Ano 30 – 1985 – O cooperativismo abre diálogo com a Nova República
Leandro Resende
Quando o rádio anunciou, em 15 de março de 1985, que José Sarney assumiria a Presidência no lugar de Tancredo Neves, internado na véspera da posse, foi o exato momento em que a ficha caiu: 21 anos de regime militar terminavam, mas sem ficar claro sobre o que exatamente começava. Se a democracia foi restaurada, a fragilidade da economia estava longe de se resolver.
Para a Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCG, que antecedeu a OCB/GO), presidida por Paulo Roberto Cunha desde maio do ano anterior, a pergunta era prática: com quem falar agora? A resposta não era apenas regional e já se desenhava em âmbito nacional – como apresenta a seguir o caderno especial da Leitura Estratégica sobre os 70 anos da OCB/GO.
Em 1985, a OCB nacional elegia para a sua presidência o agrônomo Roberto Rodrigues, que permaneceria no cargo até 1991 e coordenaria a articulação política que levaria o setor à autogestão. Era o interlocutor de peso que construiria caminhos sólidos para o cooperativismo nesta complexa transição política, que ocorria em um momento econômico desfavorável.

No Sudoeste Goiano, a economia mantinha sua dinâmica de expansão gradativa. A indústria de esmagamento de soja da Comigo, erguida em 1983, consolidava o ciclo em que o produtor goiano deixava de apenas vender grãos, para também vender produto. A cooperativa de crédito Credi-Comigo vivia seu primeiro ano completo de operação e o Fomentar, programa de governo criado pela Lei estadual nº 9.489/1984, começava a atrair para Goiás projetos agroindustriais que antes se instalariam apenas em São Paulo ou no Paraná.
Na OCG, amadurecia uma ideia que ganhava força: criar uma corretora de seguros própria. A frustração era antiga e concreta, pois o seguro rural era caro, a cobertura era escassa e o sinistro, discutido com distância dos produtores. Se a cooperativa podia dar crédito, por que não poderia intermediar a proteção da safra?
Na economia, a Nova República herdou a inflação e não a domesticou. Ao contrário, faria ainda uma década de estragos: 1985 fechou perto de 235%, com o crédito rural subsidiado em cenário dramático.

Ano 31 – 1986 – Um goiano na Agricultura, o País no congelamento
Em 13 de fevereiro de 1986, o governador de Goiás, Iris Rezende, deixou o Palácio das Esmeraldas antes do fim do mandato para assumir o Ministério da Agricultura no governo Sarney. O vice, Onofre Quinan, tomou posse no governo estadual, onde ficaria até março de 1987. Pela primeira vez, em muito tempo, a política agrícola do País passaria pela caneta de um goiano e o cooperativismo do Estado comemorava o fato histórico. Afinal, décadas antes, Goiás era um Estado de uma economia de subsistência e agora daria as cartas do agro nacional.
Mas a alegria durou pouco. Quinze dias depois, em 28 de fevereiro, veio o Plano Cruzado: nova moeda, congelamento geral de preços, uma euforia que precederia o novo tombo da economia.
No campo, o efeito foi outro. Preços tabelados na ponta, custos correndo por dentro, ágio na carne, leite sumindo das prateleiras e produtor segurando boi e safra, à espera de regra melhor. As cooperativas ficaram exatamente no meio: compravam insumo em preço livre e entregavam produto em preço fixado.
Sob a presidência de Paulo Roberto Cunha, a OCG, precursora da OCB/GO, passou o ano em Brasília e no Palácio das Esmeraldas defendendo reajuste dos preços mínimos e recomposição do crédito de custeio.
E, em setembro, tirou do papel a corretora de seguros discutida desde o ano anterior. O movimento demonstrava que o setor tentava criar seus próprios instrumentos. Mas no meio do caminho, tinha uma pedra. O registro na Susep não viria como se esperava, aviso duro de que, sem autogestão, cada iniciativa cooperativa ainda dependia da caneta de um órgão federal.
Em 1986, em 15 de novembro, o Brasil elegeu a Assembleia Nacional Constituinte. Em Goiás, Henrique Santillo foi eleito governador, com dois líderes cooperativistas sendo eleitos deputados federais constituintes: Roberto Balestra e o próprio Paulo Roberto Cunha, que deixara a presidência da OCG. Estava aberta sua sucessão na entidade cooperativista, mas com um cenário adverso: o congelamento já rachando, a inflação voltando e uma sucessão na entidade a resolver. Que venha 1987.














