Rafael Mesquita
O cooperativismo e a medicina não são apenas escolhas de carreira para Diogo Mafia; eles estão profundamente enraizados em seu DNA. Unir o cuidado com a saúde humana ao princípio da colaboração mútua é a engrenagem que move sua trajetória profissional e pessoal.
O pai Edson Nunes Vieira é a grande inspiração. O médico é um dos 32 fundadores da Unicred Goiânia, hoje Sicoob UniCentro Br, a maior cooperativa de crédito de Goiás e uma das cinco maiores do Sistema Sicoob no Brasil.
Diogo se recorda de ainda criança participar dos primórdios da cooperativa no início dos 90. A primeira agência era no Setor Aeroporto, em Goiânia, perto da clínica do pai. Ainda bem jovem frequentava com a família os eventos da entidade. Alguns membros fundadores que conheceu na infância hoje estão com ele na cooperativa. “Conheço os valores e a cultura do que se imaginou lá na fundação da instituição, porque vivi isso acompanhando o meu pai”, conta.
Na juventude, nos tempos de ensino médio, uma decisão já estava tomada desde a infância: iria fazer vestibular para medicina e seguir os caminhos do Doutor Edson. Foi o único entre os três filhos do médico a tomar essa decisão. Na preparação para o vestibular, Diogo se recorda de amigos de sala de aula que posteriormente se tornaram personalidades conhecidas da política goiana, entre eles, Sanches da Federal (vereador de Goiânia) e o governador de Goiás, Daniel Vilela.
Passou no vestibular e graduou-se em Medicina pela conceituada Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). A instituição é a mesma em que dois tios-avôs fizeram o curso nas décadas de 1940 e 1950. Além disso, é a Universidade em que se formou o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado.
Algo que também impressionou, Diogo é que os professores eram renomados médicos, muitos deles autores dos livros que eram referência para o curso. Mesmo assim, descobriu que o ambiente profissional no Rio de Janeiro não era bom. “Via aqueles mestres e doutores que nos ensinavam, relatarem que ainda precisavam fazer plantões médicos em regiões muito violentas, como a Baixada Fluminense. Aquilo me assustava”, recorda.
O estudante universitário queria concluir o curso e retornar para Goiânia o mais rápido possível. A oportunidade surgiu antes mesmo da formatura. No último ano de faculdade, conseguiu fazer internato médico em um hospital da capital goiana. Depois, já emendou com a residência no renomado Instituto de Olhos de Goiânia e a especialização em córnea, cirurgias refrativas e catarata.
Nesse período ainda realizou um antigo sonho de infância, passando para o cargo de médico-perito no concurso da polícia científica de Goiás. “Desde criança, eu falava que seria médico e polícia. Consegui atingir os dois objetivos”, orgulha-se.
Desde 2020, com a fusão da sua antiga clínica, tornou-se sócio do VER Hospital de Olhos. Mas devido às atividades no Sicoob UniCentro Br tem atendido apenas duas vezes por semana e está temporariamente licenciado da polícia-científica de Goiás.




A Virada de Chave: O Cooperativismo como Extensão do Cuidado
Como um médico focado no bem-estar humano vai parar na presidência de uma das maiores instituições financeiras do estado? Para Diogo, a resposta é simples: o cooperativismo e a medicina compartilham do mesmo DNA — o cuidado com as pessoas.
O início no Sicoob UniCentro Br aconteceu em 2007, quando retornou para Goiânia e se tornou um cooperado. Em 2011, recebeu o convite para disputar o cargo de conselheiro fiscal. “Falei que não estava preparado, porque fiz faculdade de medicina e não sabia nada de gestão”, afirma. Mas foi convencido de que era possível aprender. Aceitou o convite e foi eleito. “A partir do momento que assumi cargos na instituição, fiz quatro cursos fora do Brasil. O cooperativismo tem um braço educacional muito forte”, explica. Ainda ocupou o cargo de conselho de administração por quatro anos. Em 2020, assumiu uma diretoria da cooperativa: a de relacionamento e inovação.
Após mais de uma década contribuindo para a expansão da cooperativa, Diogo alcançou um marco histórico. Em outubro de 2023, aos 39 anos, foi empossado por unanimidade como Diretor-Presidente do Sicoob UniCentro Br. O momento foi emblemático: ele se tornou o primeiro presidente não-fundador a assumir o comando na história da instituição, simbolizando uma madura transição geracional. “Quando me tornei cooperado, nunca havia almejado cargos dentro do Sicoob. Temos a felicidade de fazer a sucessão de geração. É uma honra para mim”, destaca.
Sob sua gestão, o dinheiro deixa de ser um fim e passa a ser um meio. Diogo defende incansavelmente o modelo cooperativista, lembrando que, ali, as pessoas não são meros clientes, mas donas do negócio. As taxas mais justas e a divisão das sobras financeiras nada mais são do que a aplicação prática da solidariedade humana na economia.
Segundo o Diretor-Presidente, as cooperativas são a mola propulsora da economia brasileira e fundamentais para a economia nacional. Em Goiás, não é diferente. “São a maior força econômica do Estado. É só perceber o que se tornou a Comigo, que é a maior empresa em faturamento de Goiás”, explica
Ele especifica a situação das cooperativas de crédito no país e destaca que o Brasil perdeu muito tempo entre os anos 30 e a nova constituição. Segundo Mafia, foi um período de muita dificuldade para a abertura dessas instituições. “Mesmo assim, em meados de 2020 tínhamos 4% do mercado financeiro nacional e hoje estamos próximos dos 10%. É o início da desconcentração desse mercado.”, comemora. Mas é possível crescer mais. Diogo cita países como a França que ultrapassa 60% ou os Estados Unidos com quase 40% de participação.
Se por um lado os altos juros da economia brasileira parecem positivos para as cooperativas de crédito, a análise mais detalhada mostra é preciso um equilíbrio maior. “As taxas favorecem o investimento em renda fixa, mas isso é só um braço da nossa atividade. Precisamos também emprestar dinheiro para quem quer fazer a economia girar de fato. Nesse sentido, os juros de dois dígitos, como os atuais, não são saudáveis”, avalia.
Dessa forma, gerir uma cooperativa como o Sicoob UniCentro Br se torna ainda mais desafiador. “Mais de 50% dos adultos do país estão inadimplentes. O agronegócio vive um momento terrível. Na economia, um depende do outro. Assim, a situação atinge também as cooperativas de crédito”, acredita.
O Sicoob UniCentro Br administra mais de R$10 bilhões em ativos de mais de 130 mil cooperados de todas as unidades da federação. São 85 agências espalhadas por Goiás, São Paulo, Tocantins, Distrito Federal e Minas Gerais. Praticamente metade das agências está em São Paulo. “Hoje estamos até na Faria Lima, mas a nossa sede será sempre aqui em Goiás. É o que atende o nosso propósito desde o início da cooperativa”, explica.





Família, lazer e outras atividades
A essência do cooperativismo — baseada na ajuda mútua, na responsabilidade compartilhada e no bem-estar coletivo — espelha e reforça os laços de união presentes no núcleo familiar. É nessa lógica que a família de Diogo está diretamente inserida na vida da cooperativa. “Meus filhos adoram os eventos aqui e estão sempre presentes. Aprendi com um ex-presidente da entidade que a família é parte fundamental da nossa instituição”, acredita.
O filho mais velho, Lucca, 8 anos, já tem uma visão empreendedora. “Esses dias, montou até uma empresa fictícia com os colegas em sala de aula”, orgulha-se. Já a caçula, Helena, 6 anos, é mais voltada para as artes, mas diz que também quer seguir os passos do pai na medicina. “Se for por vocação e vontade, é válido, mas é preciso entender a saturação desse mercado que forma cada vez mais profissionais, o que deve provocar uma queda significativa da remuneração”, analisa.
O casal é fruto do casamento de 13 anos com a empresária Cris Nogueira. Profissional formada em marketing, ela atualmente possui uma rede de minimercados autônomos e de autoatendimento que funciona em condomínios.
Além dos churrascos em casa, a família sempre está junta nas viagens. Momentos de lazer que fazem toda a diferença. “Já levamos as crianças para os Estados Unidos, Europa, Gramado e praias pelo Brasil. Às vezes, nos acompanham até para viagens a negócios”, conta.
Um dos principais hobbies é a pescaria no Rio Araguaia. Com os amigos, criaram um grupo chamado Pescaria Pais e Filhos. “Cada canoa tem que ter uma criança pra ajudar na pescaria. Na nossa vamos meu pai, meu filho e eu”, relata.
Além de representar a cooperativa em um fundo de investimento imobiliário, Diogo ainda integra o conselho deliberativo do Goiás Esporte Clube. Uma paixão compartilhada pelo filho. “O Lucca é apaixonado pelo Goiás. Vai comigo aos jogos e torce junto”, afirma.
O amor ao futebol fez com que Mafia reunisse uma turma que vai para todas as Copas do Mundo, em qualquer lugar do planeta, desde 2014. “Estávamos até no 7 a 1 para a Alemanha contra o Brasil. No último mundial, nos Estados Unidos, levei meu filho pela primeira vez. Ele ficou encantado e fez amizade com crianças de outros países”, fala o pai orgulhoso.














