Nunca se produziu tanto. Nunca se decidiu tão pouco.
Esse é o paradoxo que tenho observado em conversas com empresários, executivos, fundadores. Gente que comanda times, assina embaixo, carrega o peso da escolha. Ou pelo menos carregava. Porque o que tenho visto é uma geração de gestores que terceirizou a produção para a inteligência artificial e, sem perceber, terceirizou junto o que não podia terceirizar. O critério.
A promessa era tentadora. Ferramentas que escrevem, analisam, resumem, comparam, sugerem, criam. Em minutos, o que antes levava dias. Um superpoder. E é, de fato. Mas superpoder sem direção é só velocidade. E velocidade sem critério é agitação disfarçada de progresso.
O que acontece quando você pode produzir infinitamente? Você produz. Mais relatórios, mais apresentações, mais opções, mais versões. A máquina entrega. E você, que deveria decidir, fica paralisado diante de tanta abundância. Porque decidir exige cortar. E cortar exige saber o que importa. E saber o que importa exige algo que a inteligência artificial não pode fazer por você: ter um ponto de vista.
Tenho conversado com empresários que me dizem, com orgulho, que agora produzem em uma semana o que antes levava um mês. Pergunto: e o que vocês fizeram com o tempo que sobrou? A resposta quase sempre é a mesma. Produziram mais. Não decidiram mais. Não pensaram mais. Produziram mais. E, no final do mês, a sensação não é de avanço. É de exaustão. De nunca ser suficiente.
A inteligência artificial é espelho. Ela devolve o que você pede. Se você pede mais opções, ela dá mais opções. Mas ela não pergunta se você precisa de mais opções. Não questiona se mais análises vão te ajudar a decidir ou a adiar. Ela executa. Quem deveria estar perguntando é você.
O papel do gestor nunca foi produzir, mas sim decidir. Escolher um caminho entre muitos. Assumir o risco de estar errado. Cortar o que parece bom em nome do que parece certo. Isso exige critério. E critério não se terceiriza. Critério se constrói.
Vejo empresas com decks impecáveis e decisões frágeis. Com dashboards sofisticados e estratégias genéricas. Com conteúdo infinito e posicionamento nenhum. A produção está lá. A clareza, não. Porque a clareza não vem de quantidade. Vem de escolha.
Empresa não tem problema de marca. Tem problema de decisão. A marca é só o reflexo. Quando uma empresa não sabe quem é, não é porque faltou campanha. É porque faltou alguém que dissesse: é isso. Não aquilo. Isso. E que bancasse a escolha.
Ganhamos superpoderes. Estamos produzindo mais do que qualquer geração antes de nós. Mas produção não é impacto. Impacto vem de decisão. De escolher, cortar, apostar, errar, ajustar, seguir. A inteligência artificial não veio para substituir o gestor. Veio para expor quem nunca foi gestor de verdade.
O convite é simples: produza menos, decida mais. Use a ferramenta para clarear, não para adiar. Porque, no fim, não vão lembrar quantas versões você gerou. Vão lembrar o que você decidiu fazer com elas.

Ciro Ribeiro Rocha é Fundador e CEO da Enredo Brand Innovation














