Ontem, fiz 40 anos.
Para minha surpresa, não acordei mais sábio. Nenhuma revelação diante do espelho. O mundo seguiu funcionando como se nada tivesse acontecido, o que considerei uma pequena falta de consideração, dado o simbolismo da data. Quarenta é um número difícil de completar sem algum tipo de balanço.
Passei boa parte da vida profissional ajudando empresas a responder perguntas sobre identidade, posicionamento e futuro. E descobri, sem procurar, que a maturidade cobra de uma pessoa perguntas parecidas com as que cobra de uma empresa: quem eu me tornei e o que quero levar daqui pra frente?
Toda marca, em algum momento, chega aos 40.
Não necessariamente em idade cronológica. Os 40 aparecem quando já não dá mais para fingir que tudo é começo. Existem clientes, hábitos, cicatrizes e decisões que talvez preferíssemos deixar no passado. É quando a reputação chega à sala de reunião antes do executivo. É quando aparece o “sempre foi assim”.
Empresas jovens ainda podem dizer quase qualquer coisa sobre si mesmas. O passado é curto demais para contradizer o discurso. Com o tempo, isso muda e, depois de alguns anos, uma empresa deixa de ser aquilo que diz e passa a ser aquilo que repetiu. A sua identidade, com o tempo, vira consequência das suas decisões.
Por essa razão, rebranding de empresa madura não deveria ser um trabalho sobre aparência, mas sobre escolhas.
Trocar identidade visual é simples. A parte difícil vem antes: que produto ainda merece existir? Que hábito foi tolerado por tempo demais? O que é legado de verdade e o que é apenas apego travestido de história?
A gente tem medo de mudar. De não ser “consistente ou coerente”, mas não entende que consistência é repetir. Coerência é mudar sem se trair.
Uma empresa coerente pode mudar produto, canal, tecnologia e modelo de negócio e ainda continuar sendo ela mesma, porque aquilo que precisava permanecer nunca foi a forma. É o jeito particular de enxergar o mundo.
Talvez crescer funcione do mesmo jeito.
Por muito tempo, crescer parece um exercício de soma. Mais experiência, mais repertório, mais responsabilidades. Em algum momento, porém, passa a depender também de tirar.
Encerrar o que já cumpriu seu papel. Abandonar certezas que envelheceram mal. Deixar morrer versões de nós mesmos que continuam ocupando espaço.
Aos 40, talvez a pergunta mais interessante seja outra:
De tudo o que construí, o que merece os próximos dez anos?
Não cheguei aos 40 com uma resposta pronta. Cheguei com menos vontade de parecer e mais responsabilidade de ser.
Talvez a maturidade comece exatamente aí.

Ciro Ribeiro Rocha, fundador da Enredo Brand Innovation














