O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, marcou um divisor: pela primeira vez, redes sociais e plataformas de vídeo passaram a ser a fonte de notícias mais usada no mundo, à frente da TV e dos próprios sites e aplicativos jornalísticos. São quase cem mil pessoas ouvidas em 48 Países.
Entre os jovens de 18 a 24 anos, mais da metade aponta redes, vídeo ou IA como principal porta de entrada para a informação. Claro que era algo precificado, mas os senões estão alguns centímetros abaixo da etiqueta, onde algo maior se inquieta, move-se e respira.
Se dispensamos o photo chart, aquele recurso usado quando dois ou mais cavalos cruzam a linha de chegada para ver quem ganhou, não se dispensa a análise. Esse momento não rebaixa o jornalismo diante da rede social (ou rede antissocial, como diz o colega jornalista José Roberto Toledo), mas diz muito do ato de consumir conteúdo, do comportamento social.
O ecossistema inteiro se reorganizou em volta da plataforma. Seja sobre o que for ou doa a quem doer, a plataforma comanda – uma lógica imposta ao usuário por regras de uso que forçam tudo a migrar para dentro. Um domínio natural, quase orgânico, mas nada ingênuo. Algoritmo e construção de comportamento (muito antes do modelo governamental para regrar o tema).
Nesse novo arranjo, a chaga do influenciador (úlcera moderna no sistema de informação) reina sobre a audiência. E reina sem contrapeso: não responde a conselho de ética, não está sujeito a regulamentação profissional, não deve satisfação a editor, pauta ou direito de resposta. Noves fora os bons, limpos e honestos deste nicho, vale a máxima: pagou, levou. Mesmo se o cliente for o PCC ou o tigrinho – vale a regra do “dinheiro no bolso limpa a consciência”.
Sua matéria-prima é o engajamento. Detalhe é que o engajamento premia o impulso, não o critério, a verdade ou a ética. Não é por acaso que estamos vendo (na imprensa) criadores de conteúdo respondendo na Justiça por aquilo que publicam.
Sem regras, o dinheiro rege o post. A informação de qualidade, apurada e com critérios fica no vácuo, no vazio da interpretação ou na dramaticidade do narrador, um ídolo descompromissado com sua audiência. A imaturidade social ditando regras de consumo e comportamento para milhares ou milhões de criaturas, que sonham com o mundo fantasioso e fictício das redes sociais.
A informação de baixa densidade e qualidade, rápida de consumir, calibrada para a dopamina, comanda a narrativa. Verificação? Piada, né. Quem fiscaliza? O mentiroso contumaz tem o mesmo espaço na rede que um papa ou um pensador. Todos estão na mesma caixa – lutando por fornecer um gole de dopamina ao seu público.
O jornalismo joga outro jogo. Informação com qualidade custa caro, exige apuração, técnica, tempo, fonte cruzada, responsabilidade jurídica sobre cada linha. Por isso ocupa, hoje, um espaço mais estreito e mais exigente, com um público disposto a pagar o preço da atenção.
Não à toa, a confiança nas notícias caiu ao menor patamar já registrado: apenas 37% das pessoas dizem confiar na maioria das notícias na maior parte do tempo. O tombo da confiança caminha junto com a migração para plataformas em que a notícia vale tanto quanto qualquer outro conteúdo do feed.
Mas há um ponto que a leitura apressada do relatório ignora: a imprensa tradicional não morreu, apenas se mudou. Sobrevive migrando, e mais do que isso, se reinventa como produto híbrido, presente no vídeo, no streaming, no aplicativo, no podcast, sem abrir mão do método. As próprias plataformas de vídeo, hoje, abrigam, lado a lado, organizações jornalísticas, jornalistas independentes e criadores de conteúdo. A disputa, portanto, não é entre o velho e o novo meio. É entre dois compromissos: o da informação com critério e o do conteúdo com a métrica.
A Justiça, a polícia e o tempo vai melhorar o jogo a favor do jornalismo.
Nesta luta quase inglória, a Leitura Estratégica se orgulha de existir, crente no seu propósito, fiel à sua linha de informar, ciente do risco de amanhãs incertos. Mas, registre-se, são 70 semanas seguidas existindo – quase 3.500 páginas produzidas, com zero questionamento, alguns elogios, dezenas de boas histórias, milhares de leitores. Vamos comemorar cada página, cada edição sobrevivente. Valeu, leitores.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














