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Perfil: Raimundo Nonato Leite Pinto

“Eu tinha uma ideia fixa na medicina, sobretudo pelos benefícios que ela me deu após o meu acidente na infância”

Leitura Estratégica por Leitura Estratégica
junho 13, 2026
em Perfil
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Perfil: Raimundo Nonato Leite Pinto

Fotos: Arquivo pessoal

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Por Rafael Mesquita

A trajetória de Raimundo Nonato Leite Pinto é guiada pela união entre o cuidado com a saúde humana e a busca por justiça financeira por meio do cooperativismo. Do sertão cearense à presidência do Conselho de Administração da Central Sicoob Uni, a vida do médico infectologista é um exemplo de dedicação ao bem-estar coletivo.

Natural do município de Independência, no Ceará, Nonato foi alfabetizado na fazenda onde morava pelos professores da comunidade, um tio e a mãe, dona Maria Júlia. Aprendeu apenas a assinar o nome e a fazer contas. “A tabuada eu sei até hoje de cor”, brinca.  

Um fato inusitado que poderia ter terminado em uma tragédia o trouxe para o Centro-Oeste do Brasil. Aos oito anos de idade, sofreu um acidente ao cair quando levava um litro de leite de cabra para casa. Um corte profundo no braço o fez perder muito sangue e parte da sensibilidade da mão esquerda com o rompimento dos nervos e vasos sanguíneos. Um tio que morava na região fez os primeiros socorros. “Foi fundamental para que eu não morresse devido à hemorragia”, conta. O primeiro atendimento médico ocorreu somente dez horas após o acidente, quando foi levado para a cidade mais próxima, a 40 quilômetros. 

Após o ocorrido, em visita, um tio que morava em Brasília convenceu o pai de Nonato, seu Juarez Souto, a levar com ele o garoto para um tratamento adequado na capital federal, no Hospital Distrital de Brasília e, depois, no Hospital Sarah Kubitschek. “Durante esse período, fiz cirurgia e fisioterapia, e voltei a sensibilidade e os movimentos na mão esquerda”, destaca. 

Um convite feito ao pai de Nonato mudou o destino da família. Um tio que morava em Goiânia o chamou para administrar um armazém no Setor Vila Nova. Juarez se mudou para a capital de Goiás com a família, que incluía, além da esposa e de Nonato, outros sete filhos. “Esse meu tio vendeu o armazém para o meu pai, que quitou o negócio com o salário de gestor do estabelecimento. Isso é generosidade e cooperação”, afirma.

Nesse período, Nonato já se dedicava com afinco aos estudos. Fez o ginásio em Brasília e Goiânia. Já o científico (hoje, ensino médio), fez em colégios referência na capital de Goiás naquele período: o Colégio Estadual Presidente Costa e Silva (Colu) e o Carlos Chagas. As melhores notas eram nas ciências exatas, mas, por ironia do destino, escolheu a medicina como opção para o vestibular da Universidade Federal de Goiás. “Eu tinha uma ideia fixa na medicina, sobretudo pelos benefícios que ela me deu após o meu acidente na infância”, relata. 

Em 1984, concluiu a faculdade, dando início a uma carreira profundamente ligada à defesa da vida. Especialista em infectologia, ele dedicou 38 anos de sua história ao Hospital de Doenças Tropicais (HDT). Ali, enfrentou epidemias e olhou nos olhos das dores mais complexas da sociedade na época. Uma delas, o HIV/aids. 

“Vi muitos pacientes morrendo. Colegas médicos desistiam da especialização na área, porque não conseguíamos salvar a vida dessas pessoas. Realidade bem diferente de hoje, em que, se cuidando, o paciente não morre mais. O HIV se tornou equivalente a uma doença crônica”, explica. 

Na medicina, Nonato ainda foi professor colaborador da UFG e professor efetivo da PUC e da UEG. Também fez mestrado e doutorado em Ciências da Religião, abordando o tema religião e Aids. Foi também conselheiro e presidente do Conselho Regional de Medicina (Cremego), bem como Conselheiro do Conselho Federal de Medicina. Mas uma iniciativa pioneira na década de 1990 contribuiu para criar uma das maiores forças do sistema cooperativo no País. A união de Nonato e outros 31 médicos criou a Unicred Goiânia, democratizando o acesso a serviços financeiros.

38 anos de cooperativismo

cooperativismo aconteceu em 1988, quando se tornou um cooperado da Unimed Goiânia, assumindo posteriormente os cargos de conselheiro e auditor técnico. Quatro anos depois, os médicos da cooperativa iniciaram, na capital, um movimento, que já existia nacionalmente, para a criação de uma cooperativa de crédito para os profissionais da área. Nascia a Unicred Goiânia.

Em 1995, Nonato assumiu o conselho de administração da entidade. “Fui aprender como funcionava. Achei o cooperativismo financeiro muito mais atraente, a gente via o resultado. Fiquei tão fascinado que nunca saí”, destaca.

A antiga Unicred Goiânia teve várias mudanças de nome. Já foi Unicred Goiana, Unicred Centro Brasileira, Sicoob Unicentro Brasileira e, atualmente, é o Sicoob UniCentro Br. A entidade tem sede na capital de Goiás e está entre as dez maiores do sistema Sicoob, administrando mais de R$ 10 bilhões em ativos e representando cooperados de Goiás, São Paulo, Tocantins, Distrito Federal e Minas Gerais. 

Após ocupar os cargos de diretor administrativo, diretor financeiro e diretor-presidente da cooperativa, Nonato assume, em outubro de 2023, a presidência do Conselho de Administração da Central Sicoob Uni. “Me capacitei muito até chegar aqui e consegui entender profundamente o funcionamento do cooperativismo e da entidade”, avalia.

Mesmo com a facilidade de já conhecer todo o sistema, ele admite que a cobrança é muito maior. “É mais complicado dirigir dirigentes. O nível de exigência é bem maior”, acredita.

A Central é formada por oito cooperativas de 13 estados e do Distrito Federal, que possuem ativos de R$ 23,5 bilhões.A Central é uma instituição independente, promotora da integração regional e estadual das cooperativas do Sistema. Ela é responsável, entre outros, pelos serviços de centralização dos recursos captados pelas suas cooperativas; padronização e supervisão de sistemas operacionais e de controle de depósitos e empréstimos; assessoria jurídica e de comunicação; e intercâmbios para qualidade e treinamento profissional.

Mas, sob o olhar do atual presidente do Conselho de Administração, a gestão financeira ganha contornos humanos. Defensor assíduo de que a educação financeira e o ensino formal são os verdadeiros pilares de desenvolvimento de uma nação, ele atua para expandir o conhecimento além das agências. 

Nonato explica que considera o princípio do interesse pela comunidade com um dos mais importantes do cooperativismo. “Fazemos cursos de educação financeira gratuitos e ajudamos populações carentes pelo Brasil. O trabalho de nossas cooperativas, em muitos munícipios, representa um valor fundamental para o crescimento das comunidades locais. As cooperativas conseguem impactar diretamente a realidade social e educacional por onde passam”, avalia. 

Ele ainda destaca a transparência e a profissionalização do cooperativismo financeiro no Brasil. “Somos muito bem reguladas pelo Banco Central e pelo próprio sistema Sicoob para evitar fraudes e abusos de dirigentes. Além disso, os profissionais que atuam em nossas cooperativas são extremamente capacitados e disputados pelo mercado”, afirma.

A justiça na distribuição dos resultados financeiros está entre as principais vantagens do sistema. “Como é o próprio grupo que administra os recursos, o percentual de cada cooperado é equivalente ao que contribuiu para a geração de resultado da cooperativa. É diferente de um banco tradicional, em que o correntista não recebe nada pelo resultado da instituição. É um sistema muito bonito e estimulante”, considera. 

A participação cada vez maior da sociedade brasileira no cooperativismo é o que projeta para o futuro do setor. “Antes éramos apenas 2% do sistema financeiro nacional, hoje, temos mais de 10%, o que incomoda os bancos. A esperança de que mais pessoas possam aderir é muito grande. Chamamos de inclusão financeira, em que os cooperados aprendem a poupar e a trabalhar em conjunto”, avalia. 

Família 

O cearense que chegou ao Centro-Oeste do Brasil sabendo apenas assinar o nome, a tabuada e um pouco de leitura, e se tornou médico infectologista e um dos principais nomes do cooperativismo no País, está casado há 21 anos com Deividiana Santos Leite. Com ela, tem um filho e uma enteada, que considera como filha. Além deles, tem mais duas filhas, frutos do primeiro casamento.      

Mais dois netos integram a família, a Maria Liz, com apenas um mês de vida e o Bernardo, que tem 13 anos de idade. 

Nos momentos de lazer, a família se reúne em uma casa que Nonato tem no município de Bela Vista e em viagens a outros estados brasileiros e ao exterior. “Minha filha mais velha mora em Miami, nos Estados Unidos. Em setembro, vamos lá visitá-la”, conta sobre os planos para as próximas férias. 

Mesmo quando está de folga, Nonato não abandona o hábito de acordar bem cedo, costume de quem foi criado na roça, no sertão nordestino. “Sou madrugador, acordo muito cedo. Às 18 horas já estou com sono, consigo aguentar um pouco, mas durmo entre 20 e 21 horas e acordo às 4:30 da manhã todos os dias, até quando estou viajando com a família ou sem trabalhar. É um costume que herdei da minha família”, conta. 

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