Na minha infância, Paraguai e China eram sinônimos de bugiganga, falsificação e contrabando. Se precisar formar uma imagem para ilustrar esse quadro, seriam dois camelôs fugindo da fiscalização nos corredores do chique Shopping Brasil. Shopping, porque o Brasil sempre foi o primo quase rico e estes dois aí (Paraguai e China, os informais), na época, os pobres.
Para ampliar nosso papo, uma pergunta: quem não lembra da famosa frase “La garantía soy yo” (a garantia sou eu), que veio de um clássico comercial de televisão da Semp Toshiba dos anos 1990? Era uma piada interna do Brasil ante os produtos chineses (“bugigangas falsificadas”) entrando no Brasil via Paraguai. Sem barreiras ou política de defesa da economia nacional, já atacavam a indústria brasileira (e, olha que ironia, matariam ou comprariam parte dela depois).
Se tivéssemos prestado mais atenção nos fatos e comportamentos, teríamos sido mais inteligentes. Agora, Inês é morta – ou, vamos lá, está na UTI. Inês é o varejo – só para explicar a piada.
Mas vamos manter a seriedade, e meu amigo Flávio Rodovalho agradece – ele é contra meus sarcasmos excessivos no editorial, rs. E ele tem razão, claro.
Vamos lá. Seja onde for e com quem for, qualquer piada é um perigo – vai além da gargalhada gratuita. Ela revela muito de quem faz e de quem ri. Atrás de cada piada, há um preconceito que normaliza comportamentos e molda atitudes.
Do comercial do chinesinho da Semp Toshiba para cá, são quase 30 anos e podemos ter uma noção dos caminhos traçados. A China deu aula, comprou a faculdade. O Paraguai foi um bom aluno (e caminha seguro para se industrializar) e o Brasil, que não conseguiu conquistar nada com braço forte?
O Brasil virou a piada da rodinha.
Criamos um país fraco, mas sempre bem-humorado. Bom de narrativa, mas incompetente ao extremo para olhar no espelho e ver as próprias fraquezas ou corrigir as suas rotas erradas. E essas frases não são endereçadas a um governo, mas a todos. Temos o dom de ter todas as frentes políticas com a mesma doença (hereditária?), a síndrome do nanismo da inteligência em gestão de políticas públicas.
Somos a bugiganga, mas não no produto (nisso, somos até bons), na mentalidade de quem constrói a política desenvolvimentista do País, na estratégia de expansão nacional. Temos sentados nas cadeiras da inteligência nacional das políticas públicas do País, há décadas, gente que não gosta de empresas e empresários. Temos, apertando o botão do desenvolvimento, planejadores míopes com mentalidade de colonizado, de sindicalista, de militarista, de academicista (e a lista vai piorando quando se amplia para Legislativos e Executivos de estados e municípios). E, para piorar, só elegemos curva de rio. Em uma parcela muito alta, salvo as exceções, temos no comando político quem não se sustenta com um currículo na mão. Os CEOs do País não seriam líderes, quem dirá gerentes, em uma grande empresa. Enfim, por isso somos pelegos da economia mundial.
Enquanto isso, os chineses e paraguaios vão continuar rindo de nossa inoperância. Emenda-se ao tema do editorial a notícia que saiu nesta semana de que a estatal brasileira Correios vai passar a entregar compras do Paraguai no Brasil. Ou seja, o natimorto Correios (que acumula, até a tampa, casos suspeitos de corrupção e afins) agora vai tentar se salvar enfiando a última faca nas costas do varejo nacional. Vai entender o Brasil.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














