Leandro Resende
ANO 65 – 2020 – Covid-19: a prova máxima
O ano começou com uma conquista de bastidor que esta série vinha esperando: em fevereiro de 2020, a OCB/GO tomou posse oficialmente na Junta Comercial do Estado de Goiás (Juceg) como vogal. O registro das empresas goianas passava a ter, pela primeira vez, uma cadeira do cooperativismo. Semanas depois, o mundo fechou. A pandemia de covid-19 impôs à economia global um teste que nenhum manual previra e submeteu o cooperativismo goiano, pela primeira vez, a uma prova simultânea em todos os seus ramos.
A saúde foi à linha de frente: Unimeds e cooperativas de anestesistas, enfermeiros e radiologistas sustentaram leitos e plantões, enquanto o sistema hospitalar estava sob pressão máxima. O crédito manteve portas abertas e dinheiro circulando na praça, repetindo o feito na crise de 2008 em escala sanitária.
O agro, atividade essencial, não parou: plantou, colheu e exportou a safra que seguraria a economia do Estado. Enquanto o PIB brasileiro afundava 3,3%, o faturamento do agro cooperativo goiano saltou 28,7%, para R$ 9,2 bilhões.
A entidade respondeu com o repertório inteiro. Criou o SOS Coop, que pôs um médico infectologista à disposição das filiadas: 540 atendimentos em 44 municípios. Articulou, com a Assembleia Legislativa e o governo estadual, socorro a quem parou por decreto: 680 cestas básicas a 14 cooperativas de transporte escolar sem trabalho desde março, e R$ 18 milhões em crédito emergencial, via GoiásFomento, para dois mil trabalhadores de vans escolares e de turismo. Doou termômetros ao Estado, publicou cartilha de trabalho remoto, migrou cursos para o digital e estreou o canal GoiásCoop Live.
E, em dezembro, assinou com o governador o protocolo do Coopera Goiás, aliança para formalizar centenas de cooperativas sem registro; Ronaldo Caiado, ao assinar, fez questão de dizer que tinha conta no Sicoob.
Foi também o ano em que o desenho de 2019 saiu do papel. Os cinco núcleos regionais foram implantados: Sul, em Itumbiara; Sudoeste, em Rio Verde; Noroeste, em Rubiataba; Norte, em Porangatu; e, Nordeste, em Cristalina, com posse remota dos coordenadores em setembro. A descentralização nasceu, por ironia, no ano em que ninguém podia viajar; os embaixadores regionais estrearam por videoconferência. Na comunicação, a primeira campanha publicitária nacional do movimento SomosCoop, com Gustavo Kuerten de garoto-propaganda, fazia um convite ao País: “venha ser coop”.
Mas a pandemia teve um andar de baixo. Nas cooperativas de agricultura familiar, o fechamento de feiras livres e escolas cortou, em um golpe, as vendas e as compras da merenda. Houve agricultor que passou a máquina sobre a própria horta, sem ter a quem vender.
A resposta veio do mesmo repertório, em miniatura: kits de merenda emergencial, cestas em domicílio, vendas pelo WhatsApp, “feiras seguras”, crédito barato inédito. Nenhuma das cooperativas acompanhadas de perto por pesquisadores da UFG fechou as portas. Adaptaram-se, como manda o modelo.
No fim do ano enlutado, com o auxílio emergencial sustentando o consumo, a lição do cooperativismo goiano cabia em uma frase: o modelo que reparte resultados atravessou a maior crise sanitária da história moderna protegendo exatamente aqueles que o mercado, sozinho, teria deixado para trás.
ANO 66 – 2021 – A colheita da resiliência
Se 2020 foi a prova de fogo, o que se viu em 2021 foi que o cooperativismo goiano passou com distinção e reconhecimento social. O faturamento do agro cooperativo saltou impressionantes 50% em um único ano, alcançando R$ 13,8 bilhões, impulsionado pela combinação que o Centro-Oeste esperava havia uma década: dólar alto, commodities em máxima histórica e a China recompondo estoques no pós-pandemia. O ramo crédito acompanhou o cenário, com alta de 61,7%, superando R$ 3,4 bilhões, enquanto o ramo saúde cresceu 22,5% e alcançou R$ 3,5 bilhões.
Em dois anos de pandemia, o sistema praticamente dobrara de tamanho. Enquanto isso, o país discutia inflação de dois dígitos e o Banco Central promovia, de março a dezembro, a escalada que elevaria a Selic de 2% a 9,25%, o aperto mais rápido em duas décadas. Para as carteiras das cooperativas de crédito, cada ponto de juro era remuneração. Para o cooperado, o contraste entre a taxa do banco e a taxa da casa ficava mais visível a cada reunião do Copom.
A base social explodia junto. Goiás alcançou cerca de 382,7 mil cooperados em 2021, quase 150 mil a mais que no início da gestão, dois anos antes. O motor era visível em qualquer esquina: as cooperativas de crédito, livres das amarras de categorias desde 2003 e com digitalização ampliada pela pandemia, viravam a porta de entrada do goiano comum para o sistema cooperativista, abrindo unidades de atendimento onde bancos fechavam agências. Neste momento e em definitivo, o cooperativismo deixava de ser assunto de produtor rural para virar fenômeno de varejo financeiro também nas cidades.
O Sistema OCB/GO aproveitou o ano de retomada para arrumar as ferramentas da década. A coleta de dados voltou a campo e a pesquisa de 2021 atualizou o retrato que o Censo de 2018 do IBGE congelara. Os núcleos regionais ganharam rotina, com analistas percorrendo cooperativas nas cinco regiões do interior. E o ambiente de trabalho interno conquistou a primeira certificação Great Place to Work (GPTW) do SESCOOP/GO.
A agenda de inovação saiu do discurso. O que se viu foram cooperativas goianas em imersões no Vale do Silício, hubs em gestação, meetups, hackathons, desafios e mentorias despertando os quadros para a transformação digital.
“Inovação você não ensina; desperta, motiva e inspira”, resumiu o presidente Luís Alberto Pereira. Na mesma toada, o Incubacoop começava a apoiar cooperativas desde o nascedouro: fomento deliberado, cooperativa a cooperativa, num Estado onde quase metade dos municípios ainda não tinha alguma.
O contraste nacional dava a moldura. O Brasil cresceu 4,8% na recuperação estatística pós-pandemia, mas com inflação de dois dígitos, juros em escalada e renda corroída. Era a retomada que não chegava ao bolso do brasileiro comum.

No cooperativismo goiano, chegava. Sobras eram distribuídas em assembleias, assistência técnica feita na porteira e emprego crescendo contra a maré. Até o pequeno ramo de infraestrutura despertou, com faturamento saltando para R$ 86 milhões na esteira da demanda por energia no campo. A diferença entre os dois países – o cooperativista e o não cooperativista – cabia numa palavra que o movimento repetia desde os pioneiros: pertencimento.
Nos balanços de fim de ano, havia uma constatação ainda discreta. Somados todos os segmentos do setor, o sistema cooperativista goiano se aproximava dos R$ 21 bilhões de faturamento e ninguém mais achava delírio a pergunta que começava a circular nos conselhos: quanto falta para trinta?
ANO 67 – 2022 – O ano em que furou a bolha
Os números de 2022 obrigaram até os mais céticos a pegar a calculadora e a recalcular cada índice e variável. O cooperativismo goiano faturou R$ 30,9 bilhões, salto de 47% sobre o ano anterior, quase o dobro da média nacional, que com seus 25%, já era considerada histórica. Goiás pulou da sexta para a quarta posição no ranking cooperativista do País.
Para dar escala à façanha: a economia goiana cresceu 6,6% naquele ano, mais que o dobro da média brasileira de 2,9%, e as cooperativas cresceram sete vezes mais que o próprio Estado.
“Furamos a bolha”, escreveria o presidente Luís Alberto Pereira, dispensando modéstia que os dados não pediam.
Destrinchando esse salto, revelava-se um sistema de dois motores. O ramo agropecuário viveu seu pico histórico, com R$ 20,3 bilhões de receitas, alta de 47,4%, turbinado pela guerra na Ucrânia, que tirou do mercado dois dos maiores exportadores de grãos do mundo e que fez o planeta pagar qualquer preço pela soja e pelo milho do Cerrado.
E o crédito protagonizou o número mais espantoso da série histórica: 91,2% de crescimento em um único ano, para R$ 6,5 bilhões, surfando a Selic de volta aos dois dígitos e a fuga de clientes dos bancos tradicionais. A base social acompanhou: 464,2 mil cooperados e 15,7 mil empregos diretos, com o movimento já abrigando 14 cooperativas goianas com faturamento ou ativos acima de R$ 1 bilhão.

O ano trouxe também uma conquista jurídica de primeira grandeza para o ramo financeiro: a Lei Complementar 196, de agosto. Era a modernização do marco legal do crédito cooperativo, que a OCB nacional celebraria como aprovada “em tempo recorde” e que tornou impenhorável a quota-parte do associado.
O Sistema OCB/GO fez a novidade chegar rápido aos juízes goianos, levando-a em ofício ao presidente do Tribunal de Justiça (TJ-GO) e mostrando que a representação institucional estava funcionando também no Judiciário.
O sistema nacional, embalado pelo mesmo vento, lançou, em 2022, o seu próprio horizonte, com a meta de gerar R$ 1 trilhão de prosperidade e alcançar 30 milhões de cooperados até 2027. Enquanto isso, o presidente Márcio Lopes de Freitas era eleito para o Conselho da Aliança Cooperativa Internacional com a maior votação entre os conselheiros, recolocando um brasileiro no andar mais alto do movimento, 25 anos depois de Roberto Rodrigues.
Luís Alberto atribuía o desempenho a causas que a série desta história reconhece, a profissionalização. Em 2022, o braço educativo aplicou mais de R$ 18 milhões em ensino e treinamento; tecnologia; intercooperação entre os players; e, um realinhamento de época, já que o mundo pós-pandemia descobria na sigla ESG o que o cooperativismo praticava por estatuto desde Rochdale: responsabilidade social, governança democrática, enraizamento. “Chegamos aqui quando era tudo mato e agora bebemos água limpa”, resumiu o líder goiano, em livre adaptação da sabedoria popular.
O pano de fundo nacional foi o avesso da serenidade: a eleição mais polarizada da história levou Lula de volta ao Planalto no apertado segundo turno de outubro, com o País dividido ao meio, enquanto Goiás reconduzia Ronaldo Caiado no primeiro turno. No cooperativismo goiano, a régua era outra e, nos conselhos, a pergunta do ano anterior ganhou resposta e novo questionamento. Os R$ 30 bilhões haviam chegado; faltava saber quando viriam os cinquenta.
ANO 68 – 2023 – A meta, a reeleição e a volta à China
Em 21 de março de 2023, por unanimidade, os líderes cooperativistas goianos renovaram o mandato de Luís Alberto Pereira por mais quatro anos no Sistema OCB/GO. E o dirigente respondeu colocando um número na mesa: chegar a 2027 com R$ 50 bilhões de faturamento anual. A meta, anunciada quando o sistema acabara de alcançar os R$ 30 bilhões, tinha o tamanho calculado das ambições bem engenhadas: exigente o bastante para mobilizar, factível o bastante para cobrar.
O segundo ciclo da gestão nascia com endereço certo – consolidar os núcleos regionais, fortalecer comunicação e representação institucional – e com um radar no setor público, que acompanharia esta série até seu último capítulo.
O ano testou a meta no nascedouro. O clima virou. El Niño, seca e calor derrubaram a produtividade, enquanto os preços das commodities refluíram do pico da guerra. O agro cooperativo recuou 14,4%, para R$ 17,4 bilhões. E, aqui, o desenho de dois motores provou seu valor: o crédito cresceu 32,2%, somando R$ 8,6 bilhões, e a saúde avançou 18%, quase R$ 4 bilhões.
O sistema inteiro fechou 2023 praticamente estável, em torno de R$ 30 bilhões, amortecendo uma queda que, no agro isolado, teria sido tombo. A diversificação construída em sete décadas funcionava como excelente amortecedor estatístico.
Na outra ponta, a agenda institucional do ano foi a mais densa da década. Na reforma tributária, o Sistema OCB/GO entregou pessoalmente ao secretário que cuidava do assunto no Ministério da Fazenda, Bernard Appy, as sugestões para o tratamento do ato cooperativo. E colheu, em dezembro, a promulgação da Emenda Constitucional nº 132, com o regime específico do cooperativismo reconhecido. A causa que vinha da Constituinte de 1988 e da Lei nº 11.051, de 2004, ganhava, enfim, assento constitucional definitivo.
E seguiam as conquistas: o assento obtido no conselho gestor do Fundeinfra, uma das quatro cadeiras do setor produtivo no fundo estadual de infraestrutura, foi convertido em pavimentação de trechos indicados por cooperativas. O seminário realizado com o diretor de Planejamento do BNDES na sede do Sistema foi a semente das linhas de crédito de R$ 6 bilhões anunciadas meses depois.

A lista de feitos seguia, com título de utilidade pública municipal em Goiânia; obras de drenagem na Avenida H reivindicadas e entregues; Selo de Conformidade lançado; certificação Great Place to Work (GPTW) pelo terceiro ano e três cooperativas goianas premiadas nacionalmente por excelência em gestão – Sicredi Cerrado GO, Sicredi Planalto Central e Sicoob Unicentro Br.
A Comunicação da OCB/GO premiou a imprensa com R$ 63 mil a jornalistas que divulgam o setor; a Corrida do Cooperativismo levou mil atletas às ruas pelo Dia C; e a OCB nacional enviou equipe a Goiânia para estudar o modelo goiano de representação política, agora referência.
E houve a viagem que fechou um círculo desta série. Em novembro, Luís Alberto integrou a comitiva do governador Ronaldo Caiado à China. Foram seis cidades, dezesseis visitas em catorze dias. Na fabricante de tratores Weichai, o presidente defendeu a instalação de uma fábrica em Goiás: “tratores menores e mais baratos podem ser solução importante para a agricultura familiar”.














