Vivemos um paradoxo desconcertante. O mundo nunca produziu tanta riqueza — e nunca conviveu tão naturalmente com tanta exclusão. Guerras que consomem bilhões enquanto crianças morrem de fome. Tecnologia que conecta bilhões de pessoas e, ao mesmo tempo, aprofunda a solidão. Um planeta que tem comida suficiente para todos — e deixa milhões passarem fome por falta de vontade política e solidariedade organizada.
Diante desse paradoxo, escrevi o livro “A Solidariedade como Lei: Ética, Espírito e Economia”. E a tese que defendo é simples e radical ao mesmo tempo: a solidariedade não pode continuar sendo apenas uma virtude individual, um apelo religioso ou um discurso de campanha eleitoral. Ela precisa tornar-se lei -no sentido ético, no sentido jurídico e no sentido sistêmico.
O que isso significa na prática? Significa reconhecer que a solidariedade possui três dimensões inseparáveis. A primeira é a ética e espiritual – a decisão pessoal, intransferível, de colocar o outro antes de si mesmo. Betinho doando alimentos, Padre Júlio Lancellotti caminhando pelas ruas ao amanhecer, Chico Xavier entregando os direitos autorais de 500 livros à caridade. Gestos individuais que mudam vidas – mas que não bastam para mudar estruturas.
A segunda dimensão é a jurídica e institucional. A solidariedade precisa ser garantida pelo direito e exigida pelo Estado — por meio de políticas públicas de saúde, educação, previdência e transferência de renda. Os 26,5 milhões de brasileiros que saíram da fome entre 2022 e 2024 não foram salvos pela boa vontade do mercado: foram salvos por políticas públicas deliberadas. Esse é o argumento que a evidência histórica confirma e que o neoliberalismo insiste em ignorar.
A terceira dimensão é a sistêmica — e talvez seja a mais urgente. Como empresário, vivi de perto a transformação que o mundo corporativo atravessou nas últimas décadas: empresas sem ética perderam contratos, reputação e, finalmente, mercado. O compliance e a agenda ESG deixaram de ser modismo para se tornar exigência estrutural de sobrevivência. A humanidade precisa de um movimento equivalente. A solidariedade precisa ser o compliance das nações — uma exigência inegociável das relações internacionais, e não uma opção generosa dos que têm mais.
Sou filho único de pais simples, comecei a trabalhar aos 14 anos, fui office boy, bancário, metalúrgico, professor universitário e executivo antes de me tornar empresário. Essa trajetória me ensinou algo que nenhum livro de economia consegue ensinar sozinho: que o mercado é uma força poderosa, mas cego para a justiça. Que a livre iniciativa é indispensável, mas que sem valores éticos ela degenera em exploração. E que lembrar de onde se veio não é nostalgia — é uma obrigação moral.
A solidariedade como lei não é utopia. É a próxima etapa civilizatória — tão necessária e tão possível quanto foi, em seu tempo, abolir a escravidão ou criar a ONU. Quem tem fome tem pressa. E a humanidade tem fome de solidariedade há tempo demais.

Marcos Freitas,
Doutorando em Turismo, mestre em Finanças e economista.














