Durante muito tempo, o voto para o Legislativo foi um voto dado ao vento. Escolhia-se um nome simpático, uma sigla familiar, um sobrenome conhecido, e pouco se sabia sobre o rumo que aquele parlamentar tomaria depois de diplomado. Tem até uma certa lógica nisso: o Parlamento é, por natureza, o espaço da junção, do conflito e das aparas de ideias, um caldeirão onde visões diferentes se encontram para, no fim, desenhar as leis. Vota-se em uma direção, e não em um projeto fechado.
O problema é que esse processo ou esse modelo se degradou. Hoje, está contaminado por vícios, lobbies e distorções que afastam o mandato do interesse público e transformam a representação em balcão.
O que assusta é ver o voto para o Executivo caminhando para a mesma escuridão. A eleição de prefeitos, governadores e presidentes é o momento em que a sociedade compara projetos de gestão: propostas para a saúde, a infraestrutura, as contas públicas, a educação e o ambiente de negócios.
Em vez disso, consolidou-se o voto ideológico. Pergunta-se ao candidato (e ao eleitor) de que lado ele está, não o que ele pretende fazer.
O projeto fica em segundo plano, quando não desaparece por completo da superfície mental do eleitor. Votar por pertencimento, por ser da tribo (bando ou curral eleitoral), seria idiotice há algumas décadas. Virou regra hoje. Não foi só a qualidade do candidato que despencou em um abismo infinito – a do eleitor tombou amarrada na mesma corda.
O voto por rejeição ao adversário é abestado – joga o debate para debaixo do tapete, e vamos brigar como duas torcidas inimigas na saída do estádio. O jogo perdeu a razão de assistir. Viramos inimigos mortais sem nunca nos falarmos um “oi, bom dia”.
É um voto quase de cabresto – não mais o cabresto do coronel que conduzia o eleitor ao curral, mas o cabresto invisível da ideologia, que dispensa a reflexão e entrega o voto pronto antes mesmo de qualquer proposta ser apresentada. E esse voto automático já representa, com folga, mais da metade dos votos do país.
Excelente para quem não tem projeto. Excelente para quem quer boxear. Excelente porque elimina todos os outros não polarizados. Péssimo para quem sonha com um país rediscutido a cada quatro anos. Não precisa de projeto, precisa engajar a tropa.
O resultado é que nosso cérebro eleitoral está atrofiando. Músculo que não se exercita definha. O músculo de comparar propostas, cobrar planos de governo, avaliar equipes e verificar entregas passadas está em franco desuso.
O ódio cegou. Acordamos com raiva de um post “X” ou “Y”. Zero projetos, mil posts de ataques. Transformamos a eleição em um clássico de futebol da Série D: torcidas organizadas de cada lado, cânticos, provocações e a certeza prévia de que o nosso time é o melhor. Senso crítico zero – nem prestamos atenção no campo. Como dizem os comentaristas: o campo fala (mas precisamos de disposição para ouvir).
Só que país não é time. Gestão pública não se resolve com paixão de arquibancada; resolve-se com diagnóstico, planejamento, equipe e execução. Esquerda e direita são referências legítimas de valores e devem continuar existindo, mas não substituem projeto.
A boa notícia é que o antídoto está ao alcance de cada um de nós. Não declare voto ou preferência sem conhecer o projeto. Gestão é projeto.
Inverta a ordem das perguntas: antes de “de que lado você está?”, pergunte: “o que você vai fazer, como, com quem e com que dinheiro?”. Enquanto essa inversão não acontecer, seguiremos escolhendo bandeiras e colecionando frustrações com governos (de ambos os lados). O país que precisamos não nasce da cor da camisa. Nasce da coerência do projeto.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














