Leandro Resende
ANO 41 – 1996 – Real traz estabilidade e novos desafios
O ano começou com uma assembleia. Em 9 de janeiro de 1996, as cooperativas goianas devolveram a presidência da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCG, que depois passaria a se chamar OCB/GO) a um nome que conheciam bem: Antonio Chavaglia. O produtor rural de Rio Verde já havia comandado a entidade entre 1990 e 1993 e, desde 1986, presidia a Comigo, a cooperativa que trazia como legado o pioneirismo de ter ampliado a industrialização da soja na região. Na vice-presidência, houve uma troca simétrica de lugares: Antonio Carlos Borges assumia o posto que fora de Chavaglia na chapa anterior. A casa mudava de mãos sem mudar de rumo.
Mas a economia mudara. A OCG que Chavaglia presidiu em seu primeiro mandato encontrava um cenário diferente do que enfrentou três anos antes. A inflação, que devorou lucros e salários a 22% ao mês (no fim de 1993), caminhava para fechar 1996 em apenas um dígito. Vale ressaltar: fechar o ano em um dígito, não o mês.
O real completava dois anos e, com ele, uma novidade incômoda: sem a ciranda financeira para maquiar balanços, cada cooperativa via o seu resultado verdadeiro, realista, e nem todos eram bons. A securitização das dívidas rurais, conquistada no ano anterior, ainda engatinhava nos balcões dos bancos.
Foi nesse cenário de estabilidade que o interior goiano deu mais um sinal de vitalidade. Em 27 de janeiro de 1996, 25 médicos fundaram a Unimed Goianésia, levando o cooperativismo de saúde ao Vale do São Patrício e somando-se à interiorização que já alcançara em outras regiões do Estado. O ramo que nascera em Goiânia em 1978, agora, caminhava com as próprias pernas pelo mapa do Estado.

No plano nacional, o sistema se rearticulava. Em 25 de setembro, foi constituída, em Brasília, a Federação Nacional das Cooperativas (Fenacoop). E, longe dos holofotes, nascia, no Paraná, a ideia que mudaria a história do movimento. Dentro da Ocepar (a OCB paranaense), o seu vice-presidente, João Paulo Koslovski, começava a desenhar a proposta de um serviço nacional de aprendizagem do cooperativismo, financiado pelo próprio sistema. A semente demoraria dois anos para virar lei, mas Goiás já estava atento a cada passo.
No campo internacional, um brasileiro se sentaria, pela primeira vez em 103 anos, na cadeira mais alta do cooperativismo mundial no ano seguinte, 1997. E os goianos tinham motivos para chamá-lo de velho conhecido. Veremos mais adiante.

ANO 42 – 1997 – Brasil alcança lugar de destaque no cooperativismo internacional
Em 16 de outubro de 1997, o cooperativismo mundial quebrou um protocolo de 103 anos. Pela primeira vez desde a fundação da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), em 1895, um não europeu assumia a presidência da entidade que representa centenas de milhões de cooperados no planeta. O eleito era brasileiro: Roberto Rodrigues, engenheiro agrônomo paulista que os goianos conheciam de perto.
Fora ele quem descerrara a fita da sede da OCG na Avenida Jamel Cecílio, em 1988, ao lado de Iris Rezende, e quem prestigiara a aula inaugural da primeira pós-graduação cooperativista de Goiás, em 1989. O homem que subira os degraus da OCB e da ACI Américas chegava ao topo.
A eleição coroava um ano de articulação intensa. Em abril, João Paulo Koslovski e a diretoria da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) levaram à Frente Parlamentar do Cooperativismo (Frencoop), em Brasília, projetos gestados naquele Estado desde 1996. Era a criação de um serviço nacional de aprendizagem do cooperativismo e o lançamento de um programa de revitalização das cooperativas endividadas..
A Frencoop, a mesma que emplacara oito inserções na Constituinte, abraçou a proposta. Faltava um ano para ela virar medida provisória e o presidente da OCG, Antonio Chavaglia, já acompanhava o desenho de Brasília com interesse de quem sabia o que estava em jogo para o cooperativismo e para o setor em Goiás.
A entidade goiana alcançava resultados internos, mas mantinha contatos no Brasil e no exterior. Dois anos depois de participar da conferência de alianças estratégicas em Miami, a OCG enviou representante ao Salão Internacional de Agricultura, na França, a maior vitrine agrícola do mundo, seguindo a cartilha de buscar no exterior o que pudesse encurtar caminhos para as filiadas.
Abria-se um campo novo de missões internacionais, que se tornaria tendência no setor produtivo goiano nas décadas seguintes. Era também o resultado de maior abertura na economia brasileira, iniciada ainda no governo Collor.
O ambiente econômico, porém, cobrou o seu preço no fim do ano. A crise asiática, deflagrada em outubro, obrigou o governo a dobrar os juros para defender o real, encarecendo ainda mais o crédito que o campo já achava caro.














