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Perfil: Zé Abílio

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
novembro 8, 2026
em Blog
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Perfil: Zé Abílio

Fotos: Arquivo pessoal

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Rafael Mesquita

O relógio mal passa das cinco da tarde, mas o movimento das cadeiras arrastadas já dita o ritmo do fim de tarde e noite no Setor Bueno, em Goiânia. Entre o falatório, os brindes da cerveja gelada e o aroma de carne na brasa, circula um homem de sorriso largo e olhar atento. José Abílio Alves Ferreira não é apenas o dono do lugar; ele é a própria alma do “Buteco do Zé Abílio”. 

Para entender o sucesso que hoje lota dezenas de mesas diariamente, é preciso voltar no tempo. A jornada de Zé Abílio como um dos mais conhecidos empresários da gastronomia e da boemia goianienses começou oficialmente em 2008. Longe dos conceitos gourmetizados e das fórmulas prontas de marketing, ele apostou em um pilar que nunca sai de moda: a autenticidade.

O que o diferencia de tantos outros comerciantes é sua mente inquieta e seu humor tipicamente goiano. Foi assim desde o início, na rua S3, no Setor Bela Vista, quando começou com o D’ Hora Lanchonete. Ao iniciar as atividades no local, cercado por prédios, Zé Abílio já pensou: “Cada edifício desse tem mais gente que um quarteirão de bairro. Vou começar a vida aqui e daqui não saio”, recorda.

De dia, uma lanchonete comum, com salgados, sucos e refrigerantes. De noite, sanduíches para servir a clientela da região. Eram apenas quatro jogos de mesa. Zé Abílio acreditava na necessidade de ampliar o negócio e, poucos meses depois, comprou o boteco que funcionava ao lado. “Vendi meu carro e com o dinheiro fiz o investimento. O D’Hora se transforma em Bar e Lanchonete”, conta..

O nome popular que o estabelecimento ficou conhecido entre a clientela fez o carismático empresário assumir de vez, em 2010, a nova identidade do negócio: Buteco do Zé Abílio. A fachada foi pintada de laranja para destacar, cor que é adotada até os dias de hoje. 

Zé Abílio conheceu de perto as dificuldades de se iniciar um negócio. “Não tinha dinheiro para pagar a energia, e a Celg sempre cortava, geralmente na sexta-feira, quando o bar lotava mais”, recorda. Para disfarçar, a solução encontrada era pregar um cartaz com os dizeres: “luto em família”. Os clientes mais próximos sabiam o real motivo do fechamento. 

Para atingir o sucesso que sempre almejou era preciso inovar. Aos sábados, criou o rodízio de carnes a 25 reais (cerca de 60 reais atualmente). Acordava às 6 da manhã, assava filé, costela gaúcha, cupim, costela de porco com molho barbecue. De acompanhamento: vinagrete, arroz, feijão tropeiro. O boca a boca na cidade fez o Buteco do Zé Abílio se tornar bem conhecido. “Não ganhei dinheiro nessa época, mas fiquei famoso e deu certo”, afirma. Abriu até um açougue junto do bar. Nesse período, trabalhava entre 18 e 20 horas por dia. 

Em 2015, uma virada de chave. A fama conquistada o fez ser convidado a participar da edição do ano seguinte do Comida di Buteco, principal concurso de botecos e petiscos do Brasil. Zé Abílio se inspirou em um prato encaminhado pela irmã, acrescentou cream cheese, bacon e molho de pimenta e mel, criando o espetinho de cebola recheada. Ficou em terceiro lugar no festival e incorporou de vez o petisco ao cardápio do bar. 

Se em 2009 vendia R$ 9.300 por mês, o faturamento sete anos depois passou para R$ 114 mil. A mídia conquistada com o desempenho no concurso foi fundamental. “Falei para a minha companheira da época: agora a gente vai ficar rico”, conta. Nesse período, Zé Abílio chegou a fazer quase 230 espetinhos de cebola em um único dia. O boteco se tornou referência em carne boa e barata em Goiânia.

Outra guinada importante para os negócios aconteceu em 2017. Impulsionado pelo sucesso no Comida di Buteco, o bar se transferiu para a rua S4, também no Setor Bela Vista. Com a estrutura melhor e a fama que havia conquistado, as vendas chegaram a R$ 350 mil por mês.

Para a segunda participação no concurso, era preciso criar um petisco que agradasse os clientes. O Pen Drive foi o prato escolhido. “Era para ser um disco de carne recheado, mas ele quebrava ao cozinhar. Então, fiz no formato retangular que parecia um pen drive mesmo”, brinca. O petisco caiu no gosto popular, inclusive de celebridades que passaram a frequentar o boteco. Entre elas, jogadores de futebol, a modelo Keyth Roriz e o cantor Henrique (da dupla com Juliano). 

Um ano depois, o momento em que Zé Abílio ganha projeção nacional. A participação no programa da apresentadora Ana Maria Braga na TV Globo. O convite da produção para participar da atração, gravada dois dias depois, veio enquanto participava de uma novena na Igreja Matriz de Campinas. “Era um presente de Deus”, acredita. 

Descontração e irreverência em rede nacional

O ponto alto do encontro foi a leveza e a espontaneidade que Zé Abílio trouxe para a cozinha de Ana Maria Braga. Ao vivo, o goiano não se intimidou pelas câmeras e jogou charme para a apresentadora, arrancando gargalhadas e fazendo a internet “shippar” o casal. Em um diálogo divertido sobre o preparo das carnes, ao notar que Ana Maria evitava a gordura do espetinho, ele disparou: “Já que você gosta de um gordinho, talvez a gente até case”.

A brincadeira cativou os telespectadores e gerou uma onda de carinho nas redes sociais. A sua passagem pelo programa foi um lembrete afetuoso de que a comida une pessoas e de que a simplicidade e o bom humor continuam sendo os melhores temperos da vida.

O chef Zé Abílio preparou para Ana Maria Braga os tradicionais petiscos do seu boteco: cebola recheada e espetinho de língua. Ele conheceu a apresentadora no estúdio, quando o programa começou. Um misto de nervosismo e emoção. “Quando ela pegou na minha mão, me apresentando para o público, eu tremi. Para descontrair, eu já comecei falando que ela estava muito cheirosa”, brinca. O roteiro previa que a participação de Zé seria curta, apenas o tempo para esquentar os petiscos e ir embora. “O diretor mandava seguir, mas fiquei o programa inteiro. Se a Ana Maria quisesse, ficaria lá para sempre e casaria com ela”, brinca. 

Além do grande retorno midiático, a experiência de conhecer o Rio de Janeiro era inédita para Zé Abílio. “Na época, eu tinha 48 anos e nunca tinha visto o mar, nem andado de avião”, recorda. Quando a aeronave decolou de Goiânia, o medo era tanto que pediu para segurar a mão do primeiro passageiro que viu ao seu lado. 

Ao chegar no Projac, um dia antes do programa, pôde ver de perto artistas que só conhecia pela televisão. Entre eles, o consagrado ator Lima Duarte. Ainda na véspera da participação, saiu para a boemia carioca com um antigo amigo de Goiás que morava na cidade. Chegou no hotel às 3 da manhã. O motorista contratado pela Globo para levá-lo ao Projac apareceu às 5:30 da manhã para buscá-lo. 

Após o sucesso da participação, vários integrantes da equipe do programa foram abraçá-lo e tirar fotos. Momento único que Zé Abílio nunca irá esquecer. “Eu chorei de alegria. É muito bom ter o reconhecimento. Até hoje, quando viajo para outros estados, as pessoas se lembram daquela participação”, emociona-se. 

Pandemia, mudanças e recomeço

De acordo com o empresário, a pandemia foi um divisor de águas para o segmento de bares e restaurantes de Goiânia. “A pandemia fez o foco das pessoas mudar. O nosso setor nunca mais foi o mesmo. O goianiense não fica mais até tarde nos bares, como era antigamente. Às vezes, prefere até ficar em casa para fazer a resenha com amigos e familiares”, avalia. 

Em 2019, Zé Abílio iniciou a construção de uma nova unidade do boteco, localizada na Avenida T-4, no Setor Bueno. A inauguração aconteceu em fevereiro de 2020. Um mês depois, a pandemia obrigou os bares a fechar em Goiânia. Prejuízo certo. Teve que se reinventar por meio do serviço de delivery.      

De março a dezembro, conseguiu manter o emprego dos 62 funcionários. No fim do ano, demitiu 42. Ao retornar o funcionamento em dezembro, conseguiu manter as duas unidades do boteco até abril de 2021, quando passou a concentrar as ações apenas no bar da T-4. 

Mesmo com as oscilações naturais do setor, Zé Abílio reforça que a longevidade de quase 20 anos no segmento tem um segredo: muito trabalho. “Em duas décadas, minha vida é abrir e fechar boteco de domingo a domingo, com poucas férias e muito trabalho, acordando bem cedo e indo dormir bem tarde”, compartilha.  

Pelo tempo de atividade no setor, Zé Abílio admite que já se tornou referência para muitos empresários de bares e restaurantes da cidade. “Eu sempre me espelhei nos grandes botecos de Goiânia, mas hoje em dia eu também sirvo de espelho para muita gente”, orgulha-se. 

Uma longa trajetória 

O nome José Abílio Alves Ferreira é o mesmo do bisavô, do avô e do pai. Zé Abílio é o mais velho entre quatro irmãos. Nascido e criado em uma fazenda em Mineiros (GO), ele chegou em Goiânia com a família quando tinha apenas nove anos de idade. 

Na escola, tinha muita facilidade de aprender. Só de prestar atenção nas aulas já se saía bem nas provas. “Isso só até começar a namorar na adolescência. Aí, desandei nas notas”, brinca. 

Desde muito jovem já trabalhava. No início, ajudava o pai na venda de queijo para feirantes. Depois, passou a exercer a atividade sozinho com objetivo de ajudar a mãe no orçamento de casa. Sempre foi apaixonado por motos e, aos 16 anos, comprou  a primeira delas com o próprio dinheiro, uma RX 125. “Já tive mais de 20 motos na minha vida, a que mais gosto é a Harley Davidson. Só dela, já tive quatro”, conta. 

A arte de cozinhar, Zé Abílio aprendeu com a mãe, dona Neuzita Martins, que trabalhava como merendeira de uma escola no Setor Campinas. “Como eu sou o mais velho dos irmãos, cozinhava para eles quando eram crianças”, conta. 

A mãe tem 80 anos de idade e até hoje é uma grande inspiração. “Ela me deu a vida e a coragem de trabalhar. Vou à casa dela vê-la todos os dias. Mesmo com a idade, minha mãe ainda vem aqui ao bar beber chopp e comer torresmo”, diverte-se. 

Uma das coisas que Dona Neuzita dizia que jamais aceitaria era que o filho fizesse uma tatuagem. “Ela falava que arrancaria o meu braço se eu fizesse”, conta. Anos depois, acabou aceitando. A escolha do filho foi pelo desenho de uma coruja. Na época do bar na S4, o animal sempre aparecia por lá. Depois que o estabelecimento se mudou para a T-4, ele apareceu novamente e, para a surpresa de Zé Abílio, até no enterro do pai, uma coruja aleatoriamente surgiu. “Percebi que era um sinal que tem tudo a ver comigo. Assim como ela, sou da noite. Nasci para ser assim”, acredita. 

Antes de iniciar a sua trajetória de empresário do segmento de bares e restaurantes, Zé Abílio já trabalhou de balconista de lanchonete, motorista da Celg e representante comercial. Atuou até de gerente de uma empresa de nutrição animal em Paraíso (TO). Ainda teve uma rápida sociedade em uma lanchonete com o irmão. 

Ao todo, ele tem quatro filhos, Melissa, Artur, Júlia e Luís Humberto. Os dois primeiros o auxiliam no Buteco do Zé Abílio. Há dois anos e meio, namora a cabeleireira Dulce Souza. “Estamos apaixonados, ela é parceira. Vai montar o próprio salão, e eu dou a ela algumas dicas de quem já tem experiência em comércio”, afirma. 

Neste ano, o empresário ainda participa da vinheta local de abertura do reality show culinário da TV Globo Chef de Alto Nível. “Qual seria o preço de uma mídia como essa? Vale demais uma participação em um programa desses”, acredita. 

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