Quase 300 lojas fechadas, milhares de demissões e um pedido de recuperação judicial. O recente colapso das Casas Bahia coloca novamente no centro dos debates entre o empresariado uma questão que vai muito além do varejo, a importância de olhar para os sinais que costumam aparecer nos demonstrativos financeiros muito antes de uma grande crise. Afinal, para quem está de fora, grandes crises parecem acontecer de repente, mas, acompanhando os números de perto, quase nunca é assim.
Bem antes de uma empresa chegar ao ponto de precisar fechar unidades, reduzir operações ou buscar proteção judicial, é possível perceber as margens caindo, despesas crescendo em ritmo maior que a receita, endividamento ou despesas financeiras consumindo uma parcela cada vez maior do resultado e, principalmente, o caixa começando a dar sinais de que a operação já não consegue sustentar o próprio crescimento.
O problema é que faturamento ainda costuma ser confundido com saúde financeira, um grande erro, já que uma empresa pode vender mais e, mesmo assim, estar pior. Pode apresentar crescimento da receita enquanto perde margem, acumula dívidas e precisa recorrer cada vez mais a crédito para manter a operação funcionando. É preciso entender que faturamento não é lucro, lucro não é caixa e crescimento, por si só, não significa sustentabilidade.
É nesse ponto que a contabilidade deixa de ser apenas uma obrigação fiscal e passa a ocupar um papel estratégico. O empresário precisa saber o que os números estão dizendo sobre a saúde do negócio e, principalmente, precisa ter coragem para fazer perguntas difíceis quando eles apontam na direção errada. Quanto custa, de fato, manter a operação funcionando? Quais produtos ou serviços geram margem? Quanto da receita está comprometido com dívidas? O caixa suporta o ritmo atual de despesas? O negócio está crescendo por que é saudável ou por que está se endividando para crescer?
Crises empresariais raramente começam no dia em que a empresa anuncia uma demissão em massa ou fecha as portas, elas começam muito antes, quando pequenos sinais são normalizados, resultados ruins são tratados como temporários e decisões são tomadas olhando apenas para o faturamento. O caso das Casas Bahia pode ser analisado sob diversos aspectos, mas deixa essa importante reflexão para qualquer empresário. O fato é que, mais que balanços de números do que já passou, a contabilidade precisa ajudar o empresário a identificar sinais, olhar para o futuro e enxergar o que pode acontecer.

Ivan Lima, diretor da Acieg, membro do Conat/Fieg e CEO da KBL Contabilidade, sócia-membro do Tax Group














