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Início Perfil

Perfil: Cileide Alves

“Vivi no O Popular o auge do jornalismo impresso, quando os jornais tiveram a maior quantidade de leitores da história, e nos tornamos um veículo relevante na vida do cidadão comum”

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
junho 20, 2026
em Perfil
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Perfil: Cileide Alves

Fotos: Arquivo pessoal

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 Por Rafael Mesquita

Com mais de 40 anos de carreira, a jornalista Cileide Alves consolidou o seu nome na imprensa de Goiás como sinônimo de apuração rigorosa e jornalismo investigativo de excelência. Graduada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) em 1984, a sua trajetória é marcada pela busca incessante pela veracidade dos fatos, transformando a apuração em sua principal ferramenta de credibilidade.

Em um universo midiático muitas vezes acelerado pela instantaneidade, Cileide Alves destaca-se por defender que a informação precisa ser investigada e contextualizada antes de ser publicada. Sua trajetória é um manual de que a credibilidade de um jornalista é construída, dia após dia, na disciplina da apuração.

Nascida em Morrinhos, no interior de Goiás, em 1961, Cileide e as três irmãs foram criadas pela mãe, que se separou do marido. Dinorá Cunha Alves foi a grande inspiração para as filhas ao demonstrar o poder da força feminina, já naquela época. “Ela queria que a gente estudasse e crescesse. Tanto que, quando fiz 16 anos, me mandou para Goiânia com uma irmã para fazermos o segundo grau em um dos melhores colégios da cidade”, recorda. 

O interesse pelo jornalismo Cileide demonstrava ainda na infância, quando nas brincadeiras já fingia que era repórter em Brasília. Anos depois, ao ter que decidir qual curso fazer, teve dúvida entre as ciências exatas e sociais. “Eu era muito estudiosa, por isso pensei em Engenharia, mas, na hora da inscrição, optei pelo Jornalismo”, afirma. O gosto pela leitura também contribuiu. Quando criança, nas férias, tinha como uma das obrigações determinadas por dona Dinorá ler clássicos da literatura, de autores como José de Alencar, Júlio Verne e Machado de Assis. 

Em 1980, Cileide entrou para o curso de jornalismo, um dos mais concorridos da UFG na época. Foi a décima sexta colocada, entre 50 aprovados. Mas o início foi um período difícil para a jovem. “Cheguei na universidade e fiquei muito perdida. Não conhecia o País, era o final da ditadura e, até então, eu não sabia que aquilo existia”, conta. Na escola, ninguém comentava sobre o assunto. Em casa também não. “As pessoas tinham medo de falar sobre a repressão, desaparecidos políticos e tortura”, destaca. 

Anos antes, Cileide conheceu o movimento estudantil em manifestações de estudantes secundaristas no Colégio Carlos Chagas. “Na época, fomos até Brasília de ônibus para defender a anistia”, relata. Mas foi na faculdade que a futura jornalista entrou para valer na política estudantil. Em 1981, foi eleita presidente do Centro Acadêmico do curso. Notícia que saiu até em jornais locais. “Naquela época, o movimento nas escolas e universidades era muito relevante. Vivíamos o final da ditadura e a luta era pela redemocratização do País”, explica. 

O primeiro trabalho em um jornal foi a convite de um amigo, Paulo Ramos, e ocorreu pouco antes de se formar. O periódico se chamava Top News. A princípio, foi contratada para organizar o arquivo de fotos, mas logo começou a escrever textos. Foi quando a jornalista passou a ouvir histórias de bastidores da política que a intrigavam. “Políticos frequentavam a redação, aprendi a conhecer a política através do backstage”, recorda. 

A redemocratização do País foi um período em que muitos pequenos jornais, antes financiados apenas pelos governos, faliram. Esse cenário foi o fim para periódicos como o Top News. Novas oportunidades surgiram para Cileide, entre elas trabalhar como freelancer em Goiânia para conceituados veículos do jornalismo brasileiro, como o Correio Braziliense e o Jornal do Brasil. 

Em 1986, o convite para se tornar repórter da TV Brasil Central significou estar presente em uma das maiores coberturas da carreira, o acidente com o césio-137, em setembro de 1987. Ela se lembra dos desdobramentos políticos. “O caso arrebentou o governo do Henrique Santillo, contribuiu para que a gestão não tivesse sucesso. O Estado teve que gastar um dinheiro que não tinha, sem o apoio federal”, avalia. 

Além do lado político, é impossível negar o quanto essa cobertura foi emocionalmente difícil de fazer. “Eu não me lembro de um fato mais marcante na minha carreira do que o velório e sepultamento de Maria Gabriela e Leide das Neves”, afirma. Trata-se de tia e sobrinha (6 anos), as primeiras vítimas do acidente. Os caixões com os corpos eram forrados de chumbo, por causa da radiação. Ao chegar ao Cemitério Parque, em Goiânia, para o sepultamento, uma cena triste e chocante. “Com medo de contaminar o local, moradores da região, com o apoio de políticos, pegavam cruzes de concreto e jogavam contra os caixões, com os parentes das vítimas ao lado, chorando. É algo que nunca vou esquecer na minha vida”, emociona-se.

A jornalista ainda viveu uma preocupação na vida pessoal com essa cobertura. Em uma manhã, Cileide fez uma reportagem perto dos contêineres em que estavam os objetos contaminados com o césio-137. À tarde, ela recebeu do médico a notícia de que estava grávida. “Fiquei com muito medo e fui à sede da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) fazer o exame de corpo inteiro”, recorda. Para alívio geral, Cileide não havia sido contaminada e a filha Bárbara nasceu com muita saúde meses depois. 

O Popular: um marco na carreira

A primeira vez que integrou a equipe do jornal O Popular foi em 1985, quando foi contratada para substituir outro repórter que estava de férias. Na ocasião, fez matérias sobre as eleições daquele ano, que elegeram Daniel Antônio como prefeito de Goiânia. 

Mas foi apenas em agosto de 1988 que Cileide Alves foi contratada em definitivo. Ser uma repórter do caderno de política do maior jornal do Estado era um desafio enorme naqueles tempos. “Havia poucas mulheres na nossa editoria, quando os políticos ligavam na redação, achavam que éramos secretárias dos editores”, recorda. 

A jornalista transformou a análise política — um ambiente historicamente frio e dominado por homens — em um espaço de conexão com a realidade social. “Sou de uma geração que pegou a virada do impresso com jornalismo oficial para a renovação do jornalismo brasileiro pós ditadura, no final dos anos 80. Foi um momento de reaproximação dos veículos com o seu público, sem a censura”, conta. 

Em 2010, assumiu o cargo de editora-chefe. “Vivi no O Popular o auge do jornalismo impresso, quando os jornais tiveram a maior quantidade de leitores da história, e nos tornamos um veículo relevante na vida do cidadão comum”, explica. Ela ainda vivenciou diversas transformações, como a mudança tecnológica que gerou jornais coloridos, com mais fotos e imagens, ou, anos depois, a possibilidade de maior inserção de arte, infográficos e ilustrações.

Cileide recorda-se de acompanhar o impacto da revolução tecnológica no jornalismo impresso. “A partir de 2005, percebemos que as coisas iriam mudar. Vários jornais migraram para a internet e depois para as redes sociais. Assim, chegamos ao jornalismo de hoje”, destaca.

Mesmo com críticas à profissão atualmente, não se considera saudosista. “Usufruo da tecnologia para ter meu banco de dados, comunicar com as minhas fontes. “Não tenho saudades do passado, de quando precisava ligar para dez telefones fixos só para achar um entrevistado”, brinca. Mesmo assim, questiona como a tecnologia vem sendo empregada na profissão. “Normalmente, ela não está a serviço do jornalismo. Todos, inclusive os influencers, se acham jornalistas nas redes sociais e a sociedade acredita que eles sejam bem-informados. O problema é que essas pessoas não têm a preocupação com a qualidade da informação que é transmitida”, avalia. 

O compromisso com a informação sempre foi a pauta principal do seu trabalho. “Quantas vezes deixei de dar uma notícia para não correr o risco de errar?”, destaca. É preciso seguir à risca um dos princípios básicos do jornalismo, que é ouvir o outro lado antes de publicar algo. “Mesmo emitindo opinião, sou jornalista de apuração, sempre ouço opiniões diversas para formar a minha”, explica. 

Coerente com o que acredita, Cileide defende a regulamentação das redes sociais. “A imprensa sempre teve regras, por que as redes não podem ter? Se eu publico uma informação errada, o veículo que eu trabalho é responsabilizado”, argumenta. O entendimento é de que é necessário uma melhor formação do próprio leitor. “É preciso entender o mecanismo de funcionamento das redes sociais para separar o joio do trigo e melhorarmos o jornalismo”, afirma. 

Relação com políticos e grandes coberturas

O olhar atento de uma das principais vozes do jornalismo político de Goiás, trouxe o conhecimento profundo do processo de formação dos políticos goianos. A experiência adquirida pela longa carreira a fez ter uma melhor dimensão histórica dos fatos. Por isso, Cileide Alves sabe em qual contexto estão inseridas as peças do tabuleiro político. 

Nos anos 1980, quando começou, o cenário se dividia entre os políticos que já estavam presentes antes da redemocratização e os que entraram logo depois. Nesse contexto, ela conviveu com nomes de destaque em Goiás, como Henrique Santillo, Maguito Vilela, Íris Rezende e Ronaldo Caiado. “O Caiado é o último dessa geração”, analisa. 

Mas foi com Iris Rezende que Cileide compreendeu que a política do presente não se explica sem as marcas do passado. Durante o curso de mestrado pela UFG, escreveu o livro-reportagem “Iris Rezende – De Líder Estudantil a Governador (1958-1983)”, em que humaniza o mito político e revela facetas desconhecidas do homem por trás do poder. Na obra, a jornalista consegue reconstruir a própria história política goiana da segunda metade do século 20. “Este livro me ajudou a ser uma jornalista com uma visão mais ampla, abriu meu horizonte”, conta. 

Na política nacional, entrevistou os principais figurões ao longo dos últimos 40 anos. Ulysses Guimarães, José Sarney, Lula, FHC, Dilma e Bolsonaro. Com este, teve uma experiência que ela considera um desafio profissional marcante. “Percebi que o Bolsonaro (na época, candidato a presidente)  conduzia a entrevista da maneira que queria, com as próprias narrativas dos fatos, e eu não tinha o que fazer. Ele me ensinou que a partir dali, o jornalismo teria que aprender a entrevistar políticos com esse perfil, que antes não era comum entre os principais nomes do cenário nacional”, explica.  

Ela critica o nível do parlamento atualmente no Brasil. “As redes sociais empobreceram o debate político, os parlamentares querem, muitas vezes, fazer política para os seguidores e ter engajamento, sem a devida preocupação com os temas realmente relevantes para a sociedade”, avalia. 

Os anos de carreira no O Popular também proporcionaram coberturas marcantes, como uma das capas do jornal em 2010. “Publicamos 23 molduras sem fotos, simbolizando a quantidade de desaparecidos em Goiás. São pessoas que haviam sido vistas pela última vez em abordagens da Polícia Militar”, conta. 

Ela destaca também a cobertura do caso do mensalão, no primeiro governo Lula, com a investigação contra políticos goianos, e a Operação Monte Carlo, no caso que tornou o bicheiro Carlinhos Cachoeira reconhecido nacionalmente e trouxe à investigação o senador por Goiás Demóstenes Torres. 

A paixão pelo jornalismo continua sendo exercida em O Popular com a coluna Chega Pra Cá, em que traz notícias factuais, e aos sábados, com uma análise política aprofundada. Ainda está presente, durante a semana, em dois quadros na rádio CBN Goiânia, um pela manhã e outro à tarde: Plural e Na Trilha da Política. A ideia é trazer assuntos novos com apuração diária que ajuda a alimentar o trabalho no jornal. 

Doença, drama familiar, otimismo e superação

Encarar uma doença grave é, sem dúvida, um dos maiores desafios que a vida pode impor. É absolutamente normal sentir medo, raiva ou vontade de desistir diante do diagnóstico. No entanto, mudar a perspectiva pode transformar o tratamento em um processo de redescoberta e força interior.

Foi assim que, há um ano, Cileide recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Na época, ao receber a ligação de uma prima preocupada com o resultado do exame, a jornalista foi assertiva. “Eu não estou doente. Na verdade, eu vou tratar de dois tumores para não ficar doente”, afirmou. “Não posso dizer para o meu corpo que estou doente, senão ele realmente ficará”, acredita. 

O tratamento não a fez desistir nem do trabalho e trouxe situações inusitadas. “Já fiz o programa na CBN durante a sessão de quimioterapia, outra vez no meio de uma consulta médica. Houve dias que não conseguia levantar da cama, mas, quando terminava o programa, incrivelmente, eu me sentia melhor”, relata. É a força do trabalho e de ter prazer no que faz. 

Ocupar a mente em um momento tão difícil fez parte da rotina do tratamento e foi fundamental. Tanto que, mesmo não conseguindo estar presencialmente, deixou de trabalhar apenas dois dias nesse período. “Foi quando fiz a cirurgia na mama”, explica. A boa notícia é que o ultrassom mostrou que, após o procedimento, o câncer não voltou mais. Mesmo assim, ainda é preciso tomar medicação e realizar o acompanhamento médico necessário pelos próximos quatro anos para que seja considerada curada. 

A força para viver é tanta que nem quando os cabelos começaram a cair, ela desanimou. “Eu queria raspar a cabeça, mas o médico me aconselhou a não fazer isso. Foi ótimo, porque um tempo depois os cabelos voltaram a crescer e pude valorizar aqueles fios que me foram leais e resistiram junto comigo”, emociona-se. 

O histórico de resistência de Cileide vem de muitos anos. Em 2002, perdeu seu filho, Lucas Camargo Alves, com apenas 18 anos de idade, vítima de um acidente com skate que causou lesão no pâncreas. “Não me entreguei nem na morte do meu filho. É algo que herdei da minha mãe, que criou quatro filhas sozinha”, acredita.

Do primeiro casamento, Cileide ainda tem uma filha, Bárbara Alves, formada em Jornalismo e Direito, e que, que se tornou delegada no Mato Grosso do Sul. “Passamos o fim de ano juntas. Já viajei até lá para conhecer as belezas naturais do Estado”, destaca.

Casada há 22 anos com o professor aposentado da UFG Fernando Pereira dos Santos a jornalista vive com o marido em um apartamento no Setor Bueno, em Goiânia. Sempre que pode, também vai a São Paulo, onde mora o filho do esposo, Pedro, formado em música pela USP. “Ele está até tocando em uma peça de teatro. Costumamos ir para lá, pegamos a estrada e vamos para a praia em família”, conta. 

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