Rafael Mesquita
Nascido em 25 de junho de 1956, em um rancho às margens do Córrego da Onça, na Fazenda Cubatão, zona rural da Cidade de Goiás, Alziro Zarur construiu a sua paixão pela palavra escrita e falada desde cedo. Formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e buscou especialização internacional, conquistando uma pós-graduação master em Jornalismo para Editores pela prestigiada Universidade de Navarra, na Espanha.
Mais do que cobrir fatos, Alziro sempre defendeu que a profissão exige ética e responsabilidade social. O profissional acredita na relevância da imprensa para a compreensão dos acontecimentos.
“Hoje, são muitos os meios para se obter informação, mas o meio de comunicação profissional ainda é o melhor para confirmar as notícias. A credibilidade é o seu maior patrimônio”, acredita.
Palavra de quem tem 46 anos de profissão, 25 deles no Grupo Jaime Câmara, e conhece muito bem o processo de apuração. Com tantos anos na comunicação, a percepção do poder das notícias falsas nos corações e mentes do público o preocupa. “Na alta produção de desinformação que vivemos hoje, a rede social aceita tudo, sem a devida checagem. Eu sempre oriento as pessoas a consultarem um veículo de comunicação. Todos eles também estão nas redes”, afirma.
Zarur lamenta o fato de que, na interpretação de uma parte do público, todos os comunicadores, profissionais ou não, preocupados ou não com a ética, são equiparados. “Essa é a mentalidade de quem não checa as informações que recebe. Prefiro não usar o termo fake news. É mentira e desinformação mesmo”, defende.
A transformação dos rumos da comunicação faz com que essas mentiras tenham um poder de destruição muito maior. “Atualmente, é muito mais fácil ferir a imagem de um político ou de uma empresa. Antes, eram as fofocas espalhadas no boca a boca, em que a vítima muitas vezes nem ficava sabendo. Hoje, em menos de um minuto a desinformação se espalha e acaba com uma reputação”, avalia. Zarur define o fenômeno como a “guerra de narrativas”.

É a mudança da comunicação contada por quem vive intensamente o jornalismo há mais de quatro décadas e ainda se espanta com as transformações. “É algo impressionante e passa pelo desenvolvimento dos novos tempos e da tecnologia”, explica. Zarur se recorda da surpresa quando, há mais de 40 anos, adquiriu um telex para a sua casa. O equipamento ligava sozinho para receber as notícias que chegavam de toda a parte do mundo. “A moça que trabalhava lá em casa se assustou muito com aquilo”.
O jornalista se lembra, de nos anos 1990, após uma conversa com o ex-diretor e apresentador da TV Anhanguera, Jackson Abrão, ser alertado sobre uma inovação que iria revolucionar o jornalismo: a internet. “Ele me disse que aquilo estava chegando e que iria conectar o mundo”, destaca. Quando os primeiros computadores chegaram à redação da TV, Alziro se recorda de um episódio divertido com o então presidente do Grupo, Jaime Câmara Júnior. “Eu era chefe de redação e ele me perguntou o que eu sabia fazer com aquele novo equipamento. Eu disse: por enquanto, só sentar em frente a ele”, brinca.
Anos depois, foi impossível se distanciar das transformações trazidas pelas novas tecnologias. Com um smartphone e o WhatsApp, é possível produzir conteúdos inimagináveis no passado. “Facilitou tudo, mas dificultou a questão do tempo. Antes, eu saía da redação e não fazia mais nada. Só no outro dia. Eu tinha mais tempo quando era iniciante do que hoje”, afirma. Sócio de uma empresa de assessoria de comunicação, Zarur explica que, com a facilidade trazida pelas novas tecnologias, precisa estar disponível para atender os clientes, mesmo em horários incomuns.
O jornalista ainda avalia que as transformações das últimas décadas impactaram, inclusive, a relação com as fontes profissionais. “Tive grandes oportunidades de conversar com muita gente diferente. Era bem fácil para nós, jornalistas, estarmos em contato, pessoalmente ou por telefone, com um governador, uma autoridade ou até ministros de Estado. As coisas eram mais simples”, afirma.
Ao mesmo tempo, o profissional avalia que não existe mais uma hierarquia bem definida como no passado e que a democracia passou a ser mais abrangente. “Há menos muros entre as pessoas. Com a rede social, uma autoridade pode responder diretamente ao questionamento de um cidadão comum. A força do poder de um governante não acabou, mas o acesso aos meios se expandiu”, acredita.





Início, opção pelo jornalismo e carreira
Na época em que Zarur nasceu, o distrito de Jeroaquara, onde estava localizada a Fazenda Cubatão, pertencia à Cidade de Goiás. Atualmente, a região foi incorporada ao município de Faina.
O pai, Almelindo Manoel Rodrigues, conhecido como seu Melo, era um produtor rural da região. Começou plantando milho, feijão e arroz para subsistência. Zarur e os outros sete irmãos foram criados o ajudando na roça.
Um dos maiores orgulhos na infância foi um elogio do pai à sua dedicação. O pequeno Alziro Zarur tinha apenas dez anos de idade quando o seu Melo lhe deu a responsabilidade de engordar os porcos que criava para vender. Eram cerca de cem animais. Missão dada é missão cumprida. “Um caminhão saiu de Goiânia para comprá-los lá na fazenda, e o meu pai ficou muito satisfeito”, recorda.
Zarur morou na fazenda até os 13 anos, quando se mudou para a Cidade de Goiás com o objetivo de seguir os estudos. Já tinha muita facilidade com a escrita, mesmo sendo alfabetizado em uma escola rural. O incentivo vinha de casa. “Meu pai mal sabia assinar o nome, mas sempre foi muito sábio e incentivava os filhos a estudar para ter uma vida melhor”, emociona-se.
Morou em uma pensão local. Após um período de estudos em uma escola particular, conseguiu a admissão para ingressar no ginásio, em 1970. Dois anos depois, a mãe, dona Maria Cândida Rodrigues, também se mudou para a cidade, acompanhando os filhos mais novos que seguiriam com os estudos. Para ajudar nas despesas, ela vendia ovos e frangos que vinham da fazenda.
Nesse período, Zarur dava os primeiros sinais do interesse pela profissão. “Todo domingo, eu pedia a ela dinheiro para comprar o jornal O Popular”, conta. Primeiramente, ia direto ao segundo caderno ler as crônicas, depois passava para as notícias do esporte, sobretudo sobre o Goiás, clube do coração.
Foi lendo um texto do escritor Carmo Bernardes que se apaixonou de vez pelo jornalismo, profissão que ele mal sabia a existência. O jovem chegou a fazer um teste de aptidão profissional que indicou a área de humanas, sendo a comunicação uma das opções. A família queria que ele cursasse Medicina.
No terceiro ano científico, (hoje, ensino médio) se mudou para Goiânia. O problema é que o pai não tinha condição de sustentá-lo na capital e era preciso conseguir um emprego. Foi trabalhar no almoxarifado da Secretaria de Segurança Pública para ganhar um salário mínimo. “Comprava um prato feito no almoço e deixava metade para a janta, porque não tinha condições”, compartilha.
Com o salário, ainda teria que pagar o Colégio Pré-Universitário, onde estudava. Combinou com o diretor de ganhar 10% de desconto a cada aluno que conseguisse levar para a escola. “Consegui levar sete colegas e pagar só 30% da mensalidade”, explica.
Mesmo com a opinião contrária da família, já estava decidido a fazer a inscrição no curso de Comunicação Social no vestibular da Universidade Federal de Goiás. Mas não contou para ninguém. No dia do resultado, todos ficaram tristes e desligaram o rádio ao não ouvir o nome de Zarur entre os aprovados em Medicina.
Chegou careca em casa na Cidade de Goiás. Os amigos de república na capital tinham raspado a cabeça do jovem após saberem que ele havia sido aprovado em Comunicação Social. A mãe, surpresa, não entendeu. Quando explicou para a família o que havia acontecido foi só felicidade. “Todos ficaram muito felizes e apoiaram a minha decisão”, ressalta.
O primeiro emprego no jornalismo veio quando estava no terceiro ano de faculdade, em 1980. Ele estava de férias na Cidade de Goiás e quando retornou, para fazer a matrícula daquele ano na UFG, recebeu a notícia que havia sido indicado por um professor para uma vaga de emprego no recém-criado jornal Diário da Manhã.
O teste foi bem rápido. “Perguntaram para mim que área eu queria trabalhar e eu logo pensei em esporte, devido a menor concorrência”, recorda. A pauta era uma reportagem de 15 linhas sobre o clube do coração, o Goiás. Os chefes se surpreenderam com o texto do jovem universitário e rapidamente o contrataram.
Em pouco tempo, já estava na editoria de Cidades cobrindo o cotidiano da capital. Em 1982, o jornal entrou em dificuldades financeiras, após um início surpreendente com a contratação de renomados jornalistas de outros estados. “Estávamos sem receber e, em uma sexta-feira, a redação inteira decidiu abandonar o jornal. Levamos até as matérias já escritas”, destaca. Os profissionais achavam que o jornal do outro dia não sairia, mas o proprietário, Batista Custódio, utilizou reportagens de agências de notícias para não deixar o periódico sem circulação.
Acreditando na possibilidade de demissão, o jornalista recebeu pouco depois a ligação da esposa de Batista, Consuelo Nasser, pedindo para que ele retornasse ao Diário. Zarur recebeu os salários atrasados e foi promovido a editor.
Em 1985, as condições financeiras do jornal voltaram a se complicar e ele recebeu uma ligação do diretor de jornalismo da TV Anhanguera, Jackson Abrão, o convidando para ser produtor da principal emissora do Estado. Iniciava-se, ali, uma história de 25 anos de Grupo Jaime Câmara.
Menos de um ano após ser contratado, já se tornou chefe de reportagem, quando auxiliou na contratação de mais equipes de repórteres e produtores. Tempos depois, assumiu a função de chefe de redação e substituía Jackson Abrão na direção da TV, ocasionalmente, durante períodos de férias. Por um tempo em que esteve no Grupo Jaime Câmara, ainda trabalhou concomitante na antiga empresa brasileira de notícias, primeiro como gerente local, depois como correspondente. “Eu tinha três filhos que dependiam de mim e consegui mantê-los bem”, afirma.
A saída da TV, em 2010, foi um baque, mas, ao mesmo tempo, um alívio. “Eu estava com problemas de saúde, pressão alta”, conta. Os últimos momentos na empresa foram marcantes. “Fui ao presidente do Grupo, Jaime Câmara Júnior, me despedir e terminamos todos muito emocionados”, compartilha. Zarur considera que os 25 anos no local foram muito importantes como vitrine e para conectá-lo com potenciais parcerias futuras de trabalho.
Tanto que, logo que deixou a TV, em 2010, foi trabalhar na comunicação da campanha eleitoral de Marconi Perillo ao governo do Estado. Com a vitória, assumiu a assessoria de imprensa do vice-governador, José Eliton. Ainda atuou na editoria de Cidades e na edição geral do jornal O Hoje, e, posteriormente, na diretoria de Comunicação do Tribunal de Justiça de Goiás, durante a gestão de Leobino Chaves na presidência do órgão.
Ao fim desse período, recebe um convite especial: o filho Leandro Coutinho o chama para ser sócio da Times Agência de Ideias, empresa de assessoria de comunicação. Entre os clientes estão políticos, empresas e entidades. Já atuaram em Goiás e outros estados, como: São Paulo, Mato Grosso e Tocantins. Neste ano, uma das metas é trabalhar em campanhas eleitorais, quando irão empregar mais de 20 funcionários, entre jornalistas, fotógrafos, profissionais de marketing e administrativos. “Vamos muito além de uma simples assessoria de imprensa. Gostamos de fazer gestão de crise para garantir que as histórias de cada um de nossos clientes sejam bem contadas”, explica.






Família
Leandro é o único filho que seguiu os caminhos profissionais do pai. Há dez anos, decidiu empreender na área, criando a Times Agência de Ideias. O convite para o pai se tornar sócio na empresa surgiu pouco depois. Mesmo com a sociedade, Zarur destaca que, no trabalho, Leandro é o chefe. “Ele não me dá moleza, e cobra resultados. Meu filho tem uma visão atualizada, é polivalente e estrategista. Eu sou do jornalismo tradicional”, avalia.
Do casamento de 45 anos com Márcia Coutinho Rodrigues, servidora aposentada da Assembleia Legislativa, Zarur ainda tem os filhos Camila Coutinho (arquiteta) e Leonardo Coutinho (psicanalista, vive em Campinas, SP).
O jornalista se recorda o quanto foi difícil para ele o período de criação dos filhos, época em que assumiu cargos importantes da TV Anhanguera. “Não tinha tempo para nada e vivia para o trabalho. Minha esposa era servidora pública e ainda cuidava de três crianças. Eu ajudava na medida do possível”, lamenta. Mesmo assim, destaca que havia uma regra em família. “Eu poderia ter o que fosse no trabalho, mas nunca faltei a uma reunião de pais na escola. Márcia e eu íamos a todas, queríamos saber a situação de cada um no colégio”, orgulha-se.

















