No final de 2019, o clima no ambiente de negócios brasileiro era de otimismo contagiante. Conduzindo ciclos de planejamento estratégico com clientes de diversos setores, a diretriz era clara: desenhar metas ousadas e projetar um crescimento acelerado. O ano de 2020 começou confirmando a tese com resultados de janeiro superando até as expectativas mais ambiciosas.
Aí, o incalculável aconteceu, com a chegada da pandemia e a necessidade dos lockdowns, o mundo parou e os planos traçados com tanto rigor pareciam, de um dia para o outro, ter perdido o sentido. A reação imediata de muitas lideranças foi o desespero, mas a gestão exige que a fumaça da crise seja dissipada antes de qualquer tomada de decisão.
Fomos ao trabalho e sentamos novamente à mesa para revisar cada planejamento. Foi um exercício revelador, algumas empresas precisaram recalibrar as suas metas para baixo e proteger o caixa, porém, outras viram suas demandas explodirem e precisaram revisar seus planos para cima acelerando expansões que levariam anos.
Essa é uma das grandes lições do período: cenários de crise e grandes transformações não afetam a todos da mesma maneira. Não existe receita única nem diagnóstico de prateleira para o mercado. O impacto real sobre o seu negócio depende do setor, da agilidade de leitura do ambiente e da capacidade de adaptação da governança.
Em momentos de incerteza extrema, o maior perigo para conselheiros e executivos é agir no impulso, seja pelo pânico, seja pelo excesso de otimismo. A alta direção precisa cultivar a disciplina da racionalidade: analisar o contexto com calma, separar o ruído dos fatos e entender onde estão as ameaças reais e as oportunidades ocultas.
Planejar não é adivinhar o futuro em uma bola de cristal, mas sim construir capacidade de resposta. Mudar a rota no meio do caminho não significa que o plano original falhou, mas sim que a empresa possui maturidade e inteligência estratégica para ajustar as velas e continuar navegando com firmeza rumo ao seu propósito.

Ronaldo Guedes, sócio da Lure Consultoria, Coordenador do IBGC e Diretor da Acieg














