Leandro Resende
A Leitura Estratégica chegou em um momento curioso da minha vida profissional. Eu tinha acabado de deixar O Popular, em 2015, onde entrei em 2001, e era, então, um dos anos mais duros da economia recente: empresas fechando, demissões em alta, o governo Dilma em crise, começando a caminhar para um impeachment (ocorrido em agosto de 2016).
Neste momento, saio do jornal com um projeto pronto de revista, desenhado página por página. Não começava do zero. Já tinha um site de negócios, o Goiás Empresas, que depois virou Goiânia Empresas e, mais tarde, o STG News. Faltava a revista. Mostrei o projeto a uns dez parceiros, nomes que eu queria ter como conselheiro. A maioria foi sincero: não era o momento, não ia vender, era arriscado demais.
Não quis esperar. A primeira porta em que bati foi a de José Alves Filho, presidente do Grupo José Alves, um dos nomes mais respeitados entre as lideranças empresariais goianas. Tinha uma questão afetiva, o Supermercado Alô Brasil era, em minha memória de infância, o primeiro contato real que lembrava de empresa, onde ir às compras era como hoje os mais novos vão ao shopping. Enfim, voltemos à história da LE.
Mostrei a revista, Zé Alves gostou e topou contar a história do grupo. A reunião que seria de 30 minutos, durou uma hora e meia – lembro-me da secretária toda ansiosa pois a fila de pessoas esperando, e agendados para falar como Zé, só crescia.
No fim da conversa, perguntou como eu ia pagar aquilo. Respondi que, com a qualidade do material e a distribuição, a edição custaria R$ 40 mil. “Já vendeu tudo?” Não. “Se precisar, eu compro duas páginas.” Agradeci e disse que talvez não fosse necessário.
Foi. Na reta final, faltou dinheiro para rodar a primeira edição. Liguei: “Zé, vou aceitar aquelas duas páginas.” E a revista saiu. Aquela primeira edição puxou todas as outras. Quem leu gostou, e quem gostou queria estar na próxima.

Não tínhamos experiência em revista comercial. Tínhamos um time muito bom na redação (jornalismo, diagramação e fotos) — e isso nunca mudou. Em cem edições, mais de duas dezenas de profissionais de primeira passaram por aqui, e a cada um deles devo parte desta história. Agradeço sempre a paciência em receber de acordo com o que ia recebendo. Aos poucos, a revista ganhou identidade: depois da capa com José Alves, passamos a apostar mais nos temas do que nos rostos.
Imprimimos até a edição #9. Veio a pandemia e embaralhou a distribuição. Fizemos edições online e, quando o pior passou, voltamos ao mercado para retomar o papel. A resposta de leitores e patrocinadores me surpreendeu: não voltem.

No digital, eles mesmos distribuíam a revista, mandavam para clientes, alcançavam outros Estados. O impresso, muitas vezes, envelhecia sobre a mesa da recepção. Ficamos no digital. Confesso que doeu: minha formação sempre foi de papel. Mas quem não se ajusta ao mercado sai dele.
A edição #14 me encontrou desanimado. A revista saía a cada seis, oito, às vezes nove meses. Sem ritmo, o projeto perdia a alma. Tomei então uma decisão estratégica – e, para muitos, suicida: a partir da edição seguinte, a Leitura Estratégica seria semanal. Pela segunda vez me chamaram de louco. Fazer revista na crise de 2015 era loucura; fazer uma revista semanal de 50 páginas, com perfis, edição e diagramação de gráfica, em pleno 2025, concorrendo com milhares de outros conteúdos, seria outra. Sugeriram adiar, fazer quinzenal, mensal. Era um salto no escuro. Saltamos.
Em março de 2025 começamos o ciclo semanal. Foram 86 semanas seguidas, sem interrupção, até esta edição 100. Uma vitória de muitos, mas principalmente, do jornalismo e dos leitores. Agradeço sempre.
Empresas de todos os setores, (des)uni-vos!
O jornalismo brasileiro aprendeu a olhar para a empresa de um único ângulo: o do problema. O empresário vira notícia quando erra, quando falha com o cliente, quando entra em atrito com o governo ou com a Justiça. No restante do tempo, fica fora da pauta – ou quando paga, entra como publieditorial. Não é uma questão goiana, nem desta ou daquela redação. É a lógica do jornalismo generalista, que vive de audiência e se ocupa, com razão, das questões sociais que o país não resolveu: o hospital lotado, o asfalto que não chega, a segurança, o futebol, a novela, a fofoca, a festa, a prisão. Empresa, nessa equação, não dá audiência.
A Leitura Estratégica nasceu para fazer o caminho inverso. Colocar no centro da página quem gera o emprego, paga o imposto e assume o risco – e discutir com ele, de igual para igual, os temas que de fato tiram o sono de quem dirige uma empresa: a burocracia, a falta de mão de obra qualificada, a carga tributária abusiva e o emaranhado das regras, a tecnologia que muda o negócio de um ano para o outro, o crédito, a logística, a sucessão. Assuntos espinhosos, que pedem tempo, contexto e fontes qualificadas. Assuntos que raramente cabem em um título de rede social.
Para isso, construímos uma divisão de trabalho. O STG News, nosso portal de negócios, publica 40 notícias por semana, de segunda a sexta – cerca de 160 matérias por mês. É o factual das empresas: lançamentos, investimentos, carreiras, eventos, gargalos, produtos, serviços e negócios. A Leitura Estratégica vai aonde o STG News não chega. Aprofunda, debate, compara, provoca. E registra.

Teremos, falo mais ao final, sobre a Inteligência STG, uma plataforma de análise de dados e negócios (e não de jornalismo) que lanço nos próximos 30 dias, que fecha o ciclo: o STG noticia; a Leitura, comenta; e o I.STG, analisa.
É no registro que está o lado mais humano da revista.
Nossos perfis ocupam de seis a dez páginas. Ali estão fundadores e herdeiros, pioneiros e novos empreendedores, executivos que nunca tiveram tanto espaço para falar de si – da origem, da família, dos tropeços, dos objetivos e dos sonhos. Muitos se emocionam ao ver a própria trajetória “impressa”. Não por vaidade, mas porque, pela primeira vez, alguém se interessou em contar a história inteira, e não apenas o dia em que deu errado. É assim que a revista cumpre o seu propósito: colocar o empreendedor no lugar que lhe cabe, o de quem faz.
Há histórias de grande relevância que simplesmente não existiriam, para o público, se não fossem estas páginas. E é impossível não pensar nas centenas, talvez milhares, que se perderam com seus donos, sem registro e sem homenagem. Cada perfil que publicamos é uma dessas histórias que não vai se perder.
Fazer isso toda semana tem um peso. Uma revista de fôlego, reconhecida por quem lê como produto qualificado, feita por uma equipe que sempre esteve entre as melhores do mercado – e que precisa manter o ritmo semanal sem um apoio publicitário contínuo.
Houve meses em que o caixa não fechou. Não hesitamos em continuar. Quem conhece o mercado de revistas sabe que essa é uma realidade frequente, ainda mais num momento em que o excesso de informação ruim distrai o executivo e o empresário daquilo que de fato importa para o negócio.
Seguimos porque acreditamos que informação estratégica não é luxo. É ferramenta de gestão. E porque o setor produtivo goiano, que transformou um estado que já esteve entre os últimos do país numa das economias mais dinâmicas do Brasil, merece um veículo à altura da sua história.

O redesenho do fluxo da revista
Chegar à edição 100 não é chegar ao fim de nada. É chegar ao momento de redesenhar. Depois de 86 semanas seguidas, aprendi uma coisa que nenhum planejamento me ensinaria: uma revista de mais de 50 páginas no fim de semana é admirada por todos, mas lida por inteiro por poucos. O executivo não tem esse tempo. Folheia, salva, encaminha, promete voltar. Não era um problema de qualidade. Era um problema de tamanho. E a resposta não é fazer menos, é organizar melhor.
A partir da edição 101, a LEITURA ESTRATÉGICA continua semanal, mas em duas frentes que se alternam. Numa semana, a revista de matérias e perfis: a reportagem de capa, as trajetórias de quem empreende, as notas de mercado, o editorial – com menos páginas e mais foco nos temas centrais. Na semana seguinte, a revista de pensamento e opinião econômica-empresarial, reunindo os articulistas e os especialistas que hoje dividem espaço com o restante da edição.
A mudança valoriza as duas pontas. A reportagem ganha porque amplia a apuração do repórter, dando o que se pede e quase nunca tem: prazo. Com quinze dias para apurar e produzir, a matéria fica mais aprofundada, mais checada, mais bem contada.
A opinião, por sua vez, deixa de ser um caderno no fim da revista para ocupar uma edição inteira, com texto mais longo, organização por temas – tributos, gestão, mercado, inovação – e um projeto gráfico próprio, pensado para a leitura de quem quer refletir, e não apenas se informar.
Para os articulistas, é uma mudança de patamar. Saem de uma página encaixada entre uma reportagem e um anúncio e passam a dividir uma edição dedicada ao pensamento, ao lado de pares, com tempo para lapidar o texto – com nome e tema na capa.
Para o leitor, é a chance de encontrar, num mesmo lugar, as melhores cabeças da região discutindo os temas que pesam no caixa e na estratégia das empresas. Para nós, é a confirmação de que opinião qualificada não é complemento. É conteúdo central.
Mas, sempre com a mesma assinatura: Leitura Estratégica. Mesma marca, mesmo compromisso, a mesma equipe por trás. Muda a forma de entregar. Quem lê toda semana continuará recebendo a revista do mesmo jeito, no mesmo formato de flip, com a mesma possibilidade de folhear, baixar e encaminhar.
Outro detalhe que muda, a pedido dos leitores, é o dia. A revista agora troca o sábado pelo domingo. O leitor goiano tem uma relação muito antiga com o domingo e a notícia, construída pelos jornais diários, e aproveitar essa cultura é estratégico. No sábado, como foi até aqui, a desaceleração da semana ainda estava se dando. O domingo venceu.
A edição de opinião terá identidade visual distinta, para que o leitor perceba, já na capa, que tipo de leitura tem em mãos. O que queremos com isso é transformar a revista num centro de debates. Um lugar onde as ideias que movem – ou travam – os negócios do Centro-Oeste sejam discutidas com profundidade, por quem entende do assunto, com espaço para divergir. Hoje, boa parte do debate econômico da região acontece em conversas privadas, em almoços, em grupos fechados. Queremos trazer essa conversa para a página, com assinatura e responsabilidade.
A nova cara da Leitura Estratégica é a consolidação de um modelo que levou dez anos para amadurecer. Primeiro aprendemos a fazer uma revista. Depois, a fazê-la toda semana. Agora, a fazê-la do tamanho certo para quem a lê.

Inteligência STG, o degrau que faltava
O STG News responde à pergunta “o que aconteceu”. A Leitura Estratégica responde “o que isso significa” e “quem fez”. Faltava responder “o que fazer”. É para isso que lançaremos, nas próximas semanas, a Inteligência STG, a terceira fase de um modelo que começou lá atrás, com um site de notícias de negócios.
O principal detalhe é que a Inteligência STG não é jornalismo. É uma comunidade regional de análise de negócios e dados empresariais. Reúne dados, estudos de caso e leituras de cenário sobre a economia de todo Centro-Oeste para quem precisa tomar decisões antes dos outros.
Relatórios serão publicados às terças e sextas, com cruzamentos que não cabem no noticiário, que você jamais viu e com atualização de números que podem melhorar ou mudar suas decisões e planejamento estratégico.
Quem participa assina, mas não é assinante. É membro. Aliás, os 1.500 primeiros que aderirem terão números ‘eternos’ e serão membros-fundadores (com alguns benefícios vitalícios). A diferença não é de vocabulário: é de relação. A comunidade só existe para os seus integrantes, que além de buscar benefícios e parcerias, promove encontros com vagas limitadas, sempre com exclusividade a quem faz parte. É uma comunidade de decisores do Centro-Oeste que querem ler a economia regional com mais precisão e menos achômetro.
Funciona com regras claras. Não manifesta preferência política: a análise não tem torcida. Propaganda? Vetada em qualquer situação. Não se vende banner, propaganda nem publieditorial na I.STG.
Outro detalhe: não espere ver nossos “papers” rodando em grupos de WhatsApp ou rede social. Os estudos não circulam fora do clube, e a identidade de quem participa é preservada – zero bate-papo ou puxar conversa. A Leitura Estratégica, como fundadora, pode citar e repercutir as análises, mas nunca reproduzi-las por inteiro. Foi a forma que encontramos de proteger o valor do que o membro recebe sem fechar a porta do debate público.
É a mesma convicção que nos trouxe até aqui, levada um passo adiante. Se a revista existe para dar ao empresário o lugar que ele merece na história, a Inteligência STG existe para dar a ele exclusividade e ferramentas para escrever os próximos capítulos.
Cem edições depois, a casa agora terá três andares. E cada um deles conversa com quem decide. Boa leitura sempre.













