Quem está no campo já percebeu: conseguir dinheiro ficou mais difícil. A pergunta é se o crédito para o agro está de fato escasso ou se apenas mudou de mãos e de critérios. A resposta começa pelos números.
O retrato do mercado
A inadimplência no crédito rural de pessoas físicas chegou a 9,7% em agosto de 2026, a maior da série do Banco Central, segundo o Cepea/Esalq. A carteira problemática soma R$ 205 bilhões, quase um quarto do crédito rural do país. Em 2025, mais de 1.600 produtores pediram recuperação judicial.
A reação foi previsível. Bancos endureceram exigências e cortaram limites, calotes em CRAs deixaram investidores de Fiagros mais cautelosos e revendas de insumos, tradicionais financiadoras do produtor, entraram em reestruturação.
O dinheiro não sumiu, ficou exigente
Ainda assim, fundos especializados no agro, como Fiagros, FIDCs e investidores de CRA, seguem emprestando. O que mudou foi o filtro: histórico de pagamentos, endividamento total, produtividade, contratos de venda e, principalmente, garantias executáveis. O Cepea mostra que a crise veio mais do custo da dívida do que do seu tamanho. Quem tem estrutura de capital equilibrada continua sendo disputado.
As saídas possíveis
1. Organizar a casa antes de pedir. O financiador decide com base em informação, não em promessa. Demonstrações financeiras confiáveis, fluxo de caixa projetado por safra e um mapa completo das dívidas, incluindo tradings e revendas, mostram que o produtor conhece o próprio negócio. Uma proposta bem documentada sai da fila mais rápido e com custo menor.
2. Reperfilar antes de buscar dinheiro novo. Boa parte da inadimplência atual nasce de dívida curta e cara financiando ativos de longo prazo. Alongar prazos e alinhar vencimentos ao ciclo de colheita e comercialização alivia o caixa de imediato. Negociar com os credores atuais antes do atraso preserva o relacionamento e o histórico de crédito. Muitas vezes, resolver o passivo vale mais do que captar.
3. Tratar a garantia como ativo de negociação. Imóvel com matrícula limpa, CPR registrada, alienação fiduciária e recebíveis de compradores sólidos reduzem o risco percebido. Garantia boa não é só exigência: é o que derruba a taxa e amplia o prazo. Evitar comprometer todas as garantias com um único credor preserva espaço para novas captações.
4. Usar o mercado de capitais. CRA, CPR financeira e FIDC deixaram de ser exclusividade de grandes grupos. A CPR financeira permite captação direta com investidores, sem securitização. Para quem tem governança, essas estruturas oferecem prazos mais longos e menor dependência dos bancos. Fundos especializados conhecem o ciclo do agro e aceitam estruturas que o banco tradicional recusa.
5. Proteger a margem. Seguro rural, hedge de preço e venda antecipada de parte da produção reduzem a volatilidade do resultado. Para o financiador, previsibilidade de receita pesa tanto quanto a garantia.
6. Buscar assessoria especializada. Cada fundo tem seu apetite: cultura, região, porte, tipo de garantia. Saber a quem apresentar a operação, e como estruturá-la, evita negativas que deixam marcas no mercado e encurta o caminho até o funding.
O crédito para o agro não está escasso: está caro e seletivo. Quem se antecipa, com informação, governança e garantia, continua encontrando funding em boas condições. Este ciclo vai separar quem trata a fazenda como empresa de quem ainda não fez essa transição.

Maicon Farina, Sócio-Diretor da Lure Capital, Vice-presidente da Câmara Setorial de Governança Corporativa da ACIEG e Conselheiro Fiscal do Sicoob Unicidades. Executivo Financeiro pela FGV-SP, Estratégia pela FDC-MG e de Conselheiro de Administração pelo IBGC. Especialista em operações estruturadas de crédito e professor de Matemática Financeira.














