Por Rafael Vaz
O emprego com carteira assinada continua sendo a principal escolha dos brasileiros na busca por uma vaga, mesmo diante das transformações no mercado de trabalho e do avanço de modelos mais flexíveis. Ao mesmo tempo, a percepção sobre o trabalho atual é majoritariamente positiva: a maior parte dos trabalhadores afirma estar satisfeita com o emprego que possui.
Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 95% dos brasileiros dizem estar satisfeitos com seus empregos, sendo que 70% se consideram muito satisfeitos. O resultado, no entanto, não elimina tensões relevantes. Outros estudos indicam que a insatisfação com salários, a pressão por produtividade e as limitações de crescimento profissional seguem presentes no dia a dia do trabalhador, revelando um cenário mais complexo do que o índice isolado pode sugerir.
A preferência pela estabilidade ajuda a explicar esse comportamento. Segundo a mesma pesquisa, o modelo formal, regido pela CLT, continua sendo o mais desejado por quem busca uma vaga. Mesmo com o avanço de novas formas de trabalho, como atividades por plataformas digitais ou atuação como pessoa jurídica, o vínculo formal ainda aparece como sinônimo de segurança, acesso a direitos e previsibilidade de renda. Entre os jovens, essa escolha é ainda mais evidente, refletindo a busca por estabilidade no início da trajetória profissional.

Para o presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos – Seccional Goiás (ABRH-GO), Milton Marinho, o conceito de satisfação precisa ser interpretado com cuidado. Segundo ele, muitas vezes o indicador está mais relacionado ao fato de estar empregado do que, necessariamente ao nível de realização no trabalho.
“Quando a gente fala de satisfação, muitas vezes está falando da saciedade de estar empregado. Ter um trabalho ainda é, para muitos, o primeiro critério de avaliação”, afirma. Ele destaca que existe uma diferença importante entre estar satisfeito e estar motivado. “O satisfeito está empregado. O motivado quer produzir, crescer, se desenvolver. E isso nem sempre aparece nas pesquisas”, avalia.
Apesar do crescimento de modalidades mais flexíveis, como o trabalho por aplicativos e outras formas de ocupação sem vínculo formal, esses modelos ainda não se consolidaram como principal fonte de renda para a maioria dos brasileiros. Na prática, funcionam mais como complemento do que como alternativa ao emprego tradicional.
Os dados do levantamento da CNI indicam que apenas 30% dos trabalhadores que atuam como motoristas ou entregadores por plataformas digitais consideram essa atividade como a sua principal ocupação. Para a maioria, trata-se de uma renda adicional, utilizada para reforçar o orçamento mensal.
O resultado dialoga com a preferência pelo emprego com carteira assinada e ajuda a explicar por que, mesmo diante da expansão de novas formas de trabalho, o vínculo formal ainda é percebido como base de estabilidade financeira. Mais do que flexibilidade, o trabalhador brasileiro segue priorizando previsibilidade de renda e acesso a direitos.
Milton Marinho também aponta que a preferência pelo modelo formal está relacionada ao perfil das diferentes gerações no mercado. Segundo ele, trabalhadores mais experientes tendem a valorizar estabilidade, enquanto os mais jovens buscam crescimento e propósito.
“A geração Baby Boomer (nascidos entre 1946 e 1964) é muito voltada para a estabilidade. Já as gerações mais novas trabalham com propósito, alinhamento e crescimento”, define.
Entre estabilidade e renda
Essa diferença fica evidente na prática. A administradora Carla Mendes, 34 anos, decidiu voltar ao regime CLT em outubro do ano passado, após três anos atuando como autônoma na área de marketing digital. A mudança, segundo ela, trouxe mais do que estabilidade financeira.
“Eu tinha liberdade, mas também muita instabilidade. Não sabia quanto ia ganhar no mês seguinte. Hoje, tenho salário fixo, benefícios e previsibilidade. Isso muda tudo”, relata. Para Carla, a segurança passou a ter um peso maior na decisão profissional. “A tranquilidade de saber que o salário vai cair na conta todo mês não tem preço. Eu me sinto mais segura para planejar a vida”, reflete.
Se por um lado a satisfação com o emprego é alta, por outro, a remuneração segue como um dos principais pontos de tensão. Dados do IBGE mostram que o rendimento médio do trabalhador brasileiro chegou a R$ 3.208 em 2024. Em Goiás, o valor é de R$ 3.171, o que coloca o estado na 10ª posição no ranking nacional. Embora represente avanço em relação ao ano anterior, o número ainda é considerado insuficiente diante do custo de vida e das expectativas dos trabalhadores.
Outro dado que ajuda a entender o cenário é a baixa movimentação no mercado de trabalho. Apesar do alto índice de satisfação, apenas uma parcela reduzida dos trabalhadores tem buscado novas oportunidades.
Segundo a pesquisa da Confederação Nacional da Indústria, apenas 20% dos brasileiros procuraram outro emprego recentemente. Entre os jovens de 16 a 24 anos, esse percentual sobe para 35%, enquanto, entre trabalhadores com mais de 60 anos, cai para apenas 6%.
O tempo no emprego também influencia diretamente esse comportamento. Entre aqueles com menos de um ano na função, 36,7% buscaram outra vaga. Já entre os que estão há mais de cinco anos no mesmo trabalho, esse número despenca para 9%.
Os dados reforçam a ideia de que a permanência no emprego está menos associada à plena satisfação e mais ligada à cautela ou até à falta de opções mais atrativas.
O peso da economia e das empresas
Para o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Flávio Rassi, essa contradição tem origem no ambiente econômico do País. Segundo ele, a dificuldade de avanço salarial está diretamente ligada ao baixo crescimento econômico e às condições estruturais enfrentadas pelas empresas.

“Ninguém quer pagar pouco. Isso é uma questão macroeconômica, quando o País cresce pouco, as empresas investem menos, e isso impacta diretamente os salários”, afirma. Ele destaca que fatores como juros elevados e dificuldades para expansão dos negócios limitam a capacidade de geração de renda e melhores condições laborais.
Ao mesmo tempo, o comportamento do trabalhador também vem mudando. Estudos recentes indicam que a relação com o trabalho está cada vez mais associada à busca por equilíbrio entre vida pessoal e profissional, além de maior flexibilidade na rotina. Em muitos casos, demonstra-se disposição para trocar parte da remuneração por condições que ofereçam mais autonomia ou qualidade de vida. Ainda assim, quando colocados diante de escolhas mais diretas, como a possibilidade de um salário significativamente maior, a remuneração segue como fator decisivo, evidenciando que o financeiro continua no centro das decisões.
Além das questões econômicas, a indústria enfrenta dificuldades crescentes na formação de mão de obra. Segundo Flávio Rassi, há uma redução na busca espontânea por qualificação profissional. “Antes, as pessoas buscavam se qualificar para ampliar as oportunidades. Hoje, isso diminuiu”, explica.
Ele aponta ainda um desalinhamento entre formação acadêmica e as demandas do mercado. “Houve um foco na educação superior, mas nem sempre com viés técnico de mercado”, diz.
Entre satisfação e frustração
Essa transformação também aparece no ambiente corporativo. Levantamento global da HP aponta que, apesar de uma aparente satisfação, apenas uma parcela reduzida dos trabalhadores se considera de fato realizada. O estudo também indica aumento da pressão no trabalho, crescimento de casos de esgotamento emocional e percepção de que as empresas têm exigido mais dos profissionais nos últimos anos.
Milton Marinho avalia que esse cenário exige uma mudança na forma como as organizações estruturam suas políticas de gestão de pessoas. “Hoje, não basta pensar apenas em salário fixo. É preciso trabalhar com um conjunto de recompensas que envolva benefícios, qualidade de vida e reconhecimento por desempenho”, afirma.
Se há quem encontre segurança e estabilidade, também existem aqueles que vivem o outro lado dessa realidade. Um analista administrativo de 29 anos, que preferiu não se identificar, relata um cenário de frustração constante. “Eu tenho emprego, mas não tenho perspectiva. O salário mal acompanha as despesas e a cobrança só aumenta”, afirma.
Segundo ele, a busca por novas oportunidades não tem resultado em propostas mais atrativas. “A gente fica meio preso. Não está feliz, mas também não consegue sair”. O relato ajuda a compreender por que, mesmo com alto índice de satisfação declarado, a mobilidade no mercado de trabalho ainda é limitada. Para especialistas, esse comportamento pode refletir não apenas contentamento, mas também cautela diante de um cenário em que mudar de emprego nem sempre representa melhora nas condições.
Para Flávio Rassi, é importante lembrar que a pesquisa retrata apenas um momento específico. “O mercado de trabalho não é uma fotografia, é um filme. Esse índice mostra o que acertamos até aqui, mas também o que precisa melhorar”, conclui.













