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Perfil: Elaine Moura

“Recebi proposta de emprego de todos os concorrentes da empresa, mas não aceitei. O que eu mais fazia era contratar serviços de buffet, então, pensei: por que não ter o meu?”

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
junho 27, 2026
em Perfil
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Perfil: Elaine Moura

Fotos: Arquivo pessoal

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Por Rafael Mesquita

O barulho do milho estourando na panela é, para a maioria das pessoas, o prenúncio de um filme no sofá. Para Elaine Moura, no entanto, esse som é a trilha sonora de uma revolução pessoal e profissional. Nascida na periferia de Goiânia, a jornalista e chef de cozinha é a criadora da PopCorn Gourmet, a maior franquia do segmento no País. 

Por trás do faturamento milionário da marca, há uma história de resiliência e o desejo inabalável de acolher. Hoje, como CEO e fundadora do Grupo PopCorn Gourmet, ela lidera um império de 60 unidades, com presença internacional e previsão de faturamento anual de R$ 29 milhões. Mas, para entender a grandiosidade desse estouro, é preciso voltar ao tempo em que o fogo ainda era brando. 

Elaine carrega o empreendedorismo e o amor pela culinária no sangue. Neta de cozinheiros, ela cresceu em um ambiente onde a comida era sinônimo de afeto e partilha. Aos 12 anos, mudou-se do Jardim Novo Mundo, em Goiânia, para um sítio em Senador Canedo. Lá, colhia frutas no quintal de casa para fazer doces e vender aos vizinhos. A mãe, dona Ivone, havia lhe ensinado a cozinhar com apenas seis anos de idade. 

Uma vizinha, cliente assídua de Elaine, a chamou para trabalhar com ela na produção de peças de artesanato. “Com dois empregos, eu tinha uma boa renda para uma menina de família pobre. Meu primeiro salário foi para comprar uma bicicleta, e com o segundo, adquiri uma tv para o meu quarto”, conta. Na época, a casa que morava com a família não era nem pintada, mas, com o esforço do trabalho, Elaine já conseguia comprar as próprias roupas e o material escolar. Ainda sustentou a família durante o período em que o pai, eletricista, esteve doente. “Naquele momento, eu vi que ter o meu próprio dinheiro e independência seria a minha saída”, destaca. 

A vontade de estudar e entrar em uma faculdade fez Elaine retornar a Goiânia com a família aos 15 anos. Se, por um lado, iria crescer com os estudos, por outro, perderia a renda que lhe proporcionava oportunidade de arcar com as próprias despesas. “Comecei a ligar para empresas de organização de eventos, mas por causa da idade, ninguém me contratava”, recorda. Até que, em uma das tentativas, surgiu a oportunidade de trabalhar como secretária. “Mas meu pai (Osvaldo Modesto) colocou a condição de eu só tirar acima de 8 no colégio. Foi a minha salvação, porque estudava em escola pública e consegui ter uma boa formação”, acredita. 

No novo emprego, aprendeu, cresceu, virou produtora de eventos, gerente. Ao final, gerenciava uma equipe de mais de 50 pessoas. Foram sete anos de esforço e sucesso profissional, mas que também vieram acompanhados de tristes lembranças. “Sofri racismo e assédio moral, mas não reclamava com os meus pais, com medo que eles me proibissem de continuar no serviço”, relata. 

O momento difícil e a experiência profissional adquirida a fizeram ter coragem para pedir demissão e decidir montar o próprio negócio. “Recebi proposta de emprego de todos os concorrentes da empresa, mas não aceitei. O que eu mais fazia era contratar serviços de buffet, então, pensei: por que não ter o meu?”, recorda. Em 2000, nascia o aclamado Buffet Accontece, assinando festas de luxo e eventos corporativos de grande porte. 

Entre os clientes, estavam cantores sertanejos, entidades (CDL, Sebrae), empresas (Friboi, Unilever, Grupo Jaime Câmara) e políticos. No Governo do Estado, venceu uma licitação de prestação de serviço da Agência Goiana de Transportes e Obras (Agetop). Contrato que abriu portas nesse mercado. “Na época, havia entrado na faculdade de Jornalismo, após abandonar a de economia. Me formei, mas estava me destacando muito no segmento de buffet. Percebi que aquela seria a minha principal atividade profissional”, relata. 

A ideia para a mudança veio de forma despretensiosa. “O buffet cresceu em volta do meu nome, da minha presença, e isso se tornou um pouco cansativo. Quando percebi que não queria estar em todos os eventos, passei a pensar em produtos”, diz. Como sempre presenteava os seus clientes com doces e gostava de pipoca, resolveu testar receitas autorais da guloseima. “Recebi feedbacks de pessoas dizendo que o produto era único e pensei: “Isso pode virar um negócio, pode escalar”. 

Uma cliente encomendou, outra ficou sabendo e pediu também. Em 2015, foi contratada como chef de cozinha da Casa Cor de Goiás e resolveu testar o novo produto. Montou um quiosque oferecendo a pipoca em cinco sabores: caramelo com flor de sal; lemon pepper; ovomaltine; chocolate branco com leite em pó; e paçoca com especiarias. Foi um sucesso. Começava um novo ciclo: a PopCorn Gourmet.

A decisão de encerrar as atividades do Buffet Accontece ocorreu em 2016, mas a despedida ocorreu em outubro de 2019, cinco meses antes da pandemia. Foi em uma festa de 15 anos. Uma mistura de sentimentos, mas a certeza de que a melhor opção foi a escolhida. “Tenho muita gratidão, criei minha filha com o buffet, tive muitos acessos, conheci muitas pessoas. Consegui deixar um legado nesse ambiente de gastronomia. O fim foi uma grande nostalgia de quase 20 anos de história, mas a certeza de que cumpri a minha missão”, emociona-se. 

Screenshot

A pipoca goiana que conquistou o Brasil

A meta era ambiciosa: transformar a pipoca — um produto altamente perecível e simples — em uma iguaria sofisticada, que mantivesse a crocância perfeita e aromas marcantes por muito mais tempo. Após desenvolver técnicas exclusivas de caramelização e infusão de sabores na pipoca, o sucesso foi imediato. O doce que nasceu para ser apenas uma sobremesa diferenciada no buffet acabou virando o negócio de sua vida.

O primeiro quiosque fixo da PopCorn Gourmet foi no shopping Flamboyant, oportunidade que Elaine não desperdiçou. “O shopping me lançou como produto premium e comecei a vender muito para clientes de condomínios horizontais da região. Percebi que aquele era um bom negócio”, conta. 

No mesmo ano, abriu o segundo quiosque, no Goiânia Shopping. “A partir do sucesso, notei que era possível produzir a pipoca na minha cozinha industrial e escalar para franquias em outras cidades”. Um ano depois, foi inaugurada a primeira unidade franqueada da marca, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, e comandada por um empresário, amigo de Elaine que ficou encantado com a ideia.

Atualmente, são 56 franquias espalhadas por 13 estados brasileiros, além de quatro unidades próprias em Goiânia (Flamboyant, Goiânia Shopping, Carrefour e Shopping Buena Vista). Na cozinha industrial, na na capital goiana, é produzida uma tonelada de pipoca por dia, que é distribuída para todo o País. São mais de 40 receitas. Caramelo com flor de sal; ninho trufado; Ovomaltine; pamonha doce; caramelo com bacon; e churros com doce de leite estão entre as principais. 

Além de Elaine, a sua mãe, Ivone, e a sua filha, Mariana Moura, formam a sociedade do Grupo PopCorn Gourmet. As funções são bem definidas. Elaine atua nas áreas comercial e de produção. Dona Ivone é a gestora administrativa e financeira. “Temos muitas afinidades. Ela fez curso técnico de gestão e está estudando Psicologia aos 69 anos”, orgulha-se.

Já Mariana, 23 anos, é a coordenadora de marketing e atua no departamento de logística. Formada em publicidade e propaganda, a jovem começou a trabalhar na empresa aos 16 anos. “Não entrou aqui como filha da dona, atuou em todas as áreas para aprender: venda, estoque, supervisão”, explica. Ainda trabalhou em duas agências para aprender e voltar pronta tecnicamente. “Foi desafiador desenvolvê-la como líder. Somente no ano passado minha filha aceitou que o negócio é dela de fato. Foi transformador, atualmente adora o que faz e está à frente do nosso projeto de e-commerce”, explica. 

A pipoca goiana que utiliza ingredientes de verdade, com textura, cheiro e experiência completa, em breve estará disponível para clientes de outros Países. Está sendo desenvolvido e será executado o projeto de exportação dos produtos produzidos em Goiás para Estados Unidos, Europa e África. 

Liderança com identidade: “Eu sou porque nós somos”

Como mulher negra, mãe solo e originária da periferia, Elaine sabe que ocupar o topo do mundo dos negócios é um ato de resistência e posicionamento. Ela não se limita a gerir números, ela constrói pontes. Por isso, promove, de forma intencional e deliberada, a diversidade dentro de seu ecossistema empresarial.

Cerca de 80% dos franqueados da rede são mulheres. O time de colaboradores da PopCorn Gourmet é majoritariamente composto por mulheres, pessoas negras e da comunidade LGBTQIAPN+. Longe de encarar o assunto como “modinha” ou obrigação. É o entendimento de quem viveu essas dificuldades . “Eu sofri na pele esse tipo de situação, e vi muitas pessoas que não conseguiam melhorar de cargos nas empresas pela cor. Percebi que poderia dar visibilidade a elas no dia a dia”, acredita. Os próprios colaboradores não aceitam qualquer discriminação dentro do ambiente de trabalho. “Na contratação, já explicamos a política de respeito e diversidade da empresa”, revela.

Elaine é uma das fundadoras do coletivo Entre Raízes, um movimento voltado ao desenvolvimento, mentoria e visibilidade de empreendedoras e executivas pretas. O grupo promove palestras, cursos, contatos profissionais com foco em educação e apoio às mulheres negras. “O coletivo tem meninas que exportam, são médicas, artesãs, confeiteiras”, relata.

Empresária, palestrante, especialista em negócios, franquias, liderança e inovação. Elaine atualmente viaja o Brasil inteiro contando um pouco da sua experiência. A trajetória de quem entendeu que chegou a um momento da vida e da carreira que não basta vencer sozinho. É preciso fazer mais pela comunidade. “Minha trajetória é de resistência. Ao longo dos anos, consegui obter resultados não só financeiros. Busco ampliar o olhar das pessoas. Nossa marca é muito mais do que um alimento gostoso, temos narrativa e a nossa própria história”, orgulha-se. 

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