurística da representatividade. É o atalho mental que usamos para julgar algo pela semelhança com um modelo que já temos na cabeça. O cérebro gosta de economizar energia, e estereótipos são baratos. O problema é que atalho não é mapa. Ele ajuda a decidir rápido, mas erra com frequência, e erra justamente nas pessoas que não se encaixam no molde. Não estou falando que sou a mais disruptiva das minhas colegas de profissão, longe disso, mas basta o “parecer” para que se crie um mar de conclusões precipitadas e opiniões meia-boca.
No meu caso, o molde diz que quem fala de coisa séria precisa ser sério o tempo todo. E confesso que foram anos com medo de não construir uma boa imagem, medo de não parecer uma boa profissional. Como se humor e profundidade fossem inimigos. O riso, muitas vezes, é o que permite chegar perto do que dói sem sair correndo. Na clínica, uma risada bem colocada pode abrir uma porta que três sessões de silêncio não abriram.
Isso não quer dizer que eu faça piada da dor de ninguém. Quer dizer que leveza e respeito podem ocupar a mesma sala. Dá para ser engraçada no café e cuidadosa na sessão. Dá para postar meme e estudar teoria do apego na mesma tarde. Uma coisa não anula a outra; pelo contrário, uma deixa a outra mais humana.
E isso vale muito além do consultório. Quantos bons profissionais deixam de ser contratados, ouvidos ou promovidos porque “não têm cara” de líder, de gerente, de especialista? Quantas vezes confundimos seriedade com competência e simpatia com falta de preparo? Para quem contrata, essa é uma pergunta cara: o perfil que você procura é o que entrega resultado ou só o que combina com a imagem que você já tinha?
Hoje, quando escuto “você não parece psicóloga” , já respondo com o sorriso e a simpatia de sempre: os óculos e o livro do Freud ficaram no carro. Não posso mudar o mundo, mas eu balanço. Uma grande amiga me ensinou essa frase e, desde então, sigo balançando sempre que posso.

Isadora Teodoro, Psicóloga clínica de adolescentes e jovens adultos, formada pela PUC Goiás e pós-graduanda em Avaliação Psicológica, com atuação na área de Recursos Humanos.














