No coração do Centro de Goiânia, onde o concreto guarda as memórias de décadas da capital, o som do pandeiro e o tinir de copos gelados têm um maestro de sorriso fácil. Jair do Prado, o eterno Jajá, 74 anos, é mais do que um comerciante ou dono de bar. Ele é um símbolo vivo da boêmia e da resistência cultural goianiense.

A história de Jajá com a noite e o convívio urbano começou há quase cinco décadas. Desde 1978, está no Mercado da 74, um dos pontos mais tradicionais de Goiânia. Ali, ele não serve apenas bebidas, mas também acolhe trabalhadores, artistas, estudantes e políticos. Viu o espaço se transformar em um ponto de encontro cultural e ajudou a dar cor a um centro urbano que muitas vezes sofria com o esvaziamento noturno. Com simpatia cativante, transformou o balcão em uma extensão da própria sala de casa.
Natural de Joviânia, no interior de Goiás, a trajetória do empresário em Goiânia está toda ligada ao Centro da capital. Chegou à cidade em 1971 para estudar e trabalhar e já se instalou na região.

“Lembro de vir de charrete da antiga rodoviária, em frente ao Lago das Rosas, para cá. Era o meu táxi na época”, se diverte.
Logo comprou uma loteria na Rua 57, bem próximo ao Mercado da 74. Foram 17 anos com o negócio. Nesse período, ainda montou uma loja de discos na região. Posteriormente, ainda trabalhou como servidor público. Em 1978, finalmente inaugurou no próprio Mercado o seu primeiro boteco, o Bar para Todos. Depois, usou seu apelido para dar o nome ao Escritório do Jajá. “Nessa época, aqui era bem movimentado. Jornalistas, empresários e o público feminino da Universidade Federal de Goiás (UFG) frequentavam e me ajudavam muito a divulgar o estabelecimento”, recorda. Tempo em que a vida no Centro da cidade pulsava. Comércio, restaurantes, prédios, casas, bares e bancos. Estava tudo lá.

Mas um triste acontecimento naquele período, e que mudaria a história de Goiânia, transformou a vida de Jajá e de toda a comunidade que morava, trabalhava e frequentava a região do Mercado da 74: o acidente com o césio-137.
Dias de luta
O Mercado estava a apenas cerca de cem metros do quintal da casa do catador Roberto Santos, onde a cápsula contendo o césio-137 foi aberta. Além disso, em 1987, ano do acidente radiológico, Jajá morava na Rua 26-A, em frente ao ferro velho de Devair Alves Ferreira, que comprou os fragmentos e a própria peça que continha o material radioativo.

O empresário se recorda bem do medo e daqueles tempos difíceis. “Fui para o estádio Olímpico para aferir a radiação no meu corpo”, conta. Felizmente, ele não estava contaminado. Mesmo assim, as consequências do acidente foram imediatas. “A nossa região foi totalmente discriminada, ninguém queria saber de vir por aqui”, lamenta.

Com a queda da clientela, Jajá precisou encontrar uma nova fonte de renda para ajudar a sustentar a família. Passou a dividir a rotina de dono de bar com um emprego de servidor público em Porangatu, no norte de Goiás. “Ficava lá e cá, e já tinha dois filhos. Passei perrengue nessa época”, recorda.
Mesmo com as dificuldades, em 1989, o empresário decidiu continuar investindo na região e abriu, no Mercado da 74, o bar que contribuiu para torná-lo um símbolo do local: o Jajá Drinks.
Renascimento e otimismo
Jajá acreditava que o Mercado poderia reviver os seus melhores momentos. Mas demorou para o espaço se reerguer. Foram 18 anos de abandono desde o acidente radiológico. Foi quando, em 2005, após anos de reivindicação da comunidade local, algo de fato foi feito.
Os organizadores da CasaCor, maior mostra de arquitetura, design de interiores e paisagismo do Estado, promoveram uma ampla reforma do local, após acordo com a Prefeitura. Em troca, o Mercado esteve à disposição para sediar o evento. A mudança transformou o espaço, que aos poucos voltou a ganhar vida. “Os permissionários começaram a ter voz, trouxemos som ao vivo, o ambiente foi valorizado, virou um centro cultural de verdade”, avalia.
A partir de 2009, outro fato que deu grande impulso ao fortalecimento do Jajá Drinks foi a participação no concurso Comida di Buteco, que elege os melhores botecos do país. Alguns petiscos criados para a competição se tornaram presença definitiva no cardápio do estabelecimento, entre eles: almôndega da vovó (antiga receita da avó do empresário) e discoteca do Jajá (discos de carne e frango).

“Ficamos conhecidos no estado e no Brasil inteiro através do concurso. Estamos entre os que mais vendem durante o evento”, explica.
Seja em concursos de botecos, nas matinês ou em noites de carnaval ao som de sambas e marchinhas, é comum clientes chegarem até de outros estados procurando pelo Jajá. Querem uma foto ou simplesmente conhecer o sorriso e o carisma dessa figura cativante. “Aqui já teve batizado, noivado e até comemoração de casamento de cliente”, se diverte.
Reportagens e documentários também já passaram por ali. Uma transmissão marcante na tv foi a participação, ao vivo para todo o Brasil, da torcida no Quintal do Jajá, na Rede Globo, durante a semifinal da copa do mundo de 2014. A fatídica partida que terminou em 7 a 1 para a Alemanha contra o Brasil.
Sucesso fruto de quem está há 55 anos acreditando no Centro da cidade e é otimista quanto ao futuro da região. “É preciso voltar os colégios, incentivar o comércio, a cultura e trazer moradores para cá”, acredita. Palavra de quem se tornou um patrimônio do local. “Eu cheguei aqui em 1971, foi onde sempre trabalhei, criei meus filhos, tenho meus amigos e moro até hoje”, emociona-se.

A confiança no potencial da região é tanta que, em 2017, em sociedade com o músico Ricardo Coutinho, um novo espaço foi lançado: o Quintal do Jajá. O bar funciona na Rua 15, no Centro de Goiânia, e surgiu de um projeto do empresário de criar a Casa de Samba do Jajá, um trio elétrico que se apresentaria durante o carnaval.
O local conseguiu sobreviver à pandemia em 2020. “Na época, tivemos que ser criativos e com o fechamento obrigatório dos bares, só nos sobrou a opção de oferecer a nossa feijoada pelo iFood”, conta.
O Quintal não só sobreviveu à pandemia como se tornou um sucesso. “Começamos uma vez por mês e, hoje, abrimos de quinta a domingo, além dos feriados, sempre com apresentações ao vivo de artistas de samba de Goiás ”, comemora.
Com as duas casas, Jajá gera quase 40 empregos, entre cozinheiros, garçons, auxiliares de cozinha e cumins. São cerca de dois mil clientes por semana. Mas ele não vai parar por aí. Novos projetos estão por vir.

Família e Novos projetos
Até o final deste mês de setembro, será inaugurada a segunda unidade do Quintal do Jajá. O projeto será no mesmo local onde antes funcionava o tradicional Quintal do Jorjão, no Setor Vila Nova, e nos moldes da casa que já existe no Centro: com feijoada e muito samba.
O trabalho irá aumentar, mas nada que Jajá não esteja acostumado há anos. “Formei os meus filhos com o dinheiro que ganhei nos meus bares e a ajuda da minha esposa, que era professora”, relata.
Casado há 45 anos com Maria Aparecida Ayres, o casal teve dois filhos: Pedro Henrique e Paulo Alexandre, ambos advogados. Jajá tem dois netos: Alice, 4 anos, e João Pedro, 3 anos. “São os xodós do vovô. Já fomos duas vezes com a família toda para um resort na Bahia”, compartilha.
Jajá ainda faz questão de ir com a esposa todo ano a Aparecida do Norte (SP) rezar e agradecer pelas bênçãos. Católico praticante, em Goiânia, costuma frequentar a Igreja Matriz de Campinas e a Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no Setor Aeroporto. “A pessoa tem que ter fé para andar no caminho certo. Minha mãe me ensinou isso. Educação, família e religião são as bases do ser humano”, acredita.

Texto: Rafael Mesquita.
Fotos: Arquivo pessoal.














