Há uma queixa cada vez mais frequente entre empresários e gestores: a dificuldade de contratar. Quando a contratação ocorre, surge outro desafio: reter. Sem a retenção, há rotatividade excessiva (o famoso turnover). No centro dessa discussão aparece, quase sempre, a Geração Z.
A Geração Z é aquela nascida do final dos anos 1990 até 2010. São jovens que cresceram em um ambiente muito diferente daquele vivido pelas gerações anteriores. Eles tiveram acesso, desde cedo, à velocidade das redes sociais, a respostas instantâneas, a um excesso de escolhas e, muitas vezes, a uma cultura de superproteção contra frustrações.
A questão é que o mundo do trabalho exige competências que não podem ser resolvidas com um clique: disciplina, constância, capacidade de ouvir críticas, respeito a regras e tolerância ao desconforto.
O psicólogo social Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa (The Anxious Generation), chama atenção para os efeitos de uma infância excessivamente protegida no mundo real e intensamente exposta ao mundo digital. A reflexão apresentada por ele ajuda a compreender um paradoxo: ao tentar poupar crianças e adolescentes de pequenos riscos, de fracassos e de frustrações, dificulta-se o desenvolvimento da autonomia necessária à vida adulta.
No ambiente profissional, isso torna-se evidente. Nem toda tarefa será prazerosa. Nem toda cobrança será confortável. Nem todo reconhecimento virá rapidamente. Trabalhar também é aprender a permanecer, a amadurecer e a lidar com contrariedades.
Nesse ponto, outra ideia merece espaço: a autorresponsabilidade. Em “O Poder da Autorresponsabilidade”, Paulo Vieira defende que o crescimento pessoal depende da capacidade de reconhecer a própria participação nos resultados obtidos. Aplicado ao trabalho, o conceito impõe uma pergunta desconfortável, mas necessária: diante de um problema, quanto cabe ao ambiente mudar e quanto cabe ao próprio indivíduo amadurecer?
Essa reflexão é especialmente importante para uma geração que aprendeu a falar sobre saúde emocional, limites e ambientes tóxicos. O risco surge quando qualquer cobrança passa a ser confundida com violência; qualquer divergência passa a ser confundida com falta de acolhimento; e qualquer frustração passa a ser confundida com razão para desistir.
As empresas também precisam melhorar. É necessária a percepção de que autoridade não é autoritarismo; de que remuneração adequada importa; de que ambiente saudável não é luxo. É importante salientar que bem-estar não significa ausência de cobrança, que saúde emocional não significa imunidade à frustração e que estabelecer limites não significa transferir responsabilidade para o outro.
Talvez a Geração Z tenha razão ao questionar antigos excessos do mundo corporativo. Precisará, no entanto, aprender que nenhuma carreira consistente se constrói sem disciplina, responsabilidade, espera, autocrítica e desconforto.
O mercado de trabalho pode e deve mudar. O que ele não pode fazer é ignorar a realidade.
Talvez a maior crise não seja de mão de obra, mas de alinhamento de expectativas.

Marina Godoy Marques Nune, empresária, engenheira, vice-presidente da Câmara da Mulher da ACIEG e Diretora Executiva e cofundadora do Instituto Carlos André e da Academia da Comunicação.













