Rafael Vaz
Gabriel Franco de Campos passou os últimos dois anos preparando a Support Automação para uma eventual oportunidade de negócio. A empresa precisava estar organizada, apresentar bons resultados e continuar crescendo caso surgisse uma proposta que fizesse sentido para os sócios.
A oportunidade apareceu. Nesta semana, a empresa goiana, fundada em 1996, foi adquirida pela Sonepar, maior distribuidora de materiais elétricos do mundo e maior conglomerado francês de capital fechado. “Foi uma janela de oportunidade, não é sempre que existem interessados em comprar a empresa”, afirma Gabriel.
A negociação com o grupo francês começou cerca de dois anos antes da conclusão da operação. Segundo o empresário, os sócios conversaram com executivos da Sonepar e, posteriormente, contrataram a PwC para assessorá-los no processo.

A consultoria passou a trocar informações com os assessores do grupo interessado até que uma oferta fosse apresentada. Depois da aceitação, veio a etapa de diligência, quando o comprador analisa mais detalhadamente a empresa antes da conclusão do negócio. “É um processo que dura dois anos, até assinarmos o contrato e passarmos a bola para frente”, conta.
Uma empresa preparada
A preparação para uma eventual venda começou antes da proposta. “Ficamos preparados nos últimos dois anos, para caso houvesse alguma oportunidade que fizesse sentido para nós”, destaca Gabriel.
Segundo ele, isso significava manter a empresa organizada, em crescimento e com bons resultados. “A empresa tem que estar redonda, tem que estar crescendo, tem que estar com os números bons contabilmente falando.”
O processo de negociação, entretanto, trouxe um novo desafio: manter essas condições durante todo o período. “Como é um processo longo, o desafio é você continuar crescendo”, afirma.
Fundada em Aparecida de Goiânia, a Support possui também uma filial em Cuiabá. A empresa atua nos segmentos de automação industrial, instrumentação, medições e materiais elétricos.
É distribuidora exclusiva da Rockwell Automation em Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso e Tocantins, e atende indústrias dos setores alimentício, sucroalcooleiro, automotivo, metalúrgico e de mineração. O seu portfólio inclui soluções que vão de acionamentos de motores a softwares de Indústria 4.0.
A estratégia de um grupo internacional
A aquisição foi conduzida por meio da Eletronor, braço brasileiro da Sonepar no segmento de distribuição de materiais elétricos. No ano passado, o grupo francês já havia incorporado a Intereng e a Ladder, duas distribuidoras de automação e tecnologia da informação que pertenciam ao conglomerado americano Edge Investment Partners.
Com faturamento global de 33,6 bilhões de euros, a Sonepar vem ampliando a presença no Brasil por meio de aquisições.
Para Gabriel, a continuidade da cultura construída pela Support ao longo de três décadas também foi um aspecto importante na escolha do novo controlador. “Acreditamos que eles vão continuar com a cultura que construímos durante 30 anos. Segundo o empresário, a expectativa é que a excelência no atendimento aos clientes e a maneira como a empresa se relaciona com os seus colaboradores sejam mantidas.
O cenário das fusões e aquisições
A venda da Support acontece em um momento de retração das fusões e aquisições no setor de consumo. Segundo levantamento da KPMG, as empresas do setor movimentaram R$ 2 bilhões em operações de M&A no primeiro semestre de 2026. O valor representa uma queda de 87,1% em comparação com os mais de R$ 18 bilhões registrados no mesmo período de 2025.
Também houve redução no número de operações. Foram 48 transações nos primeiros seis meses deste ano, contra 98 no mesmo período de 2025, recuo de 51%. A pesquisa considera quatro segmentos dentro do setor de consumo: alimentos e bebidas, varejo, retail tech e food tech.
Alimentos e bebidas concentraram 25 operações. O varejo registrou oito, enquanto retail tech teve 14 e, food tech, uma. Do total de operações, 13 envolveram fundos de private equity e venture capital.
Diferentes formas de investir
Algumas operações realizadas no período ajudam a mostrar a diversidade dos negócios. A AB Mauri Food comprou a Casa de Bolos por cerca de R$ 200 milhões. A Gomes da Costa adquiriu uma fábrica de farinha de peixe do Grupo Patense por R$ 135 milhões.
No segmento de tecnologia, a Trinio captou R$ 32 milhões em rodada de investimento com participação da Hi Ventures, Activant, Caravela, Latitud e Gilgamesh. Os dados do mercado mais amplo de M&A também mostram movimentação.
Segundo o TTR Data, 43% das transações tiveram valores divulgados e 77% das operações já foram concluídas. Apenas em agosto, foram registradas 57 transações, entre anunciadas e concluídas, somando R$ 12,6 bilhões.
Por número de operações, Internet, Software & IT Services liderou, com 140 transações, seguido por Real Estate, com 131. Nas operações cross-border, empresas brasileiras fizeram mais negócios nos Estados Unidos, com 11 operações, e na Colômbia, com sete.
Do lado dos investimentos estrangeiros no Brasil, os Estados Unidos lideraram, com 87 aquisições de empresas brasileiras, apesar de uma queda de 23% nas aquisições de empresas brasileiras por grupos americanos.
O capital continua circulando
No segmento de private equity, foram registradas 56 transações, totalizando R$ 34,5 bilhões, com recuo de 13% no volume. Em venture capital, foram 134 rodadas, que somaram R$ 8 bilhões, com queda de 46% no número de operações.
Em asset acquisitions, foram 205 transações, totalizando R$ 37,9 bilhões, redução de 8% no volume. Os números mostram que, apesar da redução observada em determinados segmentos, operações de diferentes formatos continuam movimentando recursos e atraindo investidores.
O que o comprador procura
Para o advogado tributarista Adolpho Bergamini, um dos principais cuidados em uma operação é conhecer profundamente a empresa que está sendo adquirida. “O principal, sem dúvida nenhuma, é fazer uma boa e profunda due diligence.”

Segundo Bergamini, eventuais passivos tributários, trabalhistas e civis precisam ser identificados antes da conclusão do negócio. Outro ponto importante são os laudos econômicos, que devem demonstrar o valor da empresa e dos ativos envolvidos na operação. Uma avaliação inadequada pode gerar questionamentos futuros, inclusive em relação ao ágio.
Governança e compliance
A estrutura de governança também influencia a decisão de investir ou adquirir uma empresa. “Uma empresa que não tem compliance, que não tem regras de governança nem nada, é uma empresa opaca, não é uma empresa transparente.”
Para Bergamini, regras de governança e mecanismos de controle ajudam a demonstrar ao investidor como a empresa funciona e quais são suas regras de conduta.
Segurança jurídica
Na avaliação do advogado, o ambiente jurídico brasileiro poderia favorecer novas operações de fusões e aquisições caso houvesse maior segurança nas relações tributárias e trabalhistas.
Bergamini cita a carga tributária, as restrições relacionadas ao uso de créditos fiscais e mudanças na jurisprudência como fatores que dificultam a previsibilidade para as empresas.
Para ele, melhorias no ambiente econômico e na segurança jurídica poderiam ampliar o interesse de investidores internacionais pelo Brasil.
Uma oportunidade que começa antes do comprador
A experiência de Gabriel com a Support mostra que uma operação de M&A pode começar muito antes de uma proposta formal. Foram cerca de dois anos de preparação, negociação e análise até a conclusão da venda.
A empresa precisava continuar crescendo, manter bons números e permanecer atrativa durante todo o processo. Para Gabriel, estar preparado permitiu que os sócios analisassem a oportunidade quando ela apareceu. “Quando chegou uma oferta que fizesse sentido para a gente, pudemos aceitá-la”, explica.
A Support agora passa a integrar a estrutura da Sonepar no Brasil. A operação coloca uma empresa construída ao longo de três décadas dentro da estratégia de expansão de um grupo internacional.
Enquanto os dados da KPMG apontam uma redução expressiva nas operações do setor de consumo, casos como o da Support mostram que negócios continuam ocorrendo quando existe interesse dos dois lados e uma empresa preparada para passar pelo processo de aquisição.
Os riscos jurídicos de uma operação de M&A
Uma operação de fusão ou aquisição pode envolver meses de negociação e uma extensa análise sobre a empresa que será comprada. Para o advogado Marlon Borges Nogueira, os riscos não estão apenas no preço, mas também em contratos, passivos e situações que podem não aparecer imediatamente nos documentos apresentados pelo vendedor. “O primeiro é o contrato mal escrito”, diz.

Entre os problemas, estão promessas de indenização sem limite de valor, sem prazo definido e sem recursos reservados para eventual pagamento. Outro ponto frequente de conflito é a definição do preço final. “A maioria das brigas depois que o negócio fecha no Brasil é sobre matemática.”
Dívidas existentes no momento do fechamento, capital de giro e definição do que deve ser considerado caixa podem gerar divergências entre as partes.
Quando uma negociação não fecha
Preço é uma resposta comum quando se pergunta por que uma operação não foi concluída. Para Marlos, porém, a dificuldade de comprovar os números da própria empresa é uma das causas mais frequentes.
Contabilidade que não corresponde aos números utilizados internamente, receitas fora do controle e ausência de auditoria podem aumentar a insegurança do comprador.
A estrutura societária também pode dificultar a operação. Sócios minoritários, herdeiros, ex-cônjuges e direitos de preferência podem impedir a assinatura mesmo depois de comprador e vendedor chegarem a um acordo sobre o preço.
Há, ainda, o empresário que ainda não decidiu se realmente quer vender. “Quem compra empresa faz esse tipo de negócio o ano inteiro. Quem vende, faz uma vez na vida.”
O que precisa ser analisado
A investigação deve abranger diferentes áreas da empresa. No campo societário, entram contrato social, acordo entre sócios, atas, participação de cada proprietário, eventuais penhoras, opções de compra e procurações.
Na área contábil e financeira, devem ser analisados balanços de três a cinco anos, dívidas, caixa, contratos bancários e negócios realizados com sócios ou empresas do mesmo grupo.
A análise tributária inclui certidões, parcelamentos, multas, processos, benefícios fiscais e créditos acumulados. Também devem ser examinados processos trabalhistas, contratação de pessoas jurídicas, terceirizações, acordos com sindicatos e controle de ponto.
O que não aparece na certidão
Nem todo problema aparece nas certidões. “Certidão negativa só prova que a dívida ainda não virou processo formal”, alerta.
Marlos cita como exemplo trabalhadores contratados como pessoa jurídica que, na prática, atuam como empregados. Também aponta pagamentos feitos fora do contracheque e determinadas situações de terceirização.
Na área tributária, entram problemas relacionados a empresas intermediárias, distribuição de lucros, utilização de ágio, regime de tributação e cálculo de impostos.
Há, ainda, questões ambientais, como a contaminação de terrenos.
Empresas que trabalham diretamente com consumidores precisam verificar também a adequação de seus bancos de dados à legislação de proteção de dados.
A reforma tributária
Para as empresas do setor de consumo, a reforma tributária acrescenta uma camada de complexidade às negociações. Marlos destaca empresas que construíram parte de sua margem com incentivos estaduais de ICMS e a necessidade de analisar o tratamento dos créditos acumulados.
Outro ponto está nas operações em que parte do preço será paga futuramente com base no desempenho. “Combinar, hoje, o pagamento de uma parte do preço lá na frente, em 2028, calculada sobre o lucro de 2026, é medir uma empresa que, na prática, já não existe mais daquele jeito.”
Fusão não é aquisição
O advogado também chama atenção para a diferença entre o uso dos termos no mercado e seus significados jurídicos.
No sentido jurídico estrito, fusão ocorre quando duas empresas se extinguem e uma terceira é criada. Segundo Marlos, muitas operações chamadas de fusão no mercado são, juridicamente, incorporações, incorporações de ações ou compras de participação.
A estrutura escolhida interfere na transferência de ativos e passivos, na posição dos antigos sócios e na continuidade da pessoa jurídica.
O papel do Cade
A concorrência também pode interferir na conclusão de uma operação. Marlos destaca que os atuais limites de faturamento para a obrigatoriedade de notificação ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) são de R$ 750 milhões para um dos grupos envolvidos e R$ 75 milhões para o outro.
Operações envolvendo concorrentes ou integração vertical podem exigir análise mais aprofundada. Também é preciso evitar a integração antecipada das empresas e o compartilhamento de informações concorrencialmente sensíveis antes da aprovação.













